garagem aberta

LOUIS TOMLINSON

  • anna-luisa11:Você pode fazer um imagine do Louis em que ele é grosso e rude com ela e só liga para os filhos deles e ela fica triste então ele encontra ela chorando e fica tudo bem!? 
  • Mais um imagine pra vocês! Espero que tenha atendido ao pedido e que gostem! Volte na ask para dizer o que achou.
  • BOA LEITURA!


Ultimamente eu estava me sentindo fora do baralho pelo meu marido, ele chega do trabalho e simplesmente fingi que eu não existo a única coisa que ele faz é ir falar com nossos filhos que sempre estão comigo na sala brincando. Nesse momento eu estou assim, meus filhos brincando no canto da sala e eu sentada assistindo um filme qualquer que passava, escuto a garagem sendo aberta e o barulho do motor do carro sendo desligado, logo vejo meus filhos levantando pra ir falar com o pai e eu continuei sentada onde estava ele entrou abraçou os filhos, brincou com eles e depois subiu para o quarto sem falar comigo. Eu não sei o que acontece com ele, se ele está me traindo, ou se ele perdeu o amor dele por mim, e eu também não estava a fim de saber para não me machucar mais.

- Crianças tá na hora de dormir – falo pro Carlos e pra Anita

- Ah mamãe só mais um pouquinho – eles fizeram biquinho.

- Não dá, amanhã a Anita tem balé e você vai pra escola  - eles desistiram e acabaram indo subindo, desliguei tudo e subi atrás deles, coloquei o pijama de cada um e Carlos dormiu só Anita que demorava um pouquinho e fiquei com ela até ela dormir, quando nem percebi eu estava chorando, pode ser bobagem mas é difícil ser deixada de lado por alguém que você ama.

Quando a Anita dormiu, com o rosto ainda molhado respirei fundo para entrar no meu quarto e ele estava acordado com os olhos vidrados em seu notebook, e nem percebeu que eu entrei, fui ao banheiro escovar meus dentes e depois deitei na cama, meus olhos estavam vermelhos de tanto chorar e espero que ele não perceba. Deitei na cama e virei pro lado ao contrário que ele estava e as lágrimas logo vieram novamente.

- (Seu nome)? – ele me chama e eu fingo que estou dormindo, ele toca no ombro e eu sinto um arrepio - (Seu nome)? – ele me chama de novo.

- O que foi Louis? – sento na cama e olho pra ele

- Eu precisava da sua aju… você esta chorando? – ele pergunta

- Não - respondo seca

- (Seu nome) eu te conheço e eu sei que você está chorando , o que aconteceu?

- Você jura que não sabe?

- Não, não sei

- Olha Louis eu fico aqui o dia inteiro, levo e busco as crianças faço comida cuido deles o dia inteiro e a noite eu espero ter pelo menos um carinho do meu marido, você chega e simplesmente me ignora, fala só com as crianças e me esquece, eu estou chorando porque eu não achei que seria assim, você sempre me disse que faria de tudo pela nossa família, mas parece que você se preocupa mais com o seu trabalho do que com a sua família, principalmente comigo – ele abaixa a cabeça – me diga Louis, você não me ama mais? Quer se separar?

- Não (Seu nome) claro que não, é que estou tentando subir de cargo lá na empresa – interrompo.

- Não importa, sua família é mais importante que qualquer coisa – digo me levantando quando ele me segura

- Não vai! Me desculpe, eu estava me esforçando tanto que nem percebi – ele diz

- Eu estou torcendo para que você consiga, eu sei que você vai conseguir, mas não se esqueça da sua família – digo – e espero que isso mude porque não quero perder você

- E não vai meu amor, me desculpa se não percebi o que estava fazendo, prometo melhorar – ele me abraça – você me desculpa?

- Sim, desculpo – sorri e ele me beija – agora vem vamos dormir – nos deitamos e ele me abraçou. Esperando que ele mude esse jeito e seja mais atencioso, eu acredito e confio que ele vai mudar e vamos ser aquele casal que éramos antes.

LEMBRE-SE:PLÁGIO É CRIME!

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Reaction: deixando-os após uma traição

 

OBS: Desculpem a demora para postar um novo reaction, bolinhos… É que eu tive um sério bloqueio criativo shuashua Mas quero que saibam que todos os pedidos já estão sendo produzidos e logo logo estarão aqui no Tumblr! Obrigada pela paciência  (∪ ◡ ∪)

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2 Temporada - Cap 6 (Clara's POV)

Eu finalizava com a última paciente do dia. Uma menina morena, de olhos castanhos e por ironia do destino ou não, estava usando um lacinho na cabeça. Ela não fez careta quando tomou a injeção, o que me fez sorrir e chamá-la de corajosa, arrancando uma risada dela. Ofereci um pirulito como recompensa e, como todas as outras crianças, me deu um beijo na bochecha em agradecimento. Levantei da cadeira e estiquei o corpo, tinha passado duas horas sentada naquela cadeira. Um outro médico apareceu para cobrir o resto do horário, o que me deu total liberdade para ir embora.

Retirei o jaleco e coloquei sob meu ombro, caminhando lentamente para dentro do prédio. O elevador, que costumava demorar mais ou menos cinco minutos para chegar ao térreo, estava parado bem ali. O que algumas feiras não podem fazer com uma faculdade. Entrei e apertei o andar da sala dos professores, recolheria minhas coisas e ia para casa. Esperaria Vanessa, mesmo sabendo que ela provavelmente terminaria comigo. Encostei a cabeça na parede de aço e respirei fundo, precisava ser forte. As portas se abriram e o corredor parecia de um hospital abandonado, sem ninguém passando por ali. Passei o cartão de identificação e destranquei a porta, entrando na sala dos professores. Abri meu armário, guardei o jaleco e peguei minha bolsa. Senti alguém cutucar meu ombro e virei rapidamente para ver quem era.

- Oi, Aguilar.

- Ferreira?! O que está fazendo aqui?

- Vim visitar minha esposa no ambiente de trabalho dela. – Pepa sentou-se em uma das mesas, entrelaçando os dedos e me encarando com um sorriso cínico no rosto.

- Bom, se foi a sua esposa quem você veio ver, não tenho nada com isso. Com licença.

- Você não pode tê-la. – eu parei imediatamente e voltei a encará-la, que agora brincava com o dedo indicador, fazendo desenhos na meda de madeira.

- Lucy?! Eu não quero a sua mulher, Ferreira. Eu tenho a Vanessa.

- Mas é exatamente dela que estou falando, Aguilar. – cerrei os olhos e ela fez um sinal para que eu sentasse à sua frente. – Senta, não vou avançar em você.

- Você não é louca. – sentei em uma cadeira afastada dela e a mesma respirou fundo, voltando a me encarar.

- Não aja como se não soubesse do que eu estou falando. Sabe que não pode ter a Vanessa. Ela está na faculdade, ainda vai viver experiências que você já experimentou, tem muito pela frente. O que você pode oferecer a ela agora, além de sexo e companhia?!

- Eu dou a ela tudo que você não conseguiu dar. – Pepa franziu o cenho e eu fitei seus olhos castanhos, cheios de dúvidas. – Amor.

- Amor?! – ela gargalhou e jogou a cabeça para trás. – Isso não vai sustentar nada, Clara. Você sabe bem o que a faculdade oferece, são quatro anos da vida da Vanessa que você não vai poder acompanhar como ela gostaria que acompanhasse.

- Sinceramente, o que você ganha me falando essas coisas?

- Estou te livrando de uma dor de cabeça maior. Nossa amizade de anos foi abalada por causa de uma adolescente que não soube decidir entre uma ou outra. Se a Mesquita já era assim no colégio, imagina o que não faria aqui?! – abaixei a cabeça e suspirei, a filha da puta tinha razão. – Clara, se for pra ser, ela volta pra você.

- Como assim?

- Deixa a Vanessa livre. Deixe que ela viva todas as experiências que ela precisar viver, vai ser bom para o amadurecimento dela. – segurou minha mão e eu rapidamente tirei. – Eu sei que você tem todos os motivos para desconfiar de tudo isso que eu estou falando, mas não adianta negar que concorda comigo. Eu estou feliz com a Lucy, sei que o que aconteceu no passado te dá vontade de não olhar na minha cara, mas não vamos ganhar nada remoendo isso. Pense no futuro, Clara. Vanessa precisa caminhar sozinha. – ela levantou da cadeira, caminhou até mim e colocou a mão no meu ombro, enquanto eu fitava um ponto fixo à minha frente. – Ela é uma criança que está dando os primeiros passos na vida adulta, faça como os pais fazem, deixe que ela caia, só assim que vai aprender toda e qualquer malandragem que vai aparecer daqui pra frente. Pense bem. – ela saiu da sala e me deixou ali, totalmente imersa em um mar de dúvidas. Por mais que eu odiasse, Pepa estava certa. Vanessa jamais cresceria se eu estivesse ali o tempo todo para segurar sua mão.

