gabriela santarosa

Nunca mais estaremos assim, nesse sentir exato. Com os mesmos ideais e devaneios e desejos inexprimíveis. Nunca mais seremos as mesmas pessoas que habitam o mundo, porque em questões de milésimos tudo se perde. Se eu não fizesse aquela má colocação, se não escolhesse aquele trajeto. Não somos os mesmos daquela tarde de outubro e não seremos imutáveis na próxima estação. Penso excessivamente sobre os momentos em que descartamos a razão e nos permitimos pisar no desconhecido. Creio ser sim, bonito, quando me vêem além das barreiras que nos constroem a todos.

Nunca mais seremos tão exatos ou bonitos quanto agora. É o tipo de coisa que vagueia minha mente enquanto recordo detalhes tolos, risos infantis, nuances de tons que a luz da fresta faz no cabelo. Isso talvez pudesse ser algo triste, o pensamento de que deixamos a vida passar de raspão pelo peito por medo das cicatrizes, mas a verdade é que não consigo ser fatalmente mórbida quando penso no sentir. Tenho conclusões trágicas todos os dias sobre os mais variados assuntos, mas o final das divagações contém sempre um fio esperançoso de céu azul. 

Tenho pensado muito no correr do calendário e nas reservas feitas pela vida sem nosso conhecimento prévio. As consequências de cada ato, por mais simplório que seja. Conversando com amigos noto que ninguém sabe muito bem para onde está indo, mas todos têm ideais sobre o destino final. Aprendi há tempos que planos se dissolvem a cada passo dado, os agentes mutáveis não se importam muito com nossa lista de tarefas daquele início de ano fugaz. É necessário viver na inconstância dos acontecimentos.

Nunca mais repetiremos todos os momentos que nos tornaram, ainda que num jeito sem-querer-querendo, quem somos. Não voltaremos ao ponto de partida. Seu olhar não será o mesmo de dois dias atrás e eu não terei a sensação equivalente àquela da última semana. Me recorda a explicação de que nunca mais tocaremos a mesma água do rio, serão outras na corrente que nos guia - admito gostar de lembrar, apesar da efemeridade me doer. 

Seremos outros. A cada segundo estamos um passo mais perto de. Um dia, semana, mês. Mais perto de. Daquela coisa sem nome ou definição que vezenquando nos pegamos esperando como se soubéssemos. Talvez assim que nossos olhos ou peito baterem de encontro, saberemos. 

Independentemente dos dias que seguirão, dos desalentos e afagos que virão, gosto de pensar que, assim como minhas conclusões esperançosas, o que espera do outro lado é bonito.

G.

Escobar,

Você habita cada curva e ínfima depressão que me detalha. Não há tempo de se envergonhar pelas marcas, arranhões e cicatrizes. Tudo já foi visto, tocado e sussurrado numa voz que conhece cada nuance da minha respiração. Há um lembrete de memória boa em cada caminho dedilhado. Você sabe sobre a pinta que tenho na costela direita tanto quanto sabe que a boca na linha da clavícula causa suspiros. Vezenquando penso em dizer que sua respiração no osso do quadril me faz arfar em expectativa, mas você prefere fazer com que eu me perca no caminho.

Então há dedos cravados na carne e caminhos em saliva. É tudo bonito porque soa como se não houvesse mais nada além de você escorrendo nos meus poros, dedilhando a pele arrepiada, marcando com as unhas todas as coisas que não dizemos. Porque você me toma num gesto e me ganha em entrelinhas que ninguém mais nota, e no silêncio penso em contar como você se encaixa em todos os devaneios que tenho antes de adormecer. Mas sua respiração está debaixo dos meus dedos e não há nada mais a ser dito.

Amo na calmaria que se desfaz após o furacão. Seus trejeitos passeiam por mim durante horas, recordo as memórias como num filme por dias. São desses momentos em que haveria para dizer, mas prefiro beijá-lo uma vez mais. Vezenquando até nosso gosto por palavras sabe que elas não são necessárias.

Nada seria tão bonito não fosse pelos seus olhos de sono que miram com aquela preguiça boa de quem tem tempo de sobra. E eu amo tudo sobre sua respiração entrecortada na minha boca e as mãos que fazem o caminho das costas até o quadril como quem decora cada linha.

