gefiori

“Eu tenho essa dor de cabeça sabe, João? Essa angustia. Esse medo da vida, de viver. Eu cresci de uma hora pra outra, acordei num mundo que a gente vê em livro e não acha que é possível. Desde desigualdade, injustiça, preconceito, até coração partido. Só que no final tudo acaba bem, a gente vê pessoas más serem punidas e o príncipe sempre chega num cavalo branco brilhante. Mas e o meu final, João? Se eu tenho medo de sair na rua de noite sozinha. Se eu acho que qualquer pessoa que me trata bem tem segundas, terceiras e quartas intenções. A minha vontade de viver fica encolhidinha num canto escuro enquanto o medo do que tem escondido no beco só cresce. Eu quero ver o mundo, e ao contrário do que a minha mãe pensa, eu não quero morrer sozinha, João. Você acredita em mim? É possível os medos impedirem as pessoas de viver? É possível se querer ir além mas não saber por onde começar? Eu tenho sonhos, João. Grandes e pequenos. Sou a psicologa das amigas, das tias, do carteiro, mas e quem é o meu? Quem me ouve e me dá os conselhos sábios? Quem me escuta e fala “Ow, acorda pra realidade e para de covardia, menina.’’ ? Eu afasto as pessoas, João. Às vezes estou tão desesperada pra falar que faltam palavras, e elas não entendem. Sou mal interpretada, elas confundem a minha falta de palavras, o meu medo de me abrir com soberba e ego inflado, como se eu não precisasse de ninguém, mas mal sabe elas que eu preciso desesperadamente, João. Mal sabe elas como eu invento alguém para me ouvir sem eu precisar falar, João. Minha auto-estima é péssima. Vejo defeito onde não tem, sou negativa num ponto extremo e estritamente auto crítica. Tudo que faço poderia ser melhor e mais bonito. Não tenho dom nenhum nem sou excelente em nada. Não canto, não toco nada, não danço, não pinto, não desenho, não cozinho nada extremamente bem e sou ótima em ser desorganizada. Me vejo acordando e vendo que tenho 80 anos e vivo sozinha, numa casa cheia de memórias que não são minhas. Cheia de coisas que já foram de alguém antes de eu possuí-las. Cheia de histórias que eu li, mas que não escrevi. Eu estou com medo, João. Medo de passar o resto dos dias, das décadas sendo apenas espectadora. A minha história não precisa ser a melhor, nem a mais bonita. Eu só queria força de espírito pra ela ser feliz. Me ajuda, João. Me ajuda a entender o que falta em mim, e saber onde procurar. Me ajuda a colocar esses medos numa caixinha e só lembrar deles com o sorriso no rosto de saber que eles foram deixados para trás. Me ajuda com o medo de sair na rua, de confiar nas pessoas. Me ajuda a mudar o mundo para quando a próxima geração notar que cresceu não ter tanto medo quanto eu. Troca os meus olhos e me ensina a enxergar o começo de coisas boas para eu poder trilhar o caminho. Me trás paz de espírito e positivismo. Quando perceber que acordei com 80 anos quero ver que vivi.Que vivi bem. Que superei meus medos e que construí história, João. E que meus netos estão contanto ela. E se eles estiverem é porque eu tive coragem de confiar em alguém, e depois, João, eu confiei num mundo no qual eu possa entregar de coração uma sementinha que eu plantei com amor. Me ajuda a me amar, a amar o mundo. Me ajuda a encontrar uma fé, João.”

(via geovannafiori)