Retirei um papel de dentro da minha bolsa, uma caneta preta e decidi que estava na hora de fazer isso. Eu não seria forte o suficiente para falar nada na frente dela e talvez as palavras me serviriam de consolo. Comecei a batucar com a caneta em cima da mesa, passava as mãos nos cabelos e uma forte dor de cabeça começou a aparecer, tornando mais difícil o início da carta. O que eu poderia escrever? Como eu poderia escrever? Eram dois fatores importantes para que ela entendesse que eu não estava fazendo aquilo por mim, mas por ela. Vanessa era a mulher da minha vida, o que eu sentia por ela estava longe do que um dia eu já senti por Lucy. A maneira que eu olhava para ela, era mais pura do que um dia já olhei para outra pessoa. Ela era meu anjo da guarda, Vanessa salvou minha vida e minha sanidade. Eu não podia prendê-la a mim por ser tão dependente de seus cuidados, não podia guardá-la só para mim e evitar que conhecesse o mundo e as coisas maravilhosas e perigosas que a vida tinha pra oferecer.

Senti meus olhos pesarem e algumas lágrimas descerem pelo meu rosto, enquanto começava com as palavras. A cada letra, cada frase, mais lágrimas se formavam e eu limpava com as costas da mão. Não queria manchar o papel, não queria que ela visse que estava sendo mais difícil do que já seria deixá-la. Quando alcancei o meio da carta, larguei a caneta e me permiti desabar. Chorei mais do que meu corpo pode aguentar. Minha menina, minha Van. Ela com certeza ficaria longe de mim e não me olharia na cara, mas eu esperava que um dia, ela pudesse entender que todo esse sacrifício eu estava fazendo para vê-la bem, para que pudesse viver de uma maneira livre e despreocupada.

Levantei da cadeira e caminhei até a janela. A sala dos professores ficava no terceiro andar, que dava total visão do pátio onde estava ocorrendo a feira de medicina. Rolei os olhos pelo lugar e parei na tenda do Dr. Jones. Ele atendia uma senhora que devia ter aproximadamente setenta anos. Adorava assistir ao gordinho examinando seus pacientes de forma animada e especial, mas enquanto observava e admirava seus gestos, uma pessoa surgiu da parte do fundo da tenda, trazendo um estetoscópio. Meu coração apertou e mais lágrimas se formaram. Coloquei a mão na boca para abafar meus soluços. Eu queria sair dali, mas não conseguia. Ela estava tão linda de jaleco, os cabelos jogados para o ombro direito. Sorria e estava concentrada no Dr. Jones, enquanto ele explicava tudo para ela pacientemente. Me virei e fiquei de costas para a janela. Eu tinha que ser forte, eu precisava ser forte por mim e por ela. Olhei para a mesa e vi o papel e a caneta. Voltei para eles e terminei de escrever a carta, limpando meu rosto de cinco em cinco segundos para que as lágrimas não manchassem as palavras. Eu sabia que ela ia me odiar, mas se fosse para ser, Vanessa voltaria para mim.

Abri o armário da sala e peguei um envelope branco. Escrevi o nome dela no verso, dobrei a carta e coloquei a mesma dentro dele. Guardei a carta na bolsa, sequei meu rosto pela última vez, coloquei um óculos escuro e sai da sala dos professores, rezando para que não aparecesse ninguém no meu percurso da faculdade até a portaria do prédio de Vanessa. Os corredores estavam vazios como antes, silenciosos. A cada passo que eu dava, meu coração entrava em uma sequência de batidas aceleradas e lentas, combinando com meu nervosismo. O elevador chegou rapidamente e eu apertei o botão da garagem. Só assim eu poderia sair sem esbarrar com ela e correr para casa antes que Vanessa me visse no prédio.

As portas de aço se abriram e eu destranquei o carro, entrando rapidamente nele e dando partida. Estacionei de qualquer jeito na entrada do enorme prédio de apartamentos para alunos da Columbia e andei a passos largos em direção ao porteiro, que abriu um sorriso para mim. Entreguei a carta para ele e pedi que assim que Vanessa chegasse no prédio, deveria recebê-la. Ele assentiu com a cara confusa e eu virei as costas, entrando no carro e partindo em seguida. A cada sinal que eu parava, era bombardeada por lembranças. Viagens, conversas, brincadeiras, sexo, beijos, carinhos, troca de palavras e de olhares. Meu coração parecia querer sair do meu peito e correr de volta pra ela, ele sabia que lá era o meu lugar. Mas eu não podia, tinha que aguentar. Tenho certeza que Vanessa me agradeceria depois.

Passei em frente à uma loja de conveniência e decidi parar. Hoje eu afogaria todos aqueles pensamentos, por bem ou por mal. Entrei no estabelecimento e o homem que estava no caixa deu um sorriso fraco, como se estivesse dando boas vindas à sua humilde lojinha. Fui direto ao corredor de bebidas e comprei três garrafas de vodka. Vinho e whisky não serviriam. Enquanto eu pagava, o homem baixinho com cara de cubano, me olhava com curiosidade, provavelmente se perguntando do motivo de uma mulher comprar três garrafas de bebida e estar com o rosto inchado. Lancei um sorriso fraco para ele e sai da loja, destravando o carro e colocando a sacola no banco do carona. Será que ela já tinha visto a carta? Será que já estava em casa? Não podia mais pensar nisso, eu tinha que me desprender dela de alguma maneira. A medida que me aproximava do meu prédio, as lágrimas cessavam. Não que eu tivesse parado, mas já tinham diminuído. A garagem foi aberta e eu entrei com o carro, estacionando o mesmo em uma das três vagas que eram reservadas para o meu apartamento. Liguei a luz interna e me olhei no espelho retrovisor. Olhos inchados e vermelhos, nariz vermelho e lábios com uma cor mais viva. Estava um caco.

Peguei as sacolas e me arrastei para o elevador, apertando o botão da cobertura. Lembrei que Coyote e Mayra estariam lá e me amaldiçoei por esquecer de tal detalhe. A cada andar que subia, eu tentava respirar fundo e fazer aquela cachoeira cessar, mas não estava obtendo sucesso. As portas se abriram e eu levantei a cabeça, rumando em direção a porta. Ao abrir, vi Coyote sentado no sofá assistindo televisão e Mayra em seu colo. Os dois me olharam e eu não quis esperar por uma pergunta, apenas fechei a porta e caminhei para a cozinha. Joguei a pasta em cima da mesa, peguei as três garrafas e decidi subir para o terraço, não queria falar com ninguém e parece que ambos entenderam, pois não vieram atrás de mim. Comprar vodka e deitar na espreguiçadeira, observar a cidade e chorar, parecia ter se tornado um hábito constante depois que eu e Vanessa demos um tempo. Mas por um impulso, fui para o meu quarto. Nenhum lugar do mundo parecia ser mais seguro do que aquele espacinho. Claro que foi uma péssima ideia, porque depois de metade da primeira garrafa, já estava chorando novamente. Deitei na cama e senti o cheiro dela no travesseiro, eu me recusei a encostar nele depois da última vez que Vanessa dormiu aqui, queria manter aquele cheirinho doce presente. Apertei a fronha com força e sem pensar, depositei um beijo na mesma, como se ela estivesse bem ali. Olhei para a mesa de cabeceira e o porta retrato digital passava nossas fotos. Aquilo era uma tortura e eu não estava aguentando mais. Eu não queria deixá-la, mas precisei.

Minha cabeça já girava, sentia meu corpo mole e constatei que estava bêbada. Tentei caminhar em direção ao banheiro, mas não consegui, caindo perto da mesa de cabeceira onde estava o porta retrato. Massageei a têmpora esquerda e abri lentamente os olhos com muito esforço, observando a foto que aparecia. Foi a nossa primeira, tirada no dia do baile. Me levantei apoiando na cama e sentei na mesma, segurei o porta retrato e a cada foto que passava, eu deixei que lágrimas caíssem, molhando a tela. Então uma em especial apareceu. Era uma mensagem que ela tinha pichado na parede da casa de praia, que segundo ela, seria útil para exorcizarmos os fantasmas de Pepa. Eu lembrei de como Vanessa sorria, pedia como uma criança para que eu registrasse aquilo e que não ficasse puta da vida por ela ter escrito na parede. Mordi o lábio inferior e uma palpitação no meu peito veio como um soco. Ela estava bem abaixo da mensagem, sentada com perna de índio, braços abertos e sorria largamente, orgulhosa de seu feito.

“Não importa o que digam, não importa o que façam, não importa o tempo que passar.. eu sou sua e vou te amar para o resto da vida.”

