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O cara sentado naquele canto do bar, tomando vodka pura em um copo de uísque, é um escritor fracassado. Ele escreveu três romances e não publicou nenhum. Manda crônicas três dias para um jornal e mesmo assim não consegue se sustentar. Está magro, feio e gasto. A sola dos sapatos está descolando. E ele faz que não se importa, mas liga. Ele sabe que as coisas não vão bem, mas que se dane, ele é um escritor e isso basta. Isso basta. Mesmo o mundo inteiro dizendo que não, não é o bastante. Ser escritor não é nada. Não significa mais do que dizer que é um vagabundo desempregado que vive de inventar histórias sem valor de mercado. Ele devia arrumar um emprego, terminar a faculdade, esquecer daquele bar, do seu velho endereço e da sua vida decadente. Deixar sua dose de vodka no copo de whisky e sair pela porta sem pagar a conta, pendurada há alguns meses, não cobrada por misericórdia do barman. Eles são compreensivos. Ele devia nem voltar para pegar suas tralhas, que nem são tantas assim; uma escrivaninha, três grafites mordidos, uma caneta sem tampa, um pen drive de 2GB, também sem tampa, uma caixa de cigarros, só a caixa e um aparelho de audição, que serve para inspirar um novo personagem do seu mais novo ainda inédito fracasso. O mundo grita muito e ele, o cara sentado naquele canto do bar, se faz de surdo. Talvez até seja, porque ele paga a conta, sai pela porta em silêncio, apalpa a chave no bolso da calça jeans, procura os centavos do troco, acha um clipe e um papel de mentos e entra no apartamento de dois quartos cheio de postit nas paredes, e até no teto. Em letras garrafais em mais de um papel dá para ler, ler e até ouvir, ouvir até sentir, sentir e até acreditar. Ele é um escritor e isso basta por essa noite e por todas as outras porvir.
—  Theu Souza