giovanna zambianchi

sonhar com o universo que me acalma

Se é desse mundo que pertenço, quem ouve minha dor quando a noite cai? Quem cala o tempo? Há silêncio capaz de me engolir? Quero ouvir-te, céu chuvoso, quero ser tua quando as nuvens escurecem. Envolva-me, céu, neste teu azul profundo de curta paciência com as estrelas, quero-as para sempre estampadas no meu teto. Que se dane o Sol, não posso admirá-lo, ele cega meus olhos. Meus olhos querem ver, querem saber além do que os impede. Eu quero mais, eu quero escorregar na dor de saber que a vida é finita, e se for, quero ver de longe a Terra miúda no universo maior que a vida. Universo, seja eu! Traga-me quando eu for embora, suga minh’alma desamparada enquanto os vermes acabam com o meu corpo! Seja eu, que a dor em mim, desaparece, desvanece com o temporal. O dia já quer bater na janela do meu quarto. Mas, se o choro não cessa, porque hei de clarear junto ao dia? Quero ser noite enquanto meus olhos não secam, e para sempre universo. Mas se ainda há terra em mim, se ainda há mar e céu, tenho que viver entre quatro paredes e vez em quando desfrutar das ruas que contornam o mundo. E as pessoas que não me entendam, mas não quero amá-las, pois ainda não sei amar-me como bem pretendo. Sendo assim, posso aprender aos poucos a razão da vida quando nada se tem de felicidade complicada. Pois pra mim, felicidade é ver a folha cair de uma árvore quando o vento sopra forte. É ver o dilatar da minha pupila no fim da tarde. As coisas como devem ser, simplesmente simples. Agora sim, sinto-me leve e dentro do corpo que me faz eu, sinto-me destruindo as desgraças que decepam as noites de paz que me abraçam quando tenho saudade do que não conheço. Como é leve vomitar as palavras que aqui me acariciam. Posso enfim dormir e sonhar com o universo que me acalma.

(Giovanna Zambianchi)

Somos um, mas somos vários, num mesmo, num só, num único corpo-espaço, somos um e um milhão, num suposto coração que guarda por dentro o prazer de estar quase todo pro lado de fora, quando bate e explode pro mundo o tudo que tem aqui nesse nosso corpo todo cheio de coisa, todo louco pra fugir do sufoco que é guardar o todo dentro da gente. É por isso que a gente se reparte e faz de tudo um pouco, correndo num infinito corredor cheio de portas abertas, voando mesmo sem asas, suspirando mesmo sem vento e amando mesmo sem ser amado. O tempo é vasto e rápido, a vida é breve, mas leve e boa. Num piscar ou num olhar, a vida voa pro lado de lá e, depressa, a gente tenta alcançar a pressa de ser um só, quando o que resta é a beleza de sermos muito mais que um. Sejamos, então, mais. Sejamos o que somos: soma.
—  Giovanna Zambianchi
Ah, se meu corpo pudesse falar. Toda a podridão do mundo que está impressa neste meu corpo sem carne, nesses ossos expostos, nessa dor que expele na pele fraca, quase aberta, quase. Se eu pudesse, cantava alto para todo o mal que interfere essa linha cega cruzada nos olhos ainda mais cegos do que a linha que ultrapassa a luz do entendimento desconexo e discrepante que temos sobre nós mesmos. Quem é que diz que o peito bate forte quando sente dor? Ah, se meu peito apenas batesse, eu não teria apodrecido nesse findo corpo. Definho quando o sol bate na janela aberta do quarto completamente desarmado para um dia de sol, tem muito sol aqui dentro, tem pouca coisa pra acontecer e muita solidão debaixo do lençol. Sai sol. Sai daqui! Vai ver o outro lado do planeta, some de mim, que eu sumo do mundo, eu sumo do imenso que explode aqui dentro do quarto vazio, eu sumo da dor que, silenciosa, maltrata minha cabeça corroendo os espaços entre os pensamentos esparsos jogados na noite quando tem lua cheia, ou nova. Nova. Prefiro a lua nova que não aparece pra mim. Prefiro ela, que se esconde, prefiro ela, que some. Ah, mas eu sei, são todas uma única lua! Então por que dar a ela nomes distintos? Enfim, foda-se a lua. Eu quero mais é pensar no banho que vai derreter a angustia do dia, lavar a escuridão, contaminar o ralo de tanta coisa mal resolvida, mal entendida, mal digerida. Mal. Eu não queria falar de novo do mal, mas o mal me corrói, o mal me engole e me faz mal. Essa coisa quebrada, recortada, indigesta. Esse balde lotado, transbordando fissuras que não mais se juntam, essa rachadura infinita que destrói o belo, o suave, o deslizar da perna sua na minha, de noite, quando os carros já não faziam mais barulho. Não tem tampa que segure o transbordar do caos. Então banhe-se de caos, e esqueça a calma, jogue fora a alma e durma bem. Pois, hoje, eu durmo bem e ainda sonho com o amanhã.
—  Giovanna Zambianchi