Joguei o porta retrato com força contra a parede do quarto, fazendo com que ele se espatifasse, voando cacos de vidro para todos os lados. Aquilo tinha sido demais pra mim, eu não queria ter que passar por aquilo, não queria ter que ver que um dia eu não seria mais o motivo daquele sorriso bobo. Vanessa me mudou, ela me prendeu dentro do coração dela e eu estava impossibilitada de sair. Ouvi murros na porta, mas estava tonta demais para andar até lá e abrir. Coyote gritava para que eu abrisse, ameaçando arrombar. Claro que não consegui me mover, o que fez com que segundos depois, ele desse um chute na porta.

- Clara, o que aconteceu? – se aproximou de mim e me encolhi, abraçando os joelhos. – Você não é assim, você não é fraca. Levanta a cabeça e me fala o que houve. – Mayra estava parada no batente da porta e tinha os braços cruzados na altura do peito, me encarava com um semblante irritado. Eu levantei o olhar para ela e respirei fundo antes de falar.

- Eu terminei com Vanessa. – descruzou os braços e arregalou os olhos, me olhando surpresa. – Escrevi uma carta e deixei no prédio, não tive coragem de falar cara a cara.

- Mas que merda, Clara. – Mayra se aproximou de mim e abaixou, ficando na minha altura. Colocou uma mecha do meu cabelo para trás da orelha, limpou algumas lágrimas e segurou meu queixo, fazendo um carinho de leve. – Eu vou até lá, se eu bem conheço a Vanessa, deve estar pior que você. Quando eu voltar, conversamos. – assenti com a cabeça e abaixei novamente. Ela me deu um beijo na testa e olhou para Coyote. – Toma conta dela, tá bom? Se acontecer qualquer coisa, me liga. Assim que eu chegar na casa da Vanessa, dou um jeito de te avisar se está tudo bem. Tira o celular dela, esconde, desliga. Se ficar olhando, vai ser pior.

- Tá bom, amor, pode deixar. – deu um selinho nele e levantou, saindo do quarto. Coyote me ajudou a ir até o banheiro, me colocou embaixo da água gelada e em momento algum pediu para que eu tirasse qualquer peça de roupa. Minhas lágrimas não cessavam e ele lavava meus cabelos, retirando alguns fios do meu rosto. – Clarinha, eu vou trazer uma roupa pra você e toalha. Consegue se trocar sozinha? – assenti com a cabeça e ele sorriu fraco, saindo do banheiro. Deixei que o jato gelado de água batesse contra meu rosto, mas o nó na minha garganta me fez chorar de novo. Fechei os olhos com força e coloquei a mão no rosto, afim de evitar que me ouvisse, mas foi em vão. Coyote entrou, me lançou um olhar de pena e colocou as peças de roupa e a toalha em cima da pia. Desligou o chuveiro e me ajudou a sair. Eu tremia de frio e ele me estendeu a toalha com um sorriso tranquilo. – Vou te preparar alguma coisa quente, tá bom? Me grita qualquer coisa. Por favor, Clarinha, deita. Eu já volto.

- Tudo bem, Coyote, obrigada. Estou morrendo de vergonha.

- Vergonha de que?

- Sou uma mulher de trinta anos, que está sendo ajudada por um menino de dezenove. Sou professora e me embebedei porque terminei com minha namorada de dezoito. Isso é patético.

- Sinceramente, isso de idade é idiotice. Não existe diferença de tempo pra quem ama de verdade. Se for real e sincero, não tem porque rotular. Eu sei que você ama a Van e ela te ama. Só isso que importa. – segurou meu rosto e retirou o cabelo que estava em minha testa. – Agora se troca e vá deitar, já levo algo para você se esquentar.

- Obrigada de novo. – ele sorriu e saiu do banheiro, fechando a porta atrás de si. Me olhei no espelho e me senti patética, fraca. Vanessa jamais me perdoaria e eu teria que conviver com isso. Retirei a roupa molhada, coloquei em cima da pia e vesti o pijama seco que Coyote tinha trazido. Passei a toalha pelo cabelo, secando o máximo que pude e caminhei até minha cama, me jogando na mesma. Fechei os olhos e chorei novamente, será que isso não ia parar?!

- Vou chamar alguém para consertar essa porta amanhã, me desculpe por isso. – Coyote surgiu com uma caneca na mão e na outra, uma vassoura e pá. – Toma, chocolate quente, nada melhor para alegrar um coraçãozinho triste do que chocolate, minha mãe sempre diz. – me estendeu a caneca e eu sorri fraco pra ele.

- Pra que essa vassoura?

- Vou varrer esses cacos, antes que você pise e acabe se cortando.

- Não, deixa que eu faço isso. Eu que quebrei. – coloquei a caneca na mesa de cabeceira e tentei levantar, mas ele me impediu.

- Você vai tomar esse chocolate quente e descansar. Vou jogar isso no lixo e já volto para conversar. Te deixar sozinha é algo que está fora de cogitação. – assenti e comecei a tomar o líquido quente, já me sentindo menos tonta. Coyote varreu tudo, levou para a cozinha e voltou. Sentou na ponta da cama enquanto eu me cobria, estava sentindo um frio absurdo.

- Eu deixei o ar condicionado da casa ligado?

- Sim, deixou. – ele riu fraco e ameaçou levantar, mas o segurei.

- Não tem problema, melhor do que morrer de calor, não é?

- Verdade. Você ficou bastante tempo trancada nesse quarto bebendo.

- Sério? Quanto?

- Bom, você apareceu em casa por volta das 18:30hrs. Eu bati na sua porta 20:30hrs, agora são 22:00hrs. Digamos que você bagunçou o espaço tempo com essa sua bebedeira. – ele gargalhou e eu sorri, brincando com o edredom. – Quer conversar sobre isso? – dei de ombros e aquela velha sensação de choro voltou, molhando meus olhos. Levantei a cabeça e fitei o teto, respirando fundo.

- Sabe, Coyote, às vezes nós temos que abrir mão da nossa felicidade para que a pessoa seja feliz, mesmo que sem a gente. Eu terminei com Vanessa porque acho que ela precisa viver. Tenho trinta anos de idade, já fiz de tudo, curti o máximo que pude dos meus anos de faculdade. Conheci muita gente, viajei para inúmeros lugares. Transei muito, bebi muito, até me drogar, eu me droguei. Tudo isso fez parte da minha adolescência, entende? – ele assentiu com a cabeça e eu fechei os olhos, mordendo a boca e, em seguida, fitando meus dedos. – Vanessa precisa passar por tudo isso porque é um aprendizado, são coisas que a escola, os pais dela, os amigos e nem eu podemos ensinar. Ela precisa cair, levantar, cair de novo e levantar de novo pra ver que nem tudo são flores e que nem sempre terá alguém para segurá-la. Eu estive lá o tempo todo, evitando que ela tropeçasse, mas acho que está na hora dela dar seus primeiros passos sem a minha ajuda. Estou abrindo mão da pessoa que eu mais amo pra que ela possa ver que, mesmo depois de tudo, eu ainda estarei aqui. Quero que Vanessa viva tudo isso e depois venha até mim, me agradecendo por deixá-la voar, porque foi preciso para que ela amadurecesse.

- Não tem medo de que ela encontre alguém que a faça mais feliz que você? – meus olhos estavam ardendo por causa das lágrimas e da luminosidade do meu quarto. Passei a mão pelo rosto, secando o mesmo e voltei a fitá-lo.

- Eu penso nisso todos os dias, Coyote. Durmo e acordo imaginando que enquanto eu estou dando aula, ela pode estar na sala, cruzar olhares com alguém e perceber que eu não sou isso tudo que ela imagina. Que ela pode ter um amor maior que tem comigo, um amor mais novo, mais duradouro. Vanessa pode conhecer uma pessoa amanhã e, de repente, escolher essa mesma pessoa para dividir todas essas experiências que eu quero que ela tenha. Eu sei que vai doer, já está doendo pra cacete, mas é necessário. Eu já tive a minha chance, Coyote, já passei por tudo. Não posso privar a Vanessa de ter isso também.

- Eu te entendo.

- Você entende?! – olhei surpresa para ele, que respirou fundo e abaixou a cabeça.

- Sim, eu entendo. Quando minha família se mudou aqui pra Manhattan, eu estava com Mayra. Nunca me senti tão feliz. Ela definitivamente é a mulher da minha vida, mas eu percebi que um namoro a distância não funcionaria. Não seria justo que eu a prendesse, que a proibisse de sair com suas amigas ou fazer qualquer coisa, só porque eu estava a quilômetros de distância dela. Claro que a teimosa não entendeu e no início, me amaldiçoou de todas as maneiras possíveis. Tenho certeza que deve ter prometido a si mesma que nunca mais voltaria pra mim. Mas, felizmente, uma pessoa abriu os olhos dela em relação a minha escolha.

- Quem?

