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Existem mil formas de dizer a mesma coisa, mas só uma é a certa. E com isso, o escritor é um escolhedor, não um escolhido. Ele está eternamente preso em uma sala com uma única porta que dá para vários corredores. À direita pode encontrar o nada, à esquerda o tudo, à frente pouco mais que algum sucesso e olhando para trás talvez encontre o brilho de alguma estrela nascida recentemente em seu micro universo pseudo caótico. Se só houvessem essas escolhas, esquerda, direita, para frente e para trás, a vida até seria simples, o problema é que os corredores se estendem diagonalmente, entre dimensões. Acima, abaixo, para o lado de cá, de lá. Naquele canto, embaixo daquela mesa. São muitas opções, corredores de portas fechadas com uma chave que é dada somente ao escritor que faz a escolha certa. Sabe se lá que coisa a gente encontra se abrir a porta da saída. As canetas passeiam por esses corredores, batem nessas portas, como crianças travessas, tocam a campainha, correm, se escondem das vistas do propenso anfitrião para rir ou esperam na porta para pedir um copo de água gelada, dada de má vontade. A borracha fecha essas portas. Amassar a folha as destrói e tudo que não queremos é acabar com todas as possibilidades antes mesmo de termos certeza se estamos diante do certo ou do errado. E digo, para valer, que em geral nós, escritores, escolhemo a maneira errada de falar as coisas dentre as mil existentes. Porque racionalizar tudo é cansativo, é bom não analisar tudo, que nem diziam os amigos do Fernando quando alguém desistia antes de começar. Não analisa, não. O bom mesmo é agir, agir por agir, sem saber aonde se quer chegar. Correr pelas portas com vendas nos olhos. Fazemos isso todo dia. Somos escritores. Somos também cegos, por sermos escritores, mas menos cegos que a maioria que não tenta compreender a palavra que existe por detrás de cada porta.
—  Theu Souza