ignorei

“Desde que eu me lembre por gente sou gorda. No começo eu era só ‘gordinha’, aquela criança um pouco maior que as outras, mas que chamava MUITA atenção por ainda ser mais alta que o resto, e uma coisa que aprendi na vida é que crianças são criaturas excepcionalmente maldosas quando podem. Os anos foram passando e fui ficando cada vez mais gorda e cada vez mais incomodada com esse fato (no colégio as coisas não melhoraram), até que eu percebi uma coisa genial: porque deixar os outros rindo de mim se eu mesma posso fazer a piada?

Agora eu era demais, a amiga gorda engraçada. Eu era o 'brother’ dos meus amigos, a pessoa destemida e cômica que nem ligava para o que os outros falavam, um verdadeiro cara grosso e palhaço. Essa foi a fórmula da minha vida, uma maneira simples de me enturmar onde quer que eu fosse, me dando muito bem com homens, mas não de uma maneira romântica, é claro. Ignorei o fato de odiar ser o gordo do grupo, de ser a engraçadona que não tem um pingo de feminino no corpo e fui tocando a vida.

Depois de vários anos nesse papel comecei a ter azias constantes, que evoluíram para gastrites, que evoluíram para uma simpática úlcera. Comecei a ficar menos engraçada e mais ácida, seguindo o fluxo do meu próprio corpo, com isso minhas relações mudaram - eu me tornei a gorda desagradável. Eu já estava na faculdade, não estava mais com saco para agradar ninguém e nem tinha mais contato com meus colegas do colégio, simplesmente não ligava mais. Me tornei a gorda grossa, as pessoas diziam que eu era lésbica (porque naturalmente que não ser feminina é sinônimo de lesbianismo) e fui tocando na minha vida profissional. Me tornei reclusa e comecei a olhar para o que havia de mais lindo e era o que eu estudava - o céu. Não tenho que ser bonita ou engraçada onde estou agora, o que importam são os resultados do meu trabalho, que vai muito bem, obrigada. O que tenho agora são horas de silêncio e pesquisa, num lugar onde sou reconhecida pelo que faço, desviando os olhos da tristeza humana que me cerca, na companhia simples do vazio.”

“I’ve been fat ever since forever. In the beginning I was just 'chubby’, the kid who’s a little larger than the rest of the gang, but who drew TONS of attention for being way taller than the others. And if there’s one thing I learned is that children can be awfully mean when they get the chance. Years went by and the fatter I got, the more upset I’d be about it (things didn’t get any better in school), until I saw the light: why should I let people laugh at me when I can be the one cracking the joke?

Now I was plain awesome, the funny fat friend. I was just a dude amongst my male friends, the fearless and hilarious pal who wouldn’t give a damn to whatever people said, the rude guy joking around. This was the script I followed in my life, a simple way to get along with people wherever I went, doing just fine with men - except not in a romantic way, of course. I ignored the fact that I hated playing the fat guy part in the gang, or the buffoon with no sign of femininity whatsoever, and just went on.

After playing the part for plenty of years, I started getting heartburns that evolved into gastritis - which then evolved into a gastric ulcer. I got less funny, more acid, just like my body. That also affected my relationships, making me the unpleasant fat gal. I was already in college, wouldn’t give a shit about pleasing people and even had lost contact with my friends from school, I simply didn’t care. I became the rude fatty, people started calling me a lesbian (because not being girly is an obvious sign of homosexual behavior amongst women), and once again I just went on. At some point I became reclusive, and then I started paying attention to the most beautiful sight ever, just the thing I studied: the sky. I don’t need to be pretty or funny where I stand right now. The one thing that matters is the outcome of my work - and it’s going rather well, thank you. What I have now is hours of silence and research, in a place where I’m acknowledged by what I do, where I can avert my eyes from all the human sadness around me, having the void for company.”

essa hora da madrugada eu aproveito pra visualizar todas as mensagens que eu ignorei durante o dia só pra tirar a notificação

Tentar escrever sobre a última vez que estivemos juntos ainda faz o peito doer (eventualmente deixará de ser assim, como diz a música, eu sei) - e se é honesto que me queres, tudo o resto se vai já tornando indiferente. Uma indiferença que tenta apenas fugir ao ressentimento amargo, porque é muito melhor guardar com amizade tudo o que de vez em quando dá umas pancadas dolorosas na caixa torácica a querer sair – coisas que já nem sabia estarem por aqui, admito. É uma indiferença forçada, evidente, tu sabes que nunca te ignorei com facilidade. Mas desta vez não é uma birra – ambos sabemos o que é que essas fizeram por nós. É um aperto de mão nervosamente cordial, um “até depois” repleto de fingimento (na verdade não me voltas a pôr a vista em cima, minha querida, com isso não te tens que preocupar mais). Apesar de tudo, acabo sempre a escrever sobre os dias que vão desaparecendo de dentro de mim. Será uma tentativa de os preservar com carinho? Ou de os revisitar uma vez derradeira, para depois varrer daqui para fora todos os momentos gravados como stills de um filme que já não conheço mais (sabes que sou um desarrumado, atiro-te para uma estante e deixo-te lá até um dia de limpeza em que esquecer-nos - sem me zangar - seja mais conveniente).