- Vanessa. – ele sorriu fraco e eu engoli um pouco o choro, fitando ele e implorando que continuasse. – Certa noite, ela me ligou e contou que Mayra foi à casa dela chorando, dizendo que estava com saudade de mim, mas que não queria sentir tudo aquilo. Vanessa disse que teve uma conversa com ela que durou a noite toda, mostrando pra Mayra que eu fiz o que fiz para evitar que brigas maiores aparecessem e nos separasse de vez, mais do que a distância já estava fazendo. Por incrível que pareça, dois dias depois, Mayra me ligou e disse que independente do tempo que passasse, ela me esperaria porque me amava. Claro que eu, manteiga derretida, chorei no telefone e prometi a ela que voltaria. Por ela, por nós. – os olhos dele estavam marejados e um sorriso bobo brincava em seus lábios. Não pude deixar de sorrir junto com ele, pois tinha a esperança que acontecesse a mesma história comigo. – Uma bela manhã, meu pai chegou em casa dizendo que voltaríamos para Miami e na mesma hora eu liguei pra ela, precisava saber se ainda estava disposta a me ter de volta. Bom, o resto você já deve saber.

- Sim, eu já sei. – enrolei um pouco do edredom nos dedos e respirei fundo. – Espero que Vanessa siga o próprio conselho e me entenda. Eu a amo muito, Coyote, ficarei perdida sem ela.

- Eu conheço a Vanessa, não vou te dizer que será fácil, Clara. A Mayra sempre foi mais maleável e tranquila de conversar, mas a Van é teimosa e orgulhosa. Só quero que tenha paciência.

- Vou tentar. Coyote, vou dormir. Obrigada por tudo. – abracei ele e me afastei, aconchegando meu corpo na cama e abraçando o travesseiro com o cheiro de Vanessa. – Pode me fazer um último favor?

- Claro.

- Manda mensagem pra Mayra e pergunta como a Van está? Agora, eu quero saber a resposta. – ele sorriu fraco, pegou o celular e digitou algumas palavras. Alguns segundos depois, o aparelho apitou e Coyote me entregou para que eu lesse a mensagem.

“Nunca vi a Vanessa desse jeito. Estava histérica, berrando. Ela só dormiu porque eu dei um calmante. Estou preocupada, amor, acho que essa menina vai fazer uma loucura. Hoje vou dormir aqui, quero conversar com ela amanhã cedo. Espero que a Clara esteja bem. Te amo, boa noite.”

Senti o nó na garganta se formar novamente e entreguei o aparelho pra ele. Vanessa estava mal. Ela tinha chorado. Precisou de calmante. O que eu fiz?! Mandar aquela carta foi o maior erro da minha vida, eu tinha que ter aguentado. Minha fraqueza ia tirá-la de mim e, com certeza, minha história com Vanessa não teria um final feliz como o de Coyote e Mayra. O garoto afagou meus cabelos e apagou a luz do quarto, me deixando sozinha com meus pensamentos. Devo admitir que chorei até pegar no sono e essa semana não iria trabalhar. Não tinha a menor condição de dar aula para ela, seria horrível. Eu ia desabar na sua frente, implorar por perdão na presença de todos os alunos e não poderia fazer isso. Agora que a merda já estava feita, era esperar pela avalanche de emoções que viriam a seguir.

Acordei no dia seguinte com os olhos ardendo e o rosto inchado. Havia chorado durante toda a noite e tenho certeza que Coyote também não pregou o olho, com medo de que eu pudesse fazer algo contra mim mesma. Claro que não aconteceria, mas sabia que tinha ficado de prontidão a pedido de Mayra. Levantei da cama e minha cabeça doía, precisava urgente de um remédio. O sol invadia lentamente os cômodos do apartamento e eu ouvi um barulho vindo da cozinha, provavelmente Coyote também estava acordado.

- Bom dia, Clarinha! – ele me ofereceu o melhor de seus sorrisos, que devolvi com a mesma intensidade.

- Bom dia, falou com a Mayra? – abri um armário procurando por um comprimido para curar aquela enxaqueca.

- Falei sim. Vanessa ainda não acordou, pelo visto o calmante foi um pouco forte pra ela. Assim que as duas conversarem, te aviso. Vai hoje à feira?

- Não, ficarei em casa e aproveitar que não tenho que dar aula até amanhã. Mas a partir de quinta-feira, darei uma desculpa e não vou também, não posso encarar Vanessa ainda. – achei o remédio, peguei um pouco de água e engoli, sentindo o mesmo descer pela minha garganta. – O que acha de tomarmos um café na Starbucks?

- Só vou pegar minha carteira.

- Nada disso, eu pago. Você me ajudou demais ontem, não é justo que eu deixe você pagar por um café que não vai custar nada pra mim. Acho que vou até vestida assim, não é uma roupa tão ruim.

- Se eu não te conhecesse, diria que tem no máximo vinte anos. É inteirona e não aparenta ter mais que isso. – gargalhei e caminhei até meu quarto, pegando a carteira e o óculos escuro. Corri para o banheiro, estava muito apertada e ainda precisava escovar os dentes. Fiz um rabo de cavalo qualquer e calcei meus chinelos, encontrando Coyote com seu short de pijama, camisa regata branca, um boné do Lakers e chinelos.

- Estamos ótimos, de pijamas.

- Eu estou me achando o máximo por sair por ai sem cueca.

- Ai, meu Deus. – revirei os olhos e ele soltou uma risada alta. Bem ou mal, por mais que Coyote fosse muito mais novo que eu, me animava. Parecia um irmão mais novo. Isso me fez lembrar do meu irmão e do quanto ele fazia falta. – Vamos, quero pegar uma mesa bem localizada.

Saímos do prédio e ele rapidamente colocou um óculos escuro que tinha dentro do meu carro, até que ficou bom no rosto dele. As ruas de Manhattan estavam movimentadas e, como sempre, cheia de barbeiros. Depois de dar duas voltas no quarteirão, consegui uma vaga bem em frente à Starbucks. Nós descemos e algumas pessoas vestidas com roupas sociais nos olhavam de rabo de olho, provavelmente sentindo inveja por não poder estar tão confortável. Entramos no estabelecimento e graças a Deus, tinha uma mesa bem localizada, perto da janela que dava visão para a rua. A mesma loira que atendeu eu e Vanessa daquela vez, estava lá e foi ela quem veio correndo ao nosso encontro.

- Bom dia! Que surpresa te ver por aqui sem a pirralha. – ela mascava um chiclete e ainda por cima, com a boca aberta, me lembrando de Fabien. Claro que aquilo me fez ter repulsa por ela.

- Minha namorada está na faculdade. Gostaria de fazer meu pedido agora. – ela me entregou o cardápio e depois de constantes discussões com Coyote, escolhemos o que comeríamos.

- Você é boa demais para aquela abusada, vou deixar meu número contigo caso queira dar uma escapada e conhecer uma mulher de verdade.

- Já tenho uma mulher de verdade, obrigada. – ela revirou os olhos e voltou para o balcão, entregando o pedido para os outros atendentes, que começaram a preparar tudo. Depois de cinco minutos de espera, eu e Coyote já comíamos enquanto observávamos o movimento na calçada.

- Isso aqui é uma loucura, né? – ele dava uma mordida em seu bolinho e eu tomei um gole do cappuccino.

- Nem me fala. Só Vanessa pra me fazer sair da paz e tranquilidade de Miami e vir para Manhattan. Isso aqui é o inferno na Terra.

- Veio por ela?!

- Sim, eu iria pra onde ela fosse. Fui aceita em todas as faculdades que ela mandou carta de admissão, como minha especialidade é anatomia e laboratório, sabia que ia acabar dando aula pra ela uma hora ou outra. – dei uma mordida em meu muffin e ele cruzou os braços em cima da mesa, me olhando sorrindo. – O que?!

- Essa sua dedicação. Isso é muito bonito, Clara.

- Mas parece que ela não vai mais ver isso a partir de hoje, Vanessa, assim como eu, é cheia de inseguranças. Tenho certeza que qualquer pessoa que se aproximar de mim e ela ver, será dada como o motivo da nossa separação.

- Não acho que ela chegue a tal ponto, mas não duvido que pense que terminou e já vai se relacionar com alguém mais velho. – ele bebeu seu chocolate quente e o celular vibrou em cima da mesa. – É a Mayra.

- Atende.

- Oi, amor.. estou na Starbucks.. sim, com a Clara.. não, não, ela não fez nada.. conversei com ela depois de lhe dar um banho.. não, amor, eu não vi Clara pelada.. – revirou os olhos e eu dei uma risadinha. – Como ela está?.. Sério?! Por que?!.. nossa, isso é um pouco radical.. sei.. bom, Vanessa é grandinha e sabe o que faz.. tem certeza?.. tudo bem, vou falar pra ela.. te vejo mais tarde.. também te amo. – ele desligou o celular, deu mais um gole em seu café e respirou fundo.

- O que ela disse?! O que é radical?!

- Vanessa ameaçou largar a Columbia e voltar pra Miami. – minha respiração parou e eu engoli em seco. Ela não podia fazer isso, não pode jogar seu sonho fora dessa maneira. – Mayra falou que ela não vai à feira hoje, acho que deve conversar com ela. A Columbia é a melhor faculdade de medicina dos Estados Unidos, não permita que ela largue. Por favor, Clara.