Você reside em cada terminação nervosa. Eu seria capaz de me perder sob seu tronco todos os dias e sabemos que ainda assim não seria o suficiente.

Você estava com o nariz nos meus cabelos há minutos atrás e eu já sinto sua falta,

Cecília.

G.

Fragmento

Me vi engolindo lágrimas quando notei esvair junto delas todas as coisas bonitas que me habitavam. O afeto escorreu nas pálpebras e desceu pelo queixo até se perder em alguma curva do corpo, entre passos apressados e calçadas ruidosas. Foi quando, ao passar as mãos pelo rosto, senti meu amor na ponta dos dedos.

G.

Chorei diante das impossibilidades que fizeram quem sou. Todas as pessoas que se desviaram do meu percurso por algum motivo. Os erros, equívocos e desatinos que causaram maledicências. Dia desses me peguei pensando em nomes que se aproximaram com o intuito de tocar, desenganos que partiram meu coração. 

Porque vejo-me culpada no ato de sentir. Porque nunca me foi dito nada aterrador do tipo você-não-foi-feita-pra-ficar, ou frases que fincariam feito estaca no peito, mas os atos contradisseram cada palavra de afeto. 
Eu não quero te machucar. Então fere.
Eu gosto de você. Mas. Há sempre um mas.
Escuta Cecília. E toca no violão aquela do Chico que dias depois causa pranto.
Desde sabe-se lá quando eu não sei o que é sentir que é a hora. Tudo parece um punhado do mesmo. As pessoas rodeiam por caminhos distintos rumo ao mesmo final. Eu sou um erro. E me enxergo no espelho como quem tem pena do reflexo, o olhar de quem sente pela falta de jeito. A voz que ecoa todas as memórias. Um sentir desajuizado que ignora avisos racionais.

Vezenquando a gente não foi feito pra ser raiz em afetos alheios, e tudo bem. Você pode ser somente parte do trajeto, talvez um caminho florido. Vai doer, como já doeu antes, e tudo bem. Deus sabe que até hoje nunca fui suficiente para qualquer coisa que complemente essa frase como um final feliz.

O amor tem esfriado porque as pessoas já não o querem. Há demasiado farsante travestido de afeto manchando teu nome. Não culpo o sentir por absolutamente nada e não aponto réus, ninguém é capaz de ferir sem autorização prévia. Estamos todos perdidos, afinal. 

Eu só não aguento mais ser tanto remendo e promessa. Eu só não aguento mais.

G.

(lembrete)

Caminhei pelas ruas de pedra recordando seus olhos que enxergam o mundo como um imenso rolo de câmera. Te vi, em janelas com flores vermelhas, na calmaria que vem com a brisa e o céu sem nuvens. Te vi, nos meus detalhes antes rotineiros, nas ruelas onde conhecidos cumprimentam e andam apressados. Por todos os lados, eu vi. Foi então que pensei numa utopia bonita. Você habita os cenários bonitos da minha retina.

G.

eu quis colar a boca no seu rosto e recitar alguma prosa de caio, e você ia sorrir e fechar os olhos e sentir o som reverberar na sua pele. falaria aquele da avenca que deveria ser uma samambaia mas cresce sem parar, os dedos cravados no seu braço. tudo seria triste e bonito, ainda que nossa tristeza seja mais alheia do que propriamente nós. aquele momento resultaria num riso que contradiz a taquicardia do peito. porque você riria do meu ato mas teria o corpo aquecido. eu faria meu ar blasé mas aquilo diria mais que um punhado de canções populares. esses dias eu quase te chamei para aprendermos italiano porque vejo nosso amor em florença, embora acredite piamente que ele sobreviveria mesmo no frio do ártico. é bonito dizer isso porque eu sempre fujo do amor, mas dessa vez o sinto talhado na minha carne. e digo pausadamente para você sentir a entonação de cada palavra saindo dos lábios e se propagando na pele. eu sou triste mas você me faz uma tristeza menos só. eu quero partir mas quero ainda mais que você me impeça. você abre a boca mas se cala. vezenquando me sinto uma intrusa da vida. eu não devia estar aqui, eu não devia estar aqui, digo e repito ainda com as mãos apertando seus braços porque minha fala contradiz os desejos.  

