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Francis Alÿs by Espaço Húmus

Com que tamanha inocência e crueldade as crianças mexicanas arrancam as pernas dos gafanhotos, para depois fazê-los voar, irreparavelmente danosos, ainda vivos, encantadores no ar. Durante quatro minutos, o artista belga Francis Alÿs, com câmera em mãos, acompanha a estranha brincadeira, sem interferir, num acompanhamento cúmplice. Este é um da série de vídeos Children’s Games, em que ele grava jogos infantis em países como México, Afeganistão e Venezuela. A pura e simples poética do cotidiano, que não precisa levar a lugar nenhuma. Como diz Mark Godfrey, curador do Tate: “A qualidade poética do trabalho de Alÿs reside no seu fantástico absurdo, sua transitoriedade, seu imaginário imagético e acima de tudo sua enigmática abertura à interpretação”.

Foi na Cidade do México que o artista deu início ao processo de perambulações artísticas. Profundamente tocado pelo choque entre sua carreira de arquitetura em Veneza e a crueza das ruas do país latino, Alÿs começou uma série de itinerâncias pela cidade, reconhecendo assim as superfícies e relevos. O seu primeiro trabalho, datado de 1995, é ele caminhando pelas ruas do México deixando como rastro fios azuis que se descosturavam de seu suéter azul. A poderosa simbologia da imagem – fundir-se com o novo lar, marcar os novos caminhos – acompanhou todos os seus seguintes trabalhos. As noções de demarcação tem uma força estrondosa em projetos como “The Leak”, do mesmo ano, onde deixou um rastro de tinta verde na fronteira entre Israel e a Cisjordânia.

Não é possível reduzir os trabalhos de Alÿs à uma caráter pueril de política ou de poética. Bem da verdade, muitos dos vídeos versam sobre as grandes possibilidades imaginativas de se chegar a algum lugar com uma imagem que não quer dizer nada. Longe de não ser retocada, pois os trabalhos do artista tem precisão de captação, tanto de som e de imagem. É que a subjetividade do que ele se propõe a gravar pode ter inúmeros desdobramentos para quem assiste. Qual tristeza a minha foi de assistir o vídeo Reel – Unreel, pelo movimento nostálgico dos rolos de filme que desciam e subiam as colinas de Kabul, e o grupo animado de meninos que podiam ir atrás delas, enquanto as meninas ficavam à soleira da porta, apenas observando, coadjuvantes.

Muitas de suas performances também contém esforços absurdos dele próprio e de colaboradores: Em Paradox of Praxis 1 (Sometimes Making Something Leads to Nothing), o artista carregou por nove horas um enorme cubo de gelo pelas ruas da Cidade do México, trajeto que foi reduzido à um vídeo de cinco minutos do progresso de desgelo e aparente inutilidade do gesto. Já em Faith Moves Mountains (2005), o artista reuniu cerca de 500 voluntários para jogar areia de uma duna para outra, alterando sua geografia, ainda que em poucos milímetros.

Uma de suas obras mais conhecidas, Fabíola, originou-se de um encontro entre ele um quadro popular de uma santa recente que se encontra em inúmeras reproduções, onde ela está de perfil e manto vermelho. A pintura original se perdeu, mas Alÿs empreendeu uma busca por mercados, antiquários e lojas ao redor do mundo buscando as réplicas dessa imagem. A multiplicação, quando posta lado a lado, também revela-se arte, e diz muito sobre o mercado da mesma.

Deixando seu rastro social e poético pelos lugares onde passa, Alÿs realiza uma cartografia imaginativa de espaços urbanos e de sua enorme gama de possibilidade. A cidade na palma da mão, os habitantes seus melhores contadores de história. A poesia de estar dentro do olho de um tornado e sair, visualmente ileso, mas profundamente alterado pelo gesto de tê-lo feito.

When faith moves mountains (Lima, Peru), 2002

Sometimes making something leads to nothing (Mexico City), 1997

Francis Alÿs - When Faith Moves Mountains

For his 2002 “When faith moves mountains” he literally transformed a common figure of speech into an action piece. In the mountains just outside Lima, Peru, Alÿs asked 500 volunteers to walk in a line and use a shovel to move the sand dune 10 centimeters from its original position. The work might be considered a social commentary on the shifting of the country from Fujimori’s dictatorship to democracy and a deeper questioning about the effective role of mass movements of people in causing such shiftings. Furthermore it might be seen as a cynical reading of the artist on the act of “believing” and the absurdity it entails: the effort sustained by the volunteers only produces a small change, which is invisible and unmesurable.

Walking, in particular drifting, or strolling is already—within the speed of culture of our time—a kind of resistence. But it also happens to be a very immediate method for unfolding stories. It’s an easy, cheap act to perform.
—  Francis Alÿs