- Onde está meu celular?

- No apartamento, eu deixei guardado pra que você não pegasse e se sentisse mal. – abaixou a cabeça e eu segurei sua mão.

- Você fez certo, obrigada. Agora vamos pagar essa conta, tenho umas coisas para resolver. – chamei a loira mais uma vez e ela apareceu com um sorriso enorme, mas ainda mascava o maldito chiclete. – Quanto devo?

- US$ 25,90 e seu telefone. – tirei US$ 30,00 da carteira e entreguei a ela, levantando em seguida. – Ei, mas e o seu telefone?

- Ao invés de deixar meu telefone, te deixo US$ 4,00 de gorjeta. Tenha um bom dia. – ela bufou e voltou para o fundo da loja. Coyote gargalhava e vinha logo atrás de mim. Algumas pessoas não tinham noção do quão desagradáveis podiam ser.

A notícia de que Vanessa queria largar a Columbia, martelava na minha cabeça. O que essa criatura estava pensando?! Se alguém iria sair de lá caso nosso convívio ficasse insuportável, seria eu. Tinha outras propostas de emprego e podia pedir demissão da Columbia sem problemas, caso isso fosse um problema para Vanessa. O apartamento eu venderia ou deixaria para que ela ficasse em um local mais confortável, não via nada de errado. Aquele era o sonho da vida dela, estava cursando medicina na melhor faculdade dos Estados Unidos e entrou por merecimento, só comprovando o quão boa e competente era. Eu não permitiria que ela desistisse dessa maneira.

Parei o carro na garagem e travei o mesmo, correndo para o elevador que estava na garagem por algum tipo de milagre. Eu e Coyote batucávamos nas paredes daquele cubículo, enquanto o mesmo subia lentamente até a cobertura. Milhões de diálogos passavam pela minha cabeça. Vanessa provavelmente ia me socar assim que eu entrasse naquele apartamento, mas se para convencê-la a não largar a Columbia eu precisasse tomar duzentos socos, eu tomaria. Estava decida a tomar até um tiro para que ela desistisse dessa ideia estúpida de largar tudo e voltar para Miami. As portas se abriram e nós dois caminhamos calmamente até o apartamento. Coyote correu até seu quarto para pegar meu celular e eu subi para o terraço, queria dar uma olhada na cidade. O clima estava quente, o céu bastante azul e sem nuvem alguma. Tentei me desligar dos barulhos de buzinas e freadas que vinham da rua, mas foi em vão. Depois de dois minutos, Coyote apareceu e me entregou o aparelho, deitando na espreguiçadeira do lado da minha, tirando a camisa e ficando só de short.

- O que vai fazer?

- Pegar um solzinho, não quero ficar branco como você. – dei um tapinha em seu braço e ele riu fraco. Liguei meu aparelho e disquei o número da Columbia, queria avisar das minhas futuras faltas.

- Bom dia, Georgia, sou a professora Clara Aguilar.

- Bom dia, senhora Aguilar, em que posso ajudá-la?

- Georgia, tive um problema familiar e terei que ir com urgêmcia à Miami hoje e só volto no sábado. Tem alguém que pode cobrir essas minhas faltas?

Vou verificar, espere um pouco. – esperei cinco minutos no celular, até que a voz da mulher voltou à ligação. – Temos sim, não se preocupe e espero que fique tudo bem.

- Obrigada, Georgia, bom dia. Segunda já estou de volta. – desliguei o celular e respirei fundo. Olhei para Coyote e ele ria. – Eu tinha que inventar alguma coisa, né?!

- O pior foi a mulher acreditar nessa mentira que é mais velha que você.

- Você sabe voar?!

- Não, por que?!

- Porque se você continuar com essas piadinhas, vai ter que aprender quando eu te tacar daqui de cima. – ri fraco e ele fez uma cara surpresa, rindo em seguida. – Vou ligar pra Mayra, preciso avisar que vou passar lá no prédio da Vanessa.

- Está certo, até porque, o celular da Van está desligado e com a Mayra. – destravei a tela e vi a foto que estava no papel de parede. Eu e Vanessa abraçadas e sorrindo. Aquilo me deu um aperto no peito, mas rapidamente apertei o botão para digitar e disquei o número de Mayra. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis toques e nada. Quando estava pronta para encerrar a chamada, ela atendeu.

- Oi, Clarinha!

- Oi, May, como ela está? – ouvi ela bufando como se estivesse cansada e em seguida respirar fundo.

Não vou mentir para você, ela está muito mal. Se recusa a comer e já falou que hoje não vai à aula. Quer largar a Columbia e voltar para os braços da mãe em Miami. Acredita que ela falou que vai trabalhar em loja?

- Não acredito que ela está fazendo isso. – massageei a testa e bufei. Vanessa estava sendo infantil e isso precisava parar. – Eu vou passar ai pra falar com ela.

Está louca, Clara?! Se você aparecer aqui, ela te joga do último andar. A Van está trancada no quarto, parece até aquela garotinha do exorcista, só falta ter o rosto verde e girar a cabeça 360º. Não faz isso com ela e com você.

- Mayra, eu não vou permitir que a Vanessa desista do sonho dela por causa do fim do nosso namoro. Eu sairei da Columbia se for o problema.

- Você o que?!

- Isso mesmo que escutou. Eu vou sair da Columbia se o convívio comigo for algo que venha atrapalhar a vida da Vanessa. Não fala pra ela que eu vou aparecer, só me espere. – ela suspirou e fez um breve silêncio.

- Que horas você vem?

- 15:30hrs eu apareço ai e levarei o Coyote comigo. Beijos.

Beijos, Clara e se prepara. – ela desligou o celular e eu coloquei a cabeça entre as mãos. Seria um droga bater de frente com Vanessa da maneira que ela estava, mas eu tinha que tentar.

- Bom, é isso, Coyote. Nós vamos até o apartamento da Van 15:30hrs. Vou voltar a dormir para descansar os neurônios que já estão queimando. Quando for 14:30hrs, me acorde por favor.

- Fechado.

Desci as escadas e caminhei novamente para o meu quarto, me jogando na macia cama e deixando que o sono me levasse mais uma vez. Infelizmente, o tempo que dormi não pareceu ser muito longo, pois entre o momento em que me joguei na cama e que Coyote me balançava para acordar, não pareceu passar nem dois minutos. Levantei com dificuldade e fui tomar um banho. Depois da ducha de água fria que recebi ontem de noite, nada melhor que um bom banho quente. Não passei maquiagem alguma no rosto, afinal, não estava indo para uma festa. No máximo, meu enterro. Vesti uma calça jeans justa, uma blusa da Lana Del Rey e chinelos. Queria ir o mais confortável possível. Bati no quarto de Coyote e ele já estava pronto.

- Preparada para enfrentar a fera?

- Vamos ver o que acontece. – ele envolveu meu ombro com seu braço e seguimos para o elevador. Às vezes, acho que não mora ninguém nesse prédio, só eu. Nunca vi um elevador estar no mesmo lugar toda vez que preciso dele. Andar por andar e eu preparava meu pequeno discurso. Eu precisava convencê-la.

Nunca dirigi tão devagar em toda minha existência, por algum motivo, eu queria demorar para chegar. Ela faria um escândalo ao me ver lá, mas era isso ou deixar que essa cabeça dura jogasse tudo pro alto. Coyote fazia uma rima durante todo o percurso, o que me distraía. Uma hora. Esse foi o tempo que levei do meu apartamento até o de Vanessa. Estacionei o carro em frente ao prédio e desliguei os motores, descansando a cabeça no banco. Fechei os olhos e senti meu coração começar a aumentar seu ritmo, provando o quão nervosa eu estava. Quem me conheceu alguns anos atrás, jamais acreditaria que eu estava passando por isso e, ainda por cima, com uma menina de dezoito anos. Tomei coragem e abri a porta do carro, seguida por Coyote. Passei pelas portas giratórias do prédio e o porteiro abriu um sorriso.

- Boa tarde, vou subir para ver as meninas.

- Claro, senhora, pode ir. Eu vou avisar que..

- Não! – quase gritei e o homem parou na mesma hora, me olhando assustado. – Quero dizer.. não precisa avisar, eu quero fazer uma surpresa.

- Ah sim, perdoe-me. Pode ir então.

- Obrigada. – sorri para ele e fiz sinal para que Coyote me seguisse. Chamamos o elevador e o mesmo demorou séculos para finalmente alcançar o térreo, nessas horas eu agradeci pelo meu não ser assim. As portas se fecharam e os andarem eram indicados em um painel luminoso. A medida que aumentavam, era uma respirada profunda que eu dava. Finalmente chegamos ao último e eu travei dentro do cubículo. – Eu.. eu não consigo, Coyote.