Vestida de veludo encarnado (os teus amigos a falar do quão bonita vinhas nessa noite), os lábios pintados com o batom com que não me voltarias a besuntar (como o dos dias em que cheguei atrasado às aulas, sujo de amor, flores nos cabelos deixadas lá para que não me esquecesse de ti) e umas gargalhadas nervosas sobre como quase te confundias com as cadeiras do teatro. A sala escurecida não me impediu de reparar no teu olhar de quem sabia que aquela seria a última peça que eu representaria secretamente a teu lado (lembro-me até vagamente das primeiras a que assistimos juntos) e que assim que o pano caísse cada um ia para a sua paragem de autocarro sem olhar para trás. Teimosa, eu podia perfeitamente ter levado outra rapariga, e mesmo assim quiseste vir, para gozares com o meu coração só mais um bocadinho. E eu deixei. Tinha-te comprado flores, confesso - mas não as levei. Foram horas a escolher as mais bonitas, aquelas de que ias gostar mais (amores-perfeitos, como aqueles que tínhamos visto na serra uns dias antes, agradam-te?), mas deixei-as na cómoda. Ainda me acusavas de manipular aquela ida ao teatro, de te exigir de volta com um vasinho de flores apontado ao teu coração – e francamente, já tive a minha dose de acusações infundadas (pior, fundadas em gestos que para mim não foram nada senão carícias). Deixei-as – e, a seu tempo, passei a deixar-te a ti na cómoda também; as meias as cuecas os filmes deixados a meio os instantes em que éramos um só, reflectidos na parede do meu quarto – puff, tudo no fundo da gaveta, que as minhas dores de costas já não deixam andar contigo ao colo todo o santo dia.

Ainda bem que aproveitaste o bilhete (que, justiça te seja feita, tinha sido comprado para ti com semanas de antecedência) enquanto era tempo, porque eu cá já me instalei na cave a remendar os bocadinhos de sanidade que vou achando nos bolsos dos casacos e agradecia que não me interrompesses. Um ou outro talão de alguma viagem de metro ou ida ao centro comercial contigo – lixo. Nessa última noite – os desenhos no tecto do teatro, as cabeças encostadas como se ainda fôssemos amigos deitados num descampado a ver as estrelas – e depois, um abraço rápido de despedida, nada de beijinhos (ainda há dias tínhamos adormecido nus na tua cama, parvalhona desmemoriada; fora há umas horas apenas que me tinhas ido deixar ao elevador, de pijama, adoravelmente despenteada), o cheiro inebriante (de raspão) a perfume e desodorizante e suor que as lavagens foram adormecendo da minha roupa para fora, as fronhas e lençóis e molduras e dias que atirei para a máquina assim que desligaste a chamada, impassível e cruel como nunca tinhas sido. Acumulo caixas de roupa e fotografias a que não sei bem o que fazer – pura preguiça, minha amiga, não julgues que me apeguei ao que quer que seja (se o admitisse, fazias pouco de mim? voltavas para os meus braços, enternecida e piedosa? então fode-te, já que és tão boa nisso).

Deixa-me vaguear por esta cidade que já não nos pertence – não me sigas, volta para trás, andares por aí sozinha à noite não é seguro – precisas que te leve a casa? que te pague um táxi? Preciso de estar só para me esquecer de qual foi o banco em que devorámos bolo e vinho e bolo e risos e qual a escadaria em que – queres mesmo que escreva isto? És capaz de não querer que te lembre, que já estás comprometida – não vejo bem onde está a indecência de relembrar coisas que já estamos fartos de saber, até te devias orgulhar, mas também não estou para me chatear.

Apalpo o bolso das calças e encontro aquilo que procurava – dispenso mais informações do meu médico ou farmacêutico e limito-me a engolir tantos quantos saem do frasco à primeira, como se cada um desse cabo de um desses dias fedorentos de amor – palavra mais detestável.

Sei – e tu sabes que eu sei – com que calor o adoras com esses teus lábios suaves, com que sorriso de menina bonita lhe dás beijinhos pelas costas pelo rabo pelas pernas – e que vontade de vomitar – como lhe entrelaças os dedos no cabelo quando fodem. Como lhe salpicas a cara de tinta quando pintam. Ele fecha os olhos quando saboreia o café que um beijo teu deixou. Tu ris, encantadora como sempre foste. E com que repugnância não sei tudo isto – e com que ternura não o recordo – uma valsa nesta ruela, umas mãos por dentro das calças naquela outra, uma mala de livros roubados a um canto.

