folha de s.paulo

Fico pensando se te amei ou tive uma compulsão desenfreada por você. Se você não era uma promoção imperdível de roupa importada, bonita, cara e cheirosa. E eu te enfiei mil vezes dentro de minha sacola. Quis comprar sua loja inteira da mesma peça. Você era tão simples e eu tão alucinada querendo decifrar cada enigma.
—  Tati Bernardi.

Mais decepcionante do que o velho discurso de que “a TV brasileira não tem nada que presta” (ZzZz…) é ver os próprios críticos fechando os olhos para algo que é realmente novo. Agora, fala-se que a novela das nove é ruim pois (vejam só!) quer “dar aulinha de ética para o público”. Depois de reproduzir um discurso racista, homofóbico (e insira qualquer outro preconceito nojento aqui) durante décadas, finalmente uma emissora tão tradicional (no sentido mais pejorativo da palavra) como a Globo vem abrindo portas para falar de temas de extrema relevância e muitos especialistas em TV estão pouco se lixando para isso. A Globo fez isso tardiamente? Isso é claro. Agora o faz de forma inocente, como se finalmente tivesse criado consciência da amplitude cultural e social do seu público? Óbvio que não. Mas a cena mostrada hoje que retrata uma senhora esbravejando absurdos como “a Ditadura só foi ruim para quem foi subversivo” ou “essas velhas sem vergonha são uma afronta à família brasileira”, sobre o núcleo do casal formado pela Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg , não me pareceu “liçãozinha de moral” nenhuma, muito menos falso. É, aliás, bem parecido com o absurdo homofóbico que eu li em diversos comentários por essas redes sociais. A importância de se retratar tudo isso, por si só, já é algo a ser louvado, por mais que a novela possa não ser lá isso tudo. Tem gente esperando pela “nova Avenida Brasil” a cada nova novela e com isso, acaba por desmerecer uma produção promissora. “Babilônia” vem de uma sequência realmente fraca de novelas nessa faixa de horário, e ainda não vi nenhum enorme furo de roteiro que me fizesse pensar que seja uma novela ruim. Como disse, sua intenção e sua mensagem são importantes, principalmente em um país atualmente tão retrógrado que chega a fazer “boicote contra essa baixaria toda que tá por aí”- o que,obviamente, estremece a audiência. O pior de tudo isso é ver que os críticos de TV e entretenimento (os vulgos “especialistas” - botando aí muitas aspas) estão comprando esse discurso. Acho que a mudança principal precisa vir da cabeça desses ~grandes jornalistas de grandes mídias~ que fazem críticas há anos e parecem não estar conseguindo acompanhar as mudanças de produção, audiovisuais e de roteiro que a TV vem mostrando - mudanças para melhor, inclusive. De jornalismo preguiçoso, o Brasil já está saturado. E de gente ultrapassada, também.