agora vejo-me amena, como a calmaria antes da tragédia. quis usar esse momento de lucidez para grudar em você, chorar por todas as vezes que me vi fitando esse abismo que reside n’algum canto de mim, porque você não sabe acalentar dores mas é minha calmaria. então eu fecho os olhos e deixo meu nariz frio na sua bochecha até o peito aquietar. te escuto contar as batidas num sussurro, uma, duas, três, quatro, calculando quanto tempo vai levar para a próxima aceleração cardíaca. eu engancho os dedos na sua camisa como quem procura equilíbrio. você desfaz o nó que mora entre a garganta e a boca do estômago. essa tristeza me adoece e tenho medo da piora. senti novamente as dores que te assustaram há dois anos atrás, mal consegui respirar, silenciei. penso em contar sobre a outra música do chico que te vi esses dias, escutei e escutei e senti-me feliz porque gosto da poesia dele tanto quanto gosto de te ver chegar. enxergo seus detalhes nas coisas mais belas que me marcaram e mal noto. quero falar de toda a ternura que sinto, não consigo, você me causa lágrimas nos olhos pelo excesso. não negarei as lágrimas que se esvaem por você, a verdade é que me permito sentir como se voltasse ao tempo em que o afeto era vivido sem temor. tenho medos irrefutáveis e ainda assim te vejo com olhos de quem vê alguém que o faz na mesma proporção. sinto como se fosse feita para amar até te amenizar a exaustão. nosso amor é doído e acalentador como aquela música que você canta ao pé d’ouvido quando estou prestes a adormecer. 

na sua pele aquecida pela minha boca, na sua camisa amassada pelos meus dedos, nos seus olhos cansados como os meus, sussurro sem som que era você, sempre foi você. ainda que meus pés se distanciem dos pelos da sua perna, ainda que suas mãos deixem de aquecer minhas costas, ainda que uma infinidade de orações adversativas levem seus passos para o lado contrário, ainda será você.

G.

(…) Me deixa ver o mundo de outro jeito só por hoje. Me deixa crer que tudo é cinza porque as cores tem sido felizes demais. Se deixe ser extremo para qualquer lado da balança que soar aceitável, quem sabe até os dois. Deixa meu corpo se equilibrar entre o riso e a lágrima porque é disso que sinto ser feita. Quero me perder nesse horário tênue entre a madrugada e o Sol que vem devagarinho, só hoje. Só até o breu passar, só até amanhecer.

G.

eu te amo. e te digo no papel porque olho-no-olho já não consigo. te amo e sei que não sou eu, porque nunca consegui acreditar que seria. não falo de você e de mim, nossa história tem nuances que não se encaixam no todo, digo de mim com o resto. você tem ciência de todas as coisas que me rodeiam, exceto o fato de que nunca sou eu, com ninguém. e você diz que queria trocar de lugar comigo porque me vê leve e pura e pronta para viver sabe-se lá o quê, mas a verdade é que sou o peso de alguém que nunca viveu completamente uma história de amor. ninguém nunca cruzou a cidade para me ver ou colocou chico buarque enquanto lembrava de alguma mania que tenho e mal noto. ah, mas já estive em várias histórias - tuas, do alheio, de quem cruzou com meus clamores românticos e se sentiu tocado- mas nunca fui a real protagonista nos escritos de ninguém, nem mesmo os meus. 

me apaixono, amo, torno-me pó e revigoro absolutamente só. tem um trecho que gosto muito, ele diz que tudo o que amei, amei sozinho. já vivi infindáveis contos de amor, fiz declarações, escrevi cartas, desenhei personagens que quem visse suspiraria de encantamento - como não gostar da graça daquele sorriso rasgado que toma tão distraidamente?-, mas eles não existem no mundo material, nunca os toquei. 