- Você consegue sim. Pensa que é o futuro da Vanessa que está em jogo. Vamos, Clarinha, eu sei que você vai convencer ela de esquecer essa história de largar a Columbia. Só você pode fazer isso, por favor. – ele estendeu a mão e eu fitei o chão, apertando a mesma e deixando que Coyote me tirasse do elevador. – Vai ficar tudo bem, Mayra estará lá e eu também, Vanessa não vai te atacar.

- Espero que não, acho que não aguentaria vê-la partir pra cima de mim com tanta raiva.

- Relaxa, vai dar tudo certo. Vamos lá. – ele girou a maçaneta e a porta se abriu. Coyote entrou primeiro e depois fez sinal para que eu entrasse. Aquilo parecia até uma missão para roubar algo ou matar alguém. Mas, bem ou mal, era quase aquilo. Eu queria roubar essa ideia de mudança e ela queria me matar.

- O que você está fazendo aqui?! – Luana Melo estava com as mãos na cintura e me encarava com raiva, eu cruzei os braços e fitei seus olhos. Essa garota não me engana. – Não quero você na minha casa, fora.

- Ela veio aqui fazer algo que ninguém vai conseguir.

- Quebrar o coração da Vanessa, fazer a menina chorar bicas até dormir e tomar calmantes?! Isso, realmente, só ela.

- Não, Luana, ela veio convencer a Vanessa a desistir dessa ideia de largar a Columbia. Sabe que ninguém pode conversar com a Van sobre esse assunto, além da Clara. Engole essa implicância e deixa ela em paz. – Mayra falava quase sussurrando, provavelmente para Vanessa não saber que eu estava lá. – Clara, você sabe onde é o quarto dela. Nenhum de nós vai até lá contigo, isso é um problema de vocês. Só tenta.

- Farei o melhor. Obrigada, May. – abracei-a e passei por Luana quase carregando seu ombro comigo. Cada passo que eu dava em direção ao quarto de Vanessa, era um neurônio explodindo dentro do meu cérebro. Eu já não sabia o que fazer ou falar, só queria abraçá-la, mas não podia. Não era mais permitido. Coloquei a mão na maçaneta e a vontade de chorar me acertou em cheio, mas tentei engolir. Não era hora para fraquejar. Girei a mesma e entrei rapidamente no quarto, estava pouco iluminado graças às cortinas fechadas. Meu coração apertou ao vê-a deitada de costas para onde eu estava e toda encolhida, abraçada com um urso de pelúcia que eu tinha dado a ela em uma de nossas idas ao parque. - Van?

Ela se virou lentamente, me encarando. Seus olhos estavam muito inchados, o nariz vermelho, usava um pijama simples de algodão e seu cabelo estava bagunçado. Seu olhar cruzou com o meu, permitindo que eu visse o resultado da minha fraqueza. Vanessa estava destruída, assim como eu, mas algo nela mostrava que estava mais forte. Levantou da cama e caminhou lentamente até mim, parando exatamente na minha frente. Sua respiração batia contra meu rosto e meu coração só faltava rasgar meu peito de tão forte que batia. Ela colocou a mão no meu peito, pegou a minha mão e colocou em seu peito, fazendo com que eu sentisse seu coração.

- Está vendo isso aqui? – sua voz era mansa e calma, arrastada. – Essa é a sinfonia que dois corações partidos podem fazer. Sabe quem criou isso?! Você, Clara. Seu egoísmo, sua insegurança e sua desconfiança criaram essa bela sinfonia. Só que não vai mais tocar assim, não vou me permitir levar essa melodia pelo resto da minha vida.

- Vanessa, eu..

- Shhhii.. – ela colocou o dedo na minha boca para que eu parasse de falar, segurou meu rosto e fez um leve carinho nele. – Você me quebrou, Clara. Quebrou cada pedaço de mim e continua quebrando, porque toda vez que eu olho dentro das suas bilhas claras, eu lembro de todas as vezes que me apaixonei por você. – meus olhos marejaram e ela limpou algumas lágrimas que já caiam. – Não, Clara, você não deve chorar. Você não pode chorar por uma menina de dezoito anos, que ainda tem muito para viver e que, por sua escolha, não será do seu lado. – os olhos dela também marejaram e ela não se importou em deixar que ela rolassem, fiz menção em secá-las, mas ela me impediu. – Não precisa secar. Deixa que elas caiam, isso só mostra que eu estou me limpando por dentro. Cada sentimento ruim, cada angústia, cada momento de ciúme, cada sorriso, cada abraço, cada beijo, cada jura de amor, momentos de felicidade, estão vazando. Eu estou transbordando emoções. Estou transbordando a nossa relação. Sabe por que? Porque você me pediu para fazer isso. – a cada lágrima minha que teimava em cair, ela limpava. Não estava permitindo que eu chorasse e era o que eu mais mais precisava fazer. – Não se culpe, não.. você não teve culpa alguma. Fez o que era certo. Jogou tudo que tínhamos fora para que eu pudesse seguir a minha merda de vida sozinha. Não te odeio, Clara, eu te agradeço até. Como eu poderia perceber que nosso relacionamento significava tão pouco para você, se não tivesse me mandado uma carta terminando tudo?! Nunca ia imaginar. – ela fazia carinho no meu rosto com o polegar e eu senti minhas pernas bambearem. O que estava acontecendo?! Por que ela estava agindo dessa maneira?! Tão calma e tão raivosa ao mesmo tempo?!

- Não vai embora. Não larga a Columbia.

- Eu vou seguir minha vida, não foi o que me pediu para fazer? Eu sinto que não posso continuar aqui na Columbia, Clara. Essa faculdade significa sim o meu sonho, mas era um sonho que eu estava construindo com você e, sinceramente.. – sua voz embargou um pouco, mais lágrimas rolavam pelo seu rosto e vi seu queixo tremer, enquanto ela tentava voltar a falar. – Sinceramente, sem você do meu lado, não faz sentido algum continuar com isso. Eu sei que é a melhor faculdade do país, mas não significa nada se eu não puder compartilhar minhas conquistas com quem mais me apoiou e ajudou. Você era o meu pilar, minha base mais forte e saiu sem mais nem menos. Saiu sem dizer um motivo compreensível ou algo que explicasse sua súbita mudança de humor. Quando eu falei que ia passar no seu apartamento ontem, não estava pensando em tomar uma decisão tão radical como essa, até porque, você é o meu mundo. Só que, Clara.. – eu fitava o chão e ela levantou minha cabeça pelo queixo, fitando meus olhos. – Enquanto você era o meu mundo, eu era só mais um pedacinho de terra no seu. E isso não é o bastante. Eu te amo, mas eu também canso. Todas as vezes que conversei com você, que passamos a noite em claro discutindo sobre essa droga de perseguição que você tem em relação a idade, foram em vão. Você não me escutou, preferiu acreditar que um dia eu iria encontrar uma pessoa qualquer na minha idade e perceber que você não passava de uma velha que só estava servindo para me atrasar. Clara, a única pessoa que faz o meu relógio andar, é você. Ou seja, agora que você está fora, ele parou. – dessa vez ela não conseguia mais controlar as minhas lágrimas, desistindo de secá-las. Me olhou no fundo dos olhos e se afastou, sentando na cama.

- Eu vou largar a Columbia. – Vanessa não se mexeu, continuou na mesma posição, fitando o chão com suas mãos entrelaçadas. – Assim você não vai precisar se mudar pra Miami e abandonar o seu sonho. Eu vou dar aula em outro lugar, tenho outras propostas de emprego em outras faculdades, não vai ser um problema. Eu só quero que você seja feliz, que cresça e..

- Cala a boca.

- O que?!

- Cala a boca! – ela gritou e eu me encolhi no canto do quarto. Vanessa levantou da cama e caminhou energeticamente na minha direção, com o dedo apontado para o meu rosto. – Eu não te pedi para largar a merda da Columbia, não pedi para decidir o que é bom ou deixa de ser pra mim. Se eu quiser viver uma vida de orgias e aventuras, eu vou viver, independente de você mandar eu fazer ou não. Você não é minha mãe, Clara! – ela berrava e seu rosto recebeu uma coloração avermelhada. – Você era a merda da minha namorada! Você é a mulher com quem eu queria dividir tudo! Foda-se os seus malditos trinta anos, não me interessa. Eu namoro com você, não com sua certidão de nascimento! Por que foi tão difícil para você perceber isso e aceitar que, independente de tudo, era você quem eu queria?! Em?! Fala pra mim!

- Eu não sei! – gritei de volta e ela cobriu o rosto com as mãos, chorando mais ainda. – Eu não faço a menor ideia do porque eu sou assim! Não faço ideia do porque é tão difícil acreditar que você possa querer ficar comigo até o final de tudo! Mas eu fiz isso pensando em você! – me aproximei dela e segurei seus braços. – Eu fiz isso pensando na sua felicidade.

