ilha dos sonhos

“Não sei se já te explicaram muito bem o real sentido da expressão “quando me entendi por gente”, mas, do alto da minha concepção de mundo, das lições das minhas fábulas reais de um novo adulto, entendi que isso quer dizer, mais ou menos, “quando tomei consciência de que era o único responsável pela minha história”. Por todos os meus ganhos e perdas. Dono do meu próprio nariz. Comandante do, às vezes, sem rumo bem certo, leme do meu próprio destino. 

Revendo toda a minha consciência, desde que essa “ficha” caiu, percebi que nunca fui o mais corajoso dentre todas as diversas pessoas que conheço. Percebi até que preciso comparar a minha própria vida, as minhas próprias escolhas, com as das pessoas que já deram “certo", com as que, por diversos fatores, infelizmente, deram “errado”. Algo que me ajude a justificar o que sequer precisa de justificativa. Nunca me vi como alguém capaz de abrir caminho na floresta que liga a ilha dos sonhos ao mundo real.

Acontece que a vida, os amigos, os parentes, todo mundo meio que usa do medo como forma de nos conter. Como forma de nos moldar. Como forma de mostrar para nós mesmos que os caminhos por onde ninguém ousou ainda trilhar são extremamente perigosos, incertos, repletos de monstros e terríveis descobertas. Mas vivo me perguntando – como alguém pode ter tanta certeza sobre o que vou encontrar durante a minha trajetória, se ninguém, antes de mim, já ousou percorrer esse caminho?

Nessas horas, paro, respiro fundo, tento conter as minhas crises de ansiedade, a minha insônia, a minha cabeça que chega a ficar tonta de tanto querer e crio uma espécie de pacto secreto comigo mesmo – prometo, de antemão, que não será uma caminhada fácil. Que alguns percalços ainda tentarão me mostrar que não é certo abrir caminho, criar uma trilha por entre sonhos tão altos, difíceis de serem realizados, alcançados, mas não posso seguir sozinho. Preciso que você, lado irracional que racionaliza o medo, desânimo e insegurança, caminhe comigo. Você me ajuda a manter o sono longe. Ajuda a agir por impulso ou a contê-lo, às vezes, quando preciso. Mas, sobretudo, é a parte de mim que não consigo viver sem. Sendo assim, não posso dar um passo além, sem te trazer comigo. Só não quero que você venha na mala. Não quero, simplesmente, ter que te carregar. Quero que caminhe comigo. Os dois, lado a lado. Sem que a coragem precise duelar com o receio. Quero me entender como um único ser, com sentimentos diferentes. Sem precisar me desfazer de qualquer coisa que me caracterize, que me diferencie dos demais, só para a mochila pesar menos e eu conseguir andar mais um pouco. Medo, caminha comigo. Mas não seja a pedra que me derruba. Seja a pedra com a qual vamos derrotar todos os gigantes que ousarem atrapalhar o nosso caminho.” (Matheus Rocha)