tenho pensamentos conflitantes sobre o sentir. ora penso que é necessário dizer - sou absolutamente contra guardar para si todas as coisas bonitas que habitam o peito e podem tomar o mundo-, ora quero afogar todos os desejos que me inquietam por puro instinto de autopreservação. você não sabe que eu ouvia “stuck on the puzzle” quando decidiu se despedir e desde então a trilha de submarine me causa dor de cabeça, mas sabe que após esse dia as coisas têm sido distintas porque há uma trava dentro da minha cabeça e três na sua. 

essa sou eu dizendo que tenho fugido de falar sobre sentir porque vejo o amor te corroer em cada ponta, essa sou eu ignorando o fato de que temos vivido numa cela trancada temendo que qualquer toque possa fazer o universo desmoronar. as coisas não têm me tocado em ponto algum e isso me faz querer chorar, mas ainda é bonito o fato de você conseguir me aquecer momentaneamente o peito quando decide que é hora de fazê-lo. e quem vê as coisas dispostas assim talvez nem imagine todas as vezes que suas mãos me puxaram para a superfície, e quem te vê fazendo pilhérias ao longo do dia talvez não note o seu cansaço em existir num mundo em que deixar de sentir é questão de sobrevivência. mas, meu bem, nós sempre sentimos demais.

e eu sinto muito por isso, com a ambiguidade que permeia as orações. sinto por sentirmos tanto num universo em que usam o próprio afeto para nos destruir. sinto por todas as dores que tivemos como indivíduos porque, veja bem, nós não somos o problema. sei que é difícil crer, mas nunca fomos. não somos mocinhos ou vilões, apenas sentimos e seguimos caminhos dolorosos. não como se fosse uma escolha, nunca foi. 

sinto termos tanto vazio a compartilhar, desde o primeiro dia.

e eu te amo como quem se reconhece no alheio. como quem já não é capaz de traduzir afagos por ter se calado há tanto tempo que não sabe mais o que deve ser dito. eu te amo o suficiente para engolir o afeto e silenciá-lo e mesmo assim ele não morrer. te amo e recordo detalhes entre as canções que já não ouso escutar. 

nunca fui alguém por quem qualquer pessoa cruzaria a cidade para ver, ou a musa inspiradora de obras grandes ou medíocres, ou mesmo aquele sonho bonito que faz o outro desejar um futuro ao lado porque, meu Deus, seria tão bom passar um infinito-até-o-mundo-acabar na companhia. mas eu cruzaria a cidade por você. sem grandes expectativas. apenas por ser você.

quando disse que não espero nada, foi pelo fato de que nunca pude esperar nada de ninguém. você discordou dizendo que sou a pessoa que rema e não a que foge. eu não consigo fugir. a verdade é que você me conhece bem o suficiente para saber que sempre espero, ainda que não queira.

dentro de mim mora uma ternura imensa por você. ela se comove com seus olhos de sono mesmo quando o resto do mundo já não consegue me tocar. ao contrário de toda a efemeridade que me cerca, ela não se esvai. e o mais bonito nisso tudo é saber que você a sente de volta do outro lado do muro, mesmo quando sua voz já não diz. 

G.    

Quis naufragar tuas incertezas como quem crê em dias amenos, e dizer numa prece esperançosa que é possível, sim, perpetuar as coisas bonitas. Eu colo o rosto no vão das tuas costas e devaneio sobre como é possível pensar em lamúrias ou guerras ou atitudes fatais quando se tem o instante em que respirações se igualam numa mesma calmaria. Você dedilha despreocupado algum ponto atrás da minha orelha e silencio como quem grava uma cena. 

Poderia falar da taquicardia que provocam suas mãos, das unhas encravadas na sua carne e todo rastro teu que fica na minha pele horas depois, quando tudo torna-se silêncio entre suspiros descompassados. Diria que sou minha quando sou tua, porque toda poesia dança na cadência correta quando advém da recordação dos seus olhos de sono que viram demais. Então sussurro, entre seu pescoço e a clavícula, o quanto é bonito permitir-se sentir sem grilhões por segundos que sejam. Penso em dizer também que o [nosso] amor é demasiado bonito para residir vendo pelas frestas da janela a vida caminhar.

