humorado

Eu te quis. Eu te garanto que ninguém te quis mais do que eu. Eu quis o teu bem até quando provavelmente você quis meu mal. Eu quis teu bem sempre que você ia. Eu pedi e torci pelo teu bem em todas as novas tentativas e em todos os erros, eu quis que você ficasse bem.
Eu te desejei até quando ninguém mais de desejou, eu te desejei desajeitado, mal humorado e bruto. Eu te desejei naquela noite fria de inverno e na mais quente noite de verão. Eu te desejei com o Sol ardente e com a geada que cobria o chão.
 Eu quis teu abraço quando estive sozinha e quis também no meio do povo. Eu te abracei quando esteve sozinho e te abracei na frente de todos.
Eu queria teu colo e teu aconchego, eu queria teu cafuné e o teu dengo. Eu quis poder ficar de olhando a vida toda porque nenhum tempo era perdido do teu lado. Eu queria que fosse ficasse, eu pedi que você ficasse.
E você ficou.
—  Relatos de uma qualquer
O retorno de Arthur Aguiar

 Capítulo 1 :

 Os irmãos Aguiar viviam arrumando confusão. Na pequena cidade de Antietam, no estado de Maryland, não era lá muito fácil fazer isso, mas só, a procura já significava metade da diversão.

Quando se amontoavam no Chay de segunda-mão de Micael, brigavam para decidir quem pegaria o volante. Embora o carro fosse de Micael, e de ele ser o mais velho, isso não tinha muito peso para os três irmãos.

Arthur queria porque queria dirigir. Sentia uma necessidade de velocidade, uma sede de varar estradas sinuosas, escuras, com o pé na tábua e o espírito imprudente.

Talvez porque se revelasse tão claramente o gênio ruim nos olhos verdes de Arthur e na fria configuração da boca, ele perdera por votos. No fim, Chay tomou o volante, com Micael no assento do carona. Arthur seguiu mal-humorado no banco de trás com o irmão caçula, Jack, ao lado.

Os Aguiar eram um grupo violento e perigoso. Todos altos e esguios feito garanhões selvagens e punhos prontos para acertar alguém a qualquer momento. Quando lhes baixava o humor sombrio, um cara sensato mantinha-se a dez ou mais passos atrás.

Resolveram jogar sinuca e tomar cerveja, embora Jack se queixasse de ainda ter menos de vinte e um anos e não poder beber na Taberna de Duff.

Apesar disso, o bar escuro e cheirando a fumaça combinava bem com o espírito deles. O olhar mal-encarado de Duff Dempsey, sobre a mesa de sinuca, era quase irritante. A cautela dos outros fregueses, fofocando entre os copos de cerveja, evidente.

Ninguém duvidava de que os meninos Aguiar saíam em busca de confusão. No fim, acabavam encontrando o que procuravam.

Com um cigarro no canto da boca, Arthur franziu a testa e assestou a tacada. Não se dera o trabalho de barbear-se dois dias seguidos, e a espessa barba por fazer espelhava seu mau humor. Com uma pancada certeira, fez rolar a bola branca que acertou a sete na caçapa.

— Que bom que você tem sorte em alguma coisa — gritou do balcão Joe Dolin, emborcando a cerveja.

Já estava, como de hábito ao anoitecer, embriagado e implicante. Outrora, fora o astro do time de futebol americano do colégio e competira com os Aguiar pelos “favores” das meninas bonitas. Agora, com vinte e um anos recém-feitos, o rosto começara a inchar e o corpo a afrouxar.

O olho roxo que deixara na jovem esposa antes de sair de casa na verdade não o satisfizera o bastante.

Arthur marcou com giz sua tacada e mal dispensou a Joe um olhar.

— Tocar aquela fazenda vai exigir mais que ganhar na sinuca, Aguiar, agora que sua mãe se foi — continuou Joe, balançando a garrafa entre dois dedos e rindo. — Ouvi dizer que vocês vão ter que arrendá-la para pagar os impostos atrasados.

— Ouviu mal — retrucou friamente Arthur, contornando a mesa para calcular a nova tacada.

— Oh, ouvi muito bem! Vocês Aguiar sempre foram uns idiotas e mentirosos.

Antes que Jack avançasse no homem, Arthur estendeu o taco para bloquear a passagem.

— Ele está falando comigo — disse tranquilamente. — Não é, Joe? Está falando comigo?

— Com qualquer um de vocês. — Quando tornou a levantar a cerveja, Joe encarou os quatro irmãos.

Aos vinte anos, embora Jack fosse parrudo, devido ao trabalho braçal na fazenda, ainda era mais menino que homem. Chay possuía olhar frio e ar pensativo. E Micael se recostava no caça-níqueis de música, à espera da próxima jogada.

Joe voltou os olhos para Arthur. Viu alguém prestes a explodir.

— Mas você serve. Sempre achei você o mais fraquinho do bando, Arthur.