Como num jogo de crianças, uno os pontos numerados – e deixo-os desenhar uma mão. Trémula, hesitante, riscada em gestos pueris e meticulosamente descuidados (já vou a metade, não me atrapalhem agora). Sou muito melhor com as palavras, verdade seja dita. Os pincéis ainda espalhados pelo chão, mas já mal lhes presto atenção. Escrevo, novamente. Sou escritor, avisei-te logo no início. Nem sempre escrevo, mas sou escritor, nem que seja só porque me apetece ser. E sei-te tão bem – melhor do que a qualquer uma das minhas personagens – apesar de já não me comoveres. Desapaixonei-me, o que é que se há-de fazer? (”Viver!”)

E artistas? Que se dediquem aos da sua espécie – aproveito para te contar (somos amigos, não é?) que conheci uma actriz. Vejo nela todos os detalhes que ainda não sei escrever bem (e desejo ardentemente saber, depois de meses de dormência sôfrega de quem já não tem poemas para derramar) e reparo nas olheiras de noites insones manchadas de tinta, e sei que lemos (e escrevemos, em livrinhos de capa negra como os daquele verso de Fernando Pessoa) palavras muito parecidas – tenho-lhe mostrado os meus rascunhos, e se há uma coisa que sei é que estou em sarilhos quando começo a desvendar as sílabas desconjuntadas e trôpegas que noites sem dormir e momentos de embriaguez me fazem cantar.

E regressa a mania insuportável de querer ser nevoeiro – apesar de todo este sol que me vai enchendo o coração onde já não trovejas como antes – gelá-la até aos ossos, deixá-la quase cega de amor por mim – vou deixando a palavra fazer parte do meu vocabulário outra vez, cautelosamente, assim baixinho: 

a-m-o-r 

E depois Sol. Estores. Manhãs. Relva. Chuva. Becos. Miradouros. Bolachas. Bolos. Cinema. Sofá. Vinho. Despir. Pernas. Entrelaçar. Miminhos. Lábios. Língua. Saliva. Selvagem. Caneta. Fugir. Tenda. Duche. Viajar. Amigos. Sorriso.

Amor, amor, amor. 

Fantasias de adolescente, é claro – nem de dioptrias percebo, quanto mais de uma coisa dessas.

Bem me vi
quando escolhi
conquistar com meu suor.
Quando ignorei
o dedo indicador
recheado de preconceito
e ignorância;
Bem me vi
quando enfim ganhei
sem me expor
apenas expondo
minha alegria
sem fim.
—  Darlís S.
Ele me olhou nos olhos e sorrindo disse “Fica mais um pouco”. Eu sabia que o que ele queria era que eu continuasse ali, nua, por cima dele, fazendo o que dois corpos imersos de desejo fariam, mas eu ignorei e pensei “Por você eu ficaria a vida inteira.”. Então eu sorri, dei-lhe um beijo de alguns segundos e respondi que tinha mesmo que ir embora.
Ele é todo desejo e eu sou toda paixão, uma hora essa desigualdade ia machucar.
—  W.A.R.
Cala essa boca, que isso é coisa pouca perto do que passei. Eu que lavei os teus lençóis sujos de tantas outras paixões e ignorei as outras muitas
—  Los Hermanos. (via caosnosso)

anonymous asked:

tem reggae romântico pra me sugerir??

vc acabou de mandar outra ask uahsuha eu não ignorei, to esperando meu amigo que ouve muito mais reggae do que eu indicar, pq eu conheço bem poucas 

“ Acho que a melhor parte do meu dia é quando me lembro que vou chegar em casa e você vai vir jogar conversa fora , vai dizer que sentiu uma saudade sútil , vai ser meu aconchego, a melhor parte é quando sei que você amenizará toda aquela dor que ignorei na minha insignificante rotina; quando sei que você vai reconhecer meu jeito revirado , cansado , e necessitada de cada carinho seu. Do dia não , talvez da minha vida você seja a melhor parte , é lembrança que solta o riso , é meu desvio de caminho de um lado ruim para um lado bom , é meu sorriso genuíno e autêntico do dia , é parte pela qual eu esqueço de tudo que me restringe e me enfraquece; mas não é dependência , é saber que a melhor parte de tudo , talvez seja ter você pra fazer parte de mim. “ 

Eu já te disse as mais belas palavras e as piores também.
Já chorei por você e sorri por uma mesma lembrança.
Já lutei com todas as forças e desisti como se nunca tivesse tido a mínima chance.
Já acreditei no seu amor e já odiei sua falsidade.
Já te entendi, me confundi.
Já concordei e discordei como sempre, no lado da razão.
Já te critiquei querendo elogiar, já elogiei com duplo sentido.
Já te implorei pra ficar e mandei embora pelos mesmos motivos.
Te provoquei, ignorei.
Já gritei pra você, sussurrei por você como gritei por você e sussurrei pra você outra noite.
Já fiz tantas coisas que chego a suar.
Parece tão pouco que volto a escrever. Apenas sonhando em poder reescrever nossa história. Colocar uma vírgula, ignorar esse fim.
Buscar forças e te provar que posso muito mais. Que faria o que quisesse; faria muito além só pra nunca te perder!
—  Inajara Malheiros