Há nesse instante a sensação amena de um peito aquecido pela memória. então paro por alguns milésimos e dou-me a permissão de sentir como se não houvesse nada além dessas paredes, o nariz frio no seu pescoço e pernas entrelaçadas e preguiçosas. Porque desde menina escrevo que coisa boa não se entende, mas se vive e sente. Todas as palavras postas até hoje nunca fizeram tanto sentido quanto nesse exato momento em que te vejo habitar cada descaminho que fez de mim o que sou. Qualquer certeza triste sobre rascunhar o amor se desfaz quando recorda que ele trouxe você. 

Um suspiro pesado sai da minha boca porque transbordar me enche também os pulmões. Canções que entoa antes de adormecer me tomam devagarinho todos os dias e lembram que vezenquando nosso gostar é gostado de volta na mesma proporção, ainda que não seja proposital, e tudo bem. Talvez seja apenas sobre encontrar as costas certas para descansar um rosto fadigado pelos dias. Talvez nós devamos começar a nos acostumar com finais felizes e crer no nosso. Eu só sei que é difícil demais pensar em tristeza sabendo que esse mundo é habitado por você.

G.

B.,

Sempre te escrevi por dois motivos. O primeiro deles é que você merece não uma, mas dezenas de cartas. O segundo é, admito, uma necessidade minha de te manter ciente sobre todas as coisas. Escrevo quando o mundo me dói e seus braços estão distantes. Vezenquando é preciso chorar sob o olhar de alguém que não me deixou cicatriz.

Me pego recordando partidas. Você tem conhecimento de que elas são tristes, assim como fazem parte de nós. Sabe, também, o quanto dói ser ponto passageiro em vidas que criam raízes no nosso peito. Me desfaço em lembretes que rasgam porque, por mais esperançosa que eu seja, compreendo o caminho dos dias e a realidade de que existem escolhas fora do nosso alcance.

Não tenho escrito sobre o sentir de uma forma bela - de forma alguma, na verdade -, tudo me soa contraditório. É como se eu soubesse do vazio que virá me abraçar após cada sorriso, para me lembrar que não sou eu. O sinto em cada ponta do peito como quem recorda que não há escapatória, então te escrevo. Porque meu vazio não te afugenta, B. Eu não tenho que ignorar ou esconder diante dos seus olhos a brutalidade com a qual o mundo me rasga.

Dia desses me peguei pensando no fato de você ter sido a única pessoa que jamais me feriu. Isso me deu alento como aquela canção que recorda nossas andanças. Mas se me perguntarem a coisa mais bonita sobre você, direi que foi eu nunca precisar te pedir para ficar. Não pela partida ser uma constante de quem me marca, mas por saber que você não vai.

G.

(…) 

Você me fez pensar que vezenquando gostar pode ser passar um par de horas ouvindo músicas desconhecidas porque o outro está feliz, ou colocar a mpb na voz do compositor que não gosta porque alguém vai cantar junto. Talvez gostar seja apenas ser o que você faz. Você segue. Como quem compreende cada curva, você segue. Enquanto continuo escrevendo rascunhos que tentam ser bonitos iguais você. Nunca te contei, mas creio que há pessoas que merecem receber textos de amor, e você é uma delas. Eu só quero te dizer que me habitou em cada frase com afago que encontrei hoje.

Você me ensinou um tanto de coisas que fariam o mundo um lugar mais bonito. Eu amo sua existência por isso e por tantas outras coisas que você faz sem notar.

G.

Quando o mundo pesa, deságua pelos olhos. É preciso desprender-se de si, de peitos alheios, aquietar. Então você ouve aquela do Caetano que te decifra sem querer, sussurra outra do Chico com os olhos fechados e o quarto em breu. Quem sente as dores do mundo como se fossem suas precisa de válvulas de escape constantes para não implodir, porque qualquer detalhe toca a gente. Qualquer olhar roubar o ar e deixa aquela dor incômoda nas costelas. Então você chora sem som como quem tenta se esconder, então você dói em cada ponta como se perdesse o controle da própria voz. E deságua como rio que procura o mar, um alento, sossego entre tantas andanças. Vezenquando é preciso chorar a dor da própria existência para continuar a sentir.

G.