- Você não decide porra nenhuma por mim, Clara! – como se não fosse possível, ela aumentou o tom de seus gritos e podia jurar que todo o prédio nos escutava. – Você não teve a coragem de aparecer na minha frente e acabar com tudo! Não foi mulher o suficiente para vir até mim e terminar olhando dentro dos meus olhos! Ainda tem coragem de dizer que foi para a minha felicidade?!

- Eu te amo, sua idiota! Você é a pessoa mais importante da merda da minha vida! Me desculpa se eu fiz isso pensando no que era melhor pra você!

- Você não é a minha mãe! – ela se desvencilhou de meus braços e se afastou. – Quando é que você vai perceber isso?! Quando é que você vai perceber que eu te quero como mulher, como a pessoa que eu quero passar o resto da minha vida e não como uma babá?!

- Eu só te quero bem.. – abaixei a cabeça e fitei o chão, falando quase em um sussurro. – Tenta me entender.

- Eu não quero e nem vou entender! Eu estou destruída, Clara, completamente acabada! – seu rosto já estava roxo e eu fiz menção em me aproximar, mas ela fez um sinal com a mão para que eu parasse. Ela respirou fundo e massageou as têmporas.

- Eu vou embora, Van. Largo a Columbia e sumo, eu juro!

- Por que você acha que fazendo isso vai melhorar as coisas?! Você pensa que fugir vai resolver essa merda toda?! – seu tom de voz agora era mais calmo, mas sua respiração ainda estava descompassada. – Você pode ir pra puta que pariu, Clara, não vai mudar o buraco que fez no meu peito.

- Me perdoa, eu fiz pro seu bem.

- Se você falar isso mais uma vez, eu juro que te dou um tapa. – ela passou a língua pelos lábios, umedecendo-os e bufou logo em seguida. – Vou te falar uma última coisa, Clara..

-  O que?!

- Você não precisa sair da Columbia.

- Mas, você.. – ela fez um sinal com o dedo para que eu não a interrompesse e eu abaixei a cabeça.

- Você não precisa sair da Columbia, eu não vou sair. – fitei seu rosto e ela limpou algumas lágrimas que desciam. – Minha mãe sempre me ensinou que temos que encarar aquilo que nos machuca, só assim nos curamos.

- Van..

- Eu vou te ver todos os dias, Clara, vou te ouvir todos os dias naquela faculdade e vou me curar. Vou fechar esse rombo no meu peito e depois, quando estiver bem cicatrizado, eu vou conseguir olhar dentro dos seus olhos e não desabar. Eu serei forte o suficiente pra estar perto de você sem ter vontade de me entregar. Depois de tudo isso, Clara.. você vai voltar a ser o que era pra mim no começo do colégio. – ela caminhou até mim e segurou meu rosto. – Minha professora. E nada mais. Agora vai embora, por favor, não quero mais olhar pra você.

- Van, por favor..

- Clara.. não. Só vai. – ela voltou a deitar na cama e ficou de costas pra mim. Meu rosto estava completamente molhado e eu soluçava. Ouvi que ela estava fazendo o mesmo, mas ia respeitá-la. Antes de sair do quarto, me aproximei de seu ouvido.

- Eu te amo, só não esqueça disso.

- Essa vai ser a primeira coisa que me esforçarei para esquecer. Vai embora. – andei até a porta e olhei novamente pra ela. Já ia fechar a porta, mas consegui ouvir seu sussurro, que doeu mais ainda. – Eu te amo, Clara, não me deixa esquecer.

Eu sabia que ela não queria que eu ouvisse aquilo, sei que falou para si. Encostei na porta e respirei fundo, passei a camisa no rosto e voltei para a sala. Luana, Tom, Coyote e Mayra estavam sentados no sofá assistindo televisão, mas assim que me viram, levantaram e se aproximaram com caras esperançosas. Eu só queria sair dali e ir pra casa, queria ficar sozinha no meu canto. Mayra me abraçou e eu desabei. A que ponto eu cheguei?! Sendo amparada por meus alunos.

- Está tudo bem, Clara.

- Ela não vai embora, ficará na Columbia. – limpei meu rosto e engoli em seco. Todos abriram sorrisos, menos Mayra. – Eu falei que ia embora, mas ela não deixou. Disse que eu precisava ficar, só assim vai me superar. Mas.. eu não quero que ela me supere, eu quero que ela me ame.

- Ela não vai te superar, conheço Vanessa como a palma da minha mão. Ela está magoada e com toda razão, mas tenha paciência e deixa que o tempo resolve tudo isso. Agora vamos para casa. – Mayra me soltou e se despediu de todos, exatamente como Coyote. Eu apenas sai logo daquele lugar, chamando o elevador. Enquanto eu esperava pelo mesmo, ouvi uma voz me chamar e olhei para o apartamento vizinho, encontrando uma menina de cabelo azul e braços cruzados, escorada no batente da porta.

- Fique longe dela, professora. – fez uma cara de nojo e eu a encarei. – Nenhuma pessoa que faz o que você fez com a Vanessa, a merece. Espero que tenha tomado vergonha na cara depois de toda essa gritaria e deixe-a em paz.

- Não se meta onde não é chamada. Isso não condiz com a sua vida. – o elevador chegou e Mayra e Coyote se juntaram a mim. – Se eu souber que você andou colocando ideia na cabeça da Vanessa, teremos que conversar de uma maneira nada tradicional. Boa tarde. – entrei no cubículo de aço, seguida pelos dois, mas quando a porta ia fechar, a menina colocou a mão. – O que é isso?! Está louca?!

- Não tenho medo de você. Todo mundo naquela faculdade pode ter, mas eu não tenho e se fizer algo com a Vanessa, teremos que conversar de uma maneira nada tradicional. Boa tarde.– imitou meu tom de voz e tirou o braço, sumindo no corredor. Era só o que me faltava.

- O que diabos foi isso?! – Coyote fez uma cara de paisagem e Mayra franziu o cenho.

- Não sei, mas vou saber dessa história depois. Relaxa, Clara, essa garota não vai fazer nada. Essa é a Julia, namorada da Mariana.

- Julia, é?! Namorada da Mariana?! Bom saber.

- O que vai aprontar?

- Nada, não quero mais problemas. – o elevador alcançou o térreo e caminhamos em direção ao meu carro. Arranquei dali e durante todo o percurso, cortava todos os carros e quase atropelei duas pessoas. – Preciso dormir. – eu falava para os dois enquanto saia do automóvel na garagem.

- Mas, Clara, são 18:50hrs. – Mayra abraçava Coyote pela lateral do corpo e eu fitei o chão.

- Eu sei, mas estou cansada mentalmente. Só uma boa cochilada agora que vai resolver, fiquem à vontade. – joguei a chave do carro para Coyote e ele arregalou os olhos. – Divirtam-se, só voltem com o meu carro inteiro.

- Pode deixar, bom descanso.

Acenei para os dois e fui para o elevador, que como sempre, esperava por mim. Andar por andar. Segundo por segundo. Meu coração batia lento, como se estivesse pronto para desistir. Talvez não seria fácil daqui pra frente, bater de frente com uma Vanessa magoada e pronta para deixar tudo para trás. Valia a pena passar por isso?

A porta se abriu e eu rumei para meu apartamento, passei pela porta e o encontrei vazio, escuro e silencioso, assim como meu interior. Subi até o terraço e deitei na espreguiçadeira, observando o sol terminar de se pôr entre os prédios daquela cidade movimentada. Amanhã seria um novo dia, Coyote e Mayra iam embora logo depois da feira e eu só voltaria a trabalhar na segunda-feira. Acho que posso aguentar até lá. Eu precisava no mínimo tentar, sofrer por ela é que não tinha condições. Se Vanessa queria que eu fosse forte, então eu seria. Se ela não queria que eu a deixasse esquecer que me amava, então eu não deixaria. Só precisava pensar em como faria isso.

- Ei, Clarinha, acorda. – Mayra me sacudia e eu esfreguei o olho, tateando a mesa de cabeceira atrás do meu celular. Tomei um susto ao ver que eram 16:30hrs do dia seguinte.

- Meu Deus! Como eu dormi esse tempo todo?! – sentei na cama e estiquei os braços, sentindo os ossos estalarem.

- Talvez seu corpo estivesse cansado demais, junto com seu emocional e os dois te apagaram pra ver se melhorava. – ela abriu um meio sorriso e eu abaixei a cabeça, suspirando. – Olha, eu e o Coyote temos que pegar nosso avião em duas horas e vamos chamar um táxi.

- Nada disso, eu vou levar vocês. Onde já se viu?!

- Clara, você precisa descansar.

- Eu terei muito tempo pra descansar quando morrer, agora vou tomar um banho e levo vocês. – lancei um beijo no ar para ela e corri em direção ao banheiro. Tomei um banho rápido, não passei maquiagem alguma, somente arrumei o cabelo. Vesti um short jeans desfiado, camisa branca de gola v e meu coturno. Peguei meu ray ban preto e procurei por Mayra e Coyote, que estavam sentados na sala me esperando. – Bom, podemos ir?

