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Valorizar o Brasil por isso?

No meio do Sertão, um sertanejo observa o sofrimento de seus amigos e familiares. Repara na seca, na morte, no descaso. Percebe a alegria que chega com a chuva… E faz, de tudo isso, poesia; faz, de tudo isso, música. Num ritmo hora alegre, hora melancólico, conquista o país inteiro com o seu protesto.

Chega a passar ao mundo uma face um tanto esquecida do Brasil. Divulga os problemas de seu povo, mostra a todos a miséria e até mesmo os momentos de alegria. Torna-se um mito, cresce junto ao seu trabalho e morre.

Depois de sua morte, juntam-se aos montes pessoas a fim de continuar seu trabalho. Cantam saudosos cada uma de suas canções. Chegam até mesmo a fazer uma grande comemoração no dia em que completaria cem anos de idade. A divulgação do centário chega na mídia… E sua história de vida cai na boca do povo, novamente.

Falam por aí que a música dele é um símbolo do Brasil, que é uma verdadeira prova da nossa arte. E eu não discordo… Mas devo admitir que o exagero me soa até mesmo como um desrespeito ao grande artista.

Ontem mesmo, li em uma rede social o seguinte comentário sobre esse ídolo:

“E tem gente que, mesmo assim, não valoriza o Brasil. Se ouvissem essa obra de arte, veriam melhor nosso país, sem sombra de dúvidas.”

Mas eu pergunto… Essa tal obra de arte não protesta justamente contra os problemas do país? O artista reclama da seca, da miséria, da fome do povo. Ele abre os olhos para uma realidade meio esquecida pelos moradores dos grandes centros nacionais… Devo valorizar o Brasil por isso?

Devo achar o país melhor porque um brasileiro conseguiu retratar bem os problemas que existem por aqui? Vou valorizar o Brasil porque há protestos muito bem feitos contra ele? Posso, simplesmente, encantar-me com a beleza dos versos e esquecer-me dos problemas citados? Foi pra isso que as músicas foram feitas?