Certa vez disse que te amava como amo um dueto que me toca como poucas coisas são capazes. O que não contei é que uma música em especial sempre te traz para perto. Você entrou nas canções mais icônicas do meu compositor favorito. Me vem num rompante a letra de “porque era ela, porque era eu” e há você em cada verso, como se em todos esses anos eu a tivesse cantado para você.

Você está nesse minuto resmungando do meu lado enquanto dorme. Nunca te contei que nesses momentos silenciosos faço rascunhos sobre os pensamentos que me rodeiam. E tem um sossego dentro do meu peito como quem diz que as coisas são sim bonitas. Talvez seja a calmaria da sua respiração, talvez seja um presságio com promessa de bom tempo. Eu, que sempre me senti irremediavelmente só, já não sinto a presença do vazio quando vem teu nome. Nesse instante rotineiro, eu transbordei você.

G.

Você sabe do sentimento antagônico que tenho sobre partidas e toda a crença na efemeridade. Eu nunca falei o porquê desse medo, eu nunca falei que em todas as fases da minha vida houveram afastamentos, silenciosos ou explosivos, das pessoas ao redor. Ainda que doesse, ainda que eu pedisse - aprendi a não fazê-lo -, compreendi que às vezes somos feitos para sermos estação. Hoje falei sobre ficar e esperar e em como os atos são inconstantes. Há dias penso sobre essas passagens que temos nos outros. nunca entendi muito bem quem, para dar passos à frente, precisa deixar pessoas para trás. Me doeu quando você disse que essas coisas são rotineiras, doeu porque me vi como um desses descartes que são comuns mas não deixam de ferir. 

Sempre me enxerguei efêmera. Sou aquela pessoa bonita que sussurra uns afagos e passa. Então você diz que não quer partir e digo não vai embora porque você é amor e promessa de tempo bom no meio do furacão. Eu te peço pra ficar desde antes dos desvios no percurso porque sabia desde aquele momento que você residiria no meu peito. 

Te vejo como os versos que canto quando só, elas me acalentam de maneira similar a olhar o céu e enxergar que há além dele mundos e multidões e promessas belas a serem cumpridas. Você me é como a literatura que devoramos em silêncio e nos entende de volta. Eu sei tudo sobre seus descaminhos, ainda que não tenha seguido ao seu lado em todos eles. Você me vê o vazio como quem o encaixou no seu milênios antes de conhecê-lo. 

Não sei sobre os dias que seguirão, mas hoje eles são bons como os segundos de quietude que passamos, porque não é necessário dizer mais nada quando há conforto ao lado de outra pessoa. Então você resmunga sobre já ser tarde enquanto conto o quinto bocejo dos últimos dez minutos. Nós somos fáceis como se o caminho fosse traçado para se cruzar. 

Gosto de pensar que as curvas nos levam a encontrar quem deve passar. Pessoas tocam, marcam e transformam. Gosto de imaginar que as marcas de seis anos atrás me trouxeram até esse momento em que você se espreguiça e espia os rascunhos e finjo não notar suas mãos sobre os papeis. Nesse minuto tive vontade de te sussurrar que não é necessário dizer eu te amo para falar de amor, ele talvez esteja nesse estado de calmaria que habita o mundo quando nossas respirações se igualam despropositadamente. É tudo tão simples que a gente mal nota. O amor talvez seja essa rotina bonita que fazemos sem querer.

G.  

(Anotação)

Tenho pensado em algumas verdades, daquelas que vem num rompante, quase doídas.

Já não encanto com ninguém. Não franza o cenho assim, digo porque me permitia ser tocada até por sorrisos na rua. Algo dentro de mim cruzou os braços como quem me olha contrariada. Talvez eu esteja naquele momento de quase encantamento atemporal, mas não penso nisso. A verdade é que não venho levando a sério aos outros corpos, nem mesmo o meu. Repenso o pensamento anterior, em verdade tenho me desencantado.