- Clarinha, eu posso te pedir um favor antes?

- Claro, May, o que é?

- Eu não me despedi da Van e, bom.. não sei quando vou poder voltar à Manhattan para vê-la. Você pode passar no prédio dela rapidinho, só pra eu dar um abraço nela?

- Sem problemas, vamos lá. Mas ela não está na feira?

- Não, ela não saiu de casa hoje de novo. Está reclusa como você, mas disse que vai amanhã sem falta. – abriu um sorriso e eu sorri fraco para ela. Saber que Vanessa ainda não estava recuperada, me dava uma certa aflição, pois conhecendo a peça, ela viria preparada.

- Tudo bem então, vamos indo. O trânsito infernal dessa cidade nunca está a nosso favor e o aeroporto é um pouco longe daqui, prometa que não vai demorar.

- Eu prometo, vamos.

Coyote pegou as bagagens deles e descemos para a garagem. Organizei tudo na mala e partimos para o prédio de Vanessa. Eu não ia subir de jeito nenhum. Foram necessários vinte minutos para chegarmos, dessa vez os santos resolveram ajudar e o trânsito fluía tranquilamente. Mayra e Coyote subiram enquanto eu esperava impaciente dentro do carro. Dez. Quinte. Vinte. Vinte e cinco. Trinta minutos e nada deles. Só podia ser um tipo de palhaçada. Eu não queria ir até lá e arrancá-los do apartamento, isso só faria Vanessa ter mais vontade de me jogar de lá.

“May, vocês vão perder o voo. Desce de uma vez!”

Mandei para e cinco minutos depois, ela surgiu na porta do prédio, sendo seguida por Coyote e outra pessoa. Vanessa estava logo atrás deles, vestia uma calça jeans justa, um moletom vermelho que eu dei a ela quando viajamos para Orlando e seu velho all star branco. Estava de óculos escuro e a expressão séria. O que significava aquilo?! Se Vanessa ia conosco, isso significava que ela voltaria comigo. Só eu e ela. Mayra ficou completamente louca ou o que?!

- Ei, Clarinha, a Van vai com a gente. Tem problema? – deu um sorrisinho malicioso e eu cerrei os olhos pra ela.

- Não, claro que não. Vamos logo, seu voo sai em uma hora.

- Certo. – Coyote foi na frente comigo, enquanto Mayra e Vanessa foram atrás. Ela estava deitada no colo de May, que fazia carinho em sua cabeça. De dez em dez segundos, eu a olhava pelo espelho retrovisor, parecia tão frágil. O clima estava estável. Ninguém falava nada e o único som que estava presente, era de uma música que tocava baixinho no rádio.

- Eu não queria que você fosse embora, May. – Vanessa quebrou o silêncio e olhei para ela mais uma vez pelo espelho. Uma lágrima desceu pelo seu rosto, coisa que o óculos não conseguiu tampar. – Precisava de você aqui nesse momento.

- Você tem a Luana pra te ajudar. Sei que vai aguentar, qualquer coisa pode me ligar, não é? – ela assentiu com a cabeça e voltou a ficar em silêncio. Não foi dita uma só palavra até chegarmos no aeroporto.

Descarregamos as bagagens e caminhamos em direção à ala de embarque. Vanessa se pendurou no pescoço de Mayra e se recusava a soltá-la, Coyote a abraçou por trás e falou algo no ouvido dela, que a fez soltar. As duas estavam chorando, eu podia imaginar o quão difícil estava sendo para elas se separarem de novo.

- Promete que volta pra me ver?

- Prometo, pode deixar. Se cuida, Van e lembre-se, eu estou sempre com você. – deu um beijo na testa dela e a abraçou mais uma vez. Coyote veio até mim e me abraçou apertado, seguido por Mayra. – Clara, respira fundo e fica de olho nela, tá bom? Por favor.

- Farei o possível. – ela sorriu fraco, entrelaçou seus dedos nos de Coyote e os dois passaram pela segurança, entrando no salão de embarque. Eu e Vanessa ficamos paradas no meio do aeroporto, sem falar uma palavra. Ela fitava o local por onde a amiga tinha passado e não se movia. – Eu.. estou indo embora. Quer uma carona até em casa?

- Vou pegar um táxi.

- Olha, você pode me odiar, mas sei muito bem que veio sem dinheiro. Anda, eu não falo nada com você durante todo o caminho. – ela virou para mim e recolocou o óculos, respirando fundo.

- Tudo bem, vamos.

Vanessa andava um pouco mais à minha frente e com os braços cruzados, como se estivesse se protegendo de algo ou de alguém, que eu podia apostar que era a minha pessoa. Destravei o carro e ela sentou no banco do carona, encostando a cabeça no vidro. Olhei novamente para ela e dei partida, dirigindo tranquilamente até seu prédio. Aquela situação era horrível, não só pra mim, mas para Vanessa também. Se fosse antes, estaríamos de mãos dadas enquanto eu dava o ombro para que ela chorasse pela saudade de Mayra. Mas agora essa imagem estava longe de acontecer. Uma hora foi necessária para que fizéssemos o percurso do aeroporto até a porta de seu prédio. Estacionei e ela soltou o cinto, respirou fundo e cobriu o rosto com as mãos. Ouvi soluços e aquele velho murmuro dela quando estava chorando, eu não sabia o que fazer, não sabia que se me aproximasse, ela aceitaria.

Respirei fundo e apertei o volante com força, sentindo aquela batalha interna acontecer. Metade de mim queria abraçá-la e protegê-la, mas a outra metade não deixava, porque estava seguindo as ordens que ela me passou de me afastar. Já estava perdendo a batalha para o lado que gritava para que eu não fizesse nada, quando ela tombou a cabeça para o meu colo, apertando minha coxa com força. Senti minha perna se molhar com suas lágrimas e tremi. Ela estava pedindo colo, mesmo depois de tudo. Tudo bem, só dessa vez eu ia desobedece-la. Comecei a afagar seus cabelos e fazer leves carinhos pela lateral de seu rosto. Vanessa chorou tudo que tinha para chorar, não trocamos nenhuma palavra. Ficamos naquele carro por vinte minutos, até que ela dormiu. Apagou completamente enquanto chorava no meu colo.

Levantei sua cabeça devagar, saí do carro, dei a volta e abri a porta dela. Puxei seu corpo para mim, retirando-a do carro e carregando-a no colo. Vanessa abraçou meu pescoço e colocou seu rosto na curva do meu pescoço, que ficou molhada por conta de suas lágrimas. Tranquei o carro e me encaminhei para dentro do prédio, me sentindo bem por ela me permitir ajudá-la. O porteiro arregalou os olhos em preocupação, mas fiz um sinal com a cabeça para que ele apenas me ajudasse a chamar o elevador e interfonar para Luana, para que ela abrisse a porta. Ele assentiu e fez tudo que eu pedi. Entrei com Vanessa no cubículo de aço e ele apertou o botão da cobertura, sorrindo como se estivesse feliz em nos ver daquela maneira. Agradeci com um gesto e ele saiu da frente, deixando que a porta se fechasse. Enquanto o elevador subia, olhei para Vanessa dormindo no meu colo. Seu semblante era tão frágil, ela parecia uma criança indefesa, aninhada em meus braços e eu sorri por estar passando por aquela situação com ela. Não sabia quando teria o mesmo prazer novamente.

As portas se abriram e Luana já nos esperava com a porta aberta. Ela respirou fundo, mas não falou nada, apenas deu passagem para que eu passasse. Carreguei Vanessa até o quarto dela e com muita calma, a coloquei deitada na cama. Retirei seu tênis, o óculos que estava em seu rosto ainda e também sua calça jeans, deixando-a apenas com o moletom. Cobri seu corpo com o edredom e me aproximei dela, dando um beijo em sua testa. Não pude evitar que uma lágrima teimosa caísse, afinal, eu sabia que não teria mais um momento daqueles, não tão cedo. Levantei calmamente de sua cama, mas senti sua mão segurar meu braço. Parei aonde estava e ela virou lentamente a cabeça, me encarando.

- Não me deixa dormir sozinha hoje. – sua voz estava fraca e embargada pelo choro. – Eu sei que terminamos, mas.. só por hoje. Uma última vez.

- Você não precisava nem ter perdido, faria qualquer coisa pra te ver protegida. – abaixei a cabeça e meus olhos marejaram. – Me desculpa.

- Fica quieta e só me abraça. – eu deitei ao seu lado e ela aninhou seu corpo ao meu, encaixando o rosto na curva do meu pescoço. Aquela era a nossa última noite juntas. Eu não queria sexo, só queria aquilo. O corpo dela encaixado no meu, enquanto lentamente éramos carregadas para outro lugar. Eu esperaria por ela. Independente do tempo que passasse, eu estaria aqui. Vanessa Mesquita nasceu para mim.. e ninguém podia dizer o contrário.