fora corrupção

Ah… É. Eu sai. E antes que você me julgue por isso, deixe-me explicar algo: precisei sair as pressas por causa do meu pai, houve.. Problemas, muitos, com ele e então tive que ir embora correndo. Desculpe não ter avisado porém eu voltei, não fiquei tanto tempo fora, foram apenas dois dias. Nem deu para sentir saudades não é mesmo?

O céu sorria para ele, mesmo se uma aeronave invadisse a cena, um grande e fálico avião singrando o espaço aéreo: sua metáfora para a promoção. Agora o céu está murcho, o azul parece ridículo com tantas nuvens à espreita, prontinhos para mandar o roteiro do dia. Ridículo. Sabe-se também ridículo, e fracassado, e patético, e não faltarão adjetivos para se autoqualificar. O fracasso ganhou versões antes de se fixar patético e assumir-se definitivamente como fracasso: foi chamado de injustiça nas primeiras horas e transmutou-se em martírio, e em rito de passagem, e chegou ao último dia nas montanhas como provação a ser enfrentada com queixo erguido. Agora é fracasso e pronto, e sem o clichê do queixo erguido. Não vai tolerar nenhuma idiotia do tipo: deixe o tempo agir, cara, a gente vai rir disso no futuro, vai ver só, espera só. Deixar o tempo oxidar a visão, mascarar tudo outra vez? O plano brilhante? É isso, garoto: deixe que a ilusão se cristalize de novo, e que retome o jeitão de verdade incontornável, a promoção já vai se materializar, os deuses vão atendê-lo, e foda-se. Está cansado. Foda-se. Fo-da-se. Um novo suspiro gritado: e não quer mais saber se se a mocinha do lado está rindo ou não. É: foda-se. Liga o som, mas evita o rádio, seleciona uma trilha no mp3 e a melodia sai das caixas, uma antologia destilada para momentos trágicos na estrada. (…) Não sabe por que faz isso, mas segue o embalo e fecha a janela, acende o friozinho domesticado, é o que costumava dizer, e ela costumava rir de suas repetições.
—  “O Frio Aqui Fora”, Flavio Cafiero. Ed. Cosac Naify, p. 33

Eu estava conversando com um cara mais cedo sobre atuação e acabei chegando a conclusão de que eu seria uma boa atriz se eu tivesse mais vocação. Quer dizer, ser o Linguado na peça de ‘A Pequena Sereia’ ou Wednesday em ‘A Família Addams’ são bons papeis, certo?

Eu não sou penetra e também não estou bêbada. Na verdade, nesse exato momento poderia estar com uma taça de vinho na mão, mas não, estou participando de uma simulação de estupro. Ao menos deveria ser mais discretx me colocando para fora.

Não, eu não vou fazer aquele truque. Pode, por favor, parar de pedir? Ou simplesmente ir embora? Isso seria ótimo.