Chico canta Ligia ao fundo e me reconheço, apesar de adorar a chuva. Pauso. Penso que seria bonito andar por Copacabana, visitar algum sebo em Ipanema, viver o cotidiano carioca que nunca me pertenceu. Eu sempre senti dores alheias, talvez isso faça o próximo pensar que jamais tive as minhas, como se nunca houvesse vivido Atrás da Porta ou Olhos nos Olhos. Já vi olhares de adeus, já me rasguei, deitei desamparada no piso frio. Senti-me uma entre tantas outras que respiram resignadas a compreensão de toda a tolice que sentir dá. E tantos outros amaram tão mais e melhor. Ainda assim, insisti. Quando não me restou nada além da memória de toda a efemeridade, parti. Gosto de pensar que há motivação anterior ao reconhecimento. Dói pensar que quase ninguém me conhece absolutamente, digo quase com esperança infantil de que há observador capaz de me decifrar. Me apontam o dedo, me afirmam. Não me sabem, não me vêem.

G.

(Anotação)

esses cansaços que trazem tristeza, pedem corpo e tato, pedem voz e pés colados nas pernas. não por luxúria, não só pela vontade de ver-se no outro e receber todos os afagos. o peito desacelera e vezenquando um peso traz consigo a falta de ar, sinto algo arranhar os pulmões. o rosto no travesseiro, as pálpebras inquietas. eu quis encostar a testa no seu ombro para perder um pouco esse peso de ser alguém. eu quis que você encostasse de volta porque os dias estão árduos. pensei em dizer um tanto de coisas dessas banais, algumas bonitas, uns temores baratos. me perco em devaneios, os olhos pesam em exaustão, os seus já estão fechados. 

G.

Nesses últimos dias tenho sentido um comichão no peito que não me deixa pensar em coisas tristes por mais de dez segundos. E ele [esse comichão] tem seu nome. Vezenquando até tento aquietar, mas você vagueia livre por tudo que me habita. Eu te sinto tomar cada fresta do meu peito e escorrer pelas bordas até que não haja nenhuma parte do meu corpo sem um pouco de você.

G.

Tu me causa letargia com o toque e não há nada além de mãos e lábios percorrendo todo o rastro de gente que insistimos em decorar. Eu te prendo entre as pernas como quem sente urgência, desejo em cada parte passível de torpor. Você me prende as mãos como quem sela um contrato, sem contraproposta ou possibilidades de recuo. Quis falar sobre o quente que sobe as entranhas enquanto esfrega os dentes no meu dorso, mas todo pensar se desvencilha quando teus dedos me puxam o quadril. Me perco sob você, não existem mundos além destas paredes.

Marcar como quem toma posse de um elo perdido. Falar ao pé d’ouvido, entre suspiros e gemidos, todo o desatino desperto pelo passear da língua no ventre. Pedir, quase num ronrono, que seus pelos jamais deixem de roçar as minhas coxas, que a respiração não abandone minha nuca, a linha da coluna, as pontas das costelas. Me toma sem pressa, como quem tem todo tempo do mundo. Me invade com impaciência, fome e sede de viver. Quero ouvir teus sussurros sacanas de quem mal começou e já causa desequilíbrio. Você, meu descaminho proposital. Você, por todos os lados você. Nas curvas dos meus seios e nos ossos do meu quadril, você.

Diga que sou tua e não há nada mais correto do que suas mãos assinando digitais em cada detalhe, e me devora. Eu cravo as unhas no meio nas tuas omoplatas só para ouvir o arfar incontido. Cada som de encontro a pele causa aquele arrepio de arquear as costas como quem se entrega sem reservas ao outro. Repito seu nome sem parar, aceito todos os termos que me fazem estremecer na cadência do seu tronco. Decoro o encaixe dos seus dedos, a textura da língua, os suspiros que me fazem recordar e querer um mundo onde seja rotina me perder em você.

Devaneio um punhado de teorias tolas e belas minutos depois, sua respiração entre fios de cabelo, ainda sorrindo, ainda querendo re-memorizar detalhes. Eu quero tua lembrança em cada curva, vão e marca de pele. Me habita em cada borrão formado pela luz da fresta. Resida nas palavras inaudíveis, os lábios demasiados secos para pronunciá-las. Eu quis te contar num desses silêncios pós tempestade que passaria toda uma vida me perdendo em você. Ainda não seria suficiente.

G.