horror e beleza

O segredo está em saber se olhar de fora. Sair do corpo, despir a pele, colocar-se em uma vitrine diante da auto exposição e olhar no fundo dos nossos próprios olhos. Ler nossa história como se não fosse nossa, como se fosse apenas mais um conto de amor banal, desses que a gente está cansado de ler. O segredo está na mudança de ponto de vista: quem olha de fora da janela para dentro da sala vê o defeito, a trinca na parede, a tinta que descasca. Coisas que os olhos de quem está dentro, acostumados, ignoram. O segredo é o olhar do visitante. Que repara na bagunça e não é influenciado pelas paixões que turvam a visão. Sair do nosso corpo, abrir um zíper nas costas e olhar da janela para dentro nos faz ver os horrores da carne e as belezas não vistas. Porque quem está dentro nunca vê saída, a porta está sempre trancada. O olhar de quem passa do lado de fora capta, no entanto, todos os ângulos e encontra sempre um portão baixo o suficiente para ser pulado. É olhando da janela para dentro que a gente entende que existe sempre um outro jeito. Existe sempre uma forma de escapar daquilo que pensávamos estar anexado a nossa vida mas que, na realidade, pode ser facilmente abandonado desde que exista um pouco de coragem. Quando nos colocamos em uma vitrine e focamos nossas bocas secas e nossas peles pálidas, feito manequins, a gente entende que a caverna de Platão em que vivemos, engana. A gente finalmente compreende que é preciso fugir. Lá fora não há perigo, há liberdade.
—  Rio-doce