folha de s.paulo

Atuação no jornal Folha de S.Paulo - Folhinha

Entre 2010 e 2011, fui repórter do caderno Folhinha, o suplemento infantil do jornal Folha de S.Paulo. Lá, cobri assuntos diversos, cuidei da página do caderno e do Twitter também.

Um dos trabalhos de maior destaque foi a cobertura do terremoto que assolou o Japão em março de 2011. Para a matéria, entrei em contato com crianças brasileiras e japonesas que residiam no país. Também participei da edição especial em homenagem ao aniversário da obra “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato, que ganhou exposição.

Ainda atuei como editora-assistente interina do caderno por cerca de cinco meses no total.

Leia algumas matérias abaixo:

Neto do Pelé fica famoso com golaço que caiu na internet

Conheça os livros que marcaram a infância de escritores da Bienal do Livro

Crianças falam da tragédia na escola do Rio de Janeiro

Meninos enfrentam multidões para curtir grandes shows de rock

Crianças brincam em rede social que é feita para jovens e adultos

Entenda o terremoto e o tsunami que atingiram o Japão

Spoilers

Uma mulher é assassinada no Baixo Gávea ao meio-dia. Um avião é derrubado e mata 300 pessoas. Morre João Ubaldo Ribeiro. Israel invade a Faixa de Gaza.

A morte dos outros é um spoiler. Parece te revelar algo que você não sabia, ou fingia não saber sobre você mesmo: você vai morrer. Olhe à sua volta. Todo o mundo vai morrer. A vida é pior que “Game of Thrones”. Não sobra nem o anão.

A vida só é possível enquanto a gente esquece que a morte está à espreita. Os jornais, como a revista “Minha Novela”, contam o que a gente não quer saber. “Olha a morte ali, te esperando. Nada disso faz sentido. Nunca fez.”

Há quem busque um sentido na religião, que jura que o melhor está por vir. O padre dá ao beato o mesmo conselho que um fã de “Breaking Bad” dá àquele que está começando a série: só vai ficar bom mesmo lá na última temporada. Mas não pode pular nenhum capítulo. Você vai ser recompensado. Confia em mim.

O que vale para “Breaking Bad” não vale para a vida. O câncer não regride quando você começa a vender droga —infelizmente. A vida está mais pra “Lost”. A cada episódio que passa surgem novos mistérios. Prometem que no final tudo vai se esclarecer mas tudo acaba de repente, com todo o mundo se abraçando. Só te resta a perplexidade: mas e aquele pé gigantesco? E aqueles números malditos? E aquele moço que usa lápis no olho e não envelhece? E o Rodrigo Santoro? Esquece. A vida vai morrer na praia.

O que entendi é que é melhor desistir de entender. O roteirista da vida é preguiçosíssimo. Personagens queridos somem do nada. Personagens chatíssimos duram pra sempre. Tem episódios inteiros de pura encheção de linguiça e, de repente, tudo o que deveria ter acontecido numa temporada inteira acontece num dia só. As coincidências não são críveis -e numerosas demais. A vida é inverossímil.

Aí você me pergunta: vale a pena ver um seriado tão longo que pode ser interrompido a qualquer momento sem que te expliquem porra nenhuma?

Talvez valha, como “Seinfeld”, pelas tardes com os amigos tomando café e falando merda. Ou, como “Girls”, pelas cenas de sexo. E pela nudez. Talvez valha, como “Chaves”, pra rir das mesmas piadas e chorar quando você menos espera. E vale pelos churros. E pelos sanduíches de presunto.

E vale, de qualquer maneira, porque a vida, chata, óbvia ou repetitiva, é só o que está passando.

Gregorio Duvivier
Folha de S.Paulo
21/07/2014
(Source)
OS COXINHAS DA FOLHA DE S.PAULO E O FIM DA INTERNET (PARTITA #54 ANDANTE PIÙ ALLEGRO)

“Enfim, desculpem a exaltação. A matéria na Folha continuava, com tiradas ótimas como “Bill, 15, trocou o Facebook pelo saxofone”, o que é um absurdo, pois dá a entender, que uma criança só consegue tirar da internet os malefícios de um Facebook e que ,diante de um computador, ela nunca se interessaria por um saxofone, o que teria vários lados positivos até, imagine agora aquele seu vizinho pentelho cismando com as aulas de saxofone?”

o texto na íntegra você lê AQUI.

Mais decepcionante do que o velho discurso de que “a TV brasileira não tem nada que presta” (ZzZz…) é ver os próprios críticos fechando os olhos para algo que é realmente novo. Agora, fala-se que a novela das nove é ruim pois (vejam só!) quer “dar aulinha de ética para o público”. Depois de reproduzir um discurso racista, homofóbico (e insira qualquer outro preconceito nojento aqui) durante décadas, finalmente uma emissora tão tradicional (no sentido mais pejorativo da palavra) como a Globo vem abrindo portas para falar de temas de extrema relevância e muitos especialistas em TV estão pouco se lixando para isso. A Globo fez isso tardiamente? Isso é claro. Agora o faz de forma inocente, como se finalmente tivesse criado consciência da amplitude cultural e social do seu público? Óbvio que não. Mas a cena mostrada hoje que retrata uma senhora esbravejando absurdos como “a Ditadura só foi ruim para quem foi subversivo” ou “essas velhas sem vergonha são uma afronta à família brasileira”, sobre o núcleo do casal formado pela Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg , não me pareceu “liçãozinha de moral” nenhuma, muito menos falso. É, aliás, bem parecido com o absurdo homofóbico que eu li em diversos comentários por essas redes sociais. A importância de se retratar tudo isso, por si só, já é algo a ser louvado, por mais que a novela possa não ser lá isso tudo. Tem gente esperando pela “nova Avenida Brasil” a cada nova novela e com isso, acaba por desmerecer uma produção promissora. “Babilônia” vem de uma sequência realmente fraca de novelas nessa faixa de horário, e ainda não vi nenhum enorme furo de roteiro que me fizesse pensar que seja uma novela ruim. Como disse, sua intenção e sua mensagem são importantes, principalmente em um país atualmente tão retrógrado que chega a fazer “boicote contra essa baixaria toda que tá por aí”- o que,obviamente, estremece a audiência. O pior de tudo isso é ver que os críticos de TV e entretenimento (os vulgos “especialistas” - botando aí muitas aspas) estão comprando esse discurso. Acho que a mudança principal precisa vir da cabeça desses ~grandes jornalistas de grandes mídias~ que fazem críticas há anos e parecem não estar conseguindo acompanhar as mudanças de produção, audiovisuais e de roteiro que a TV vem mostrando - mudanças para melhor, inclusive. De jornalismo preguiçoso, o Brasil já está saturado. E de gente ultrapassada, também.

Serhumanidade

Toda semana um colunista da “Veja” escreve sobre mim. O truque é baixo: colocam Porta dos Fundos no título para atrair cliques, põem meu texto na íntegra para quem quiser lê-lo sem que nem eu nem a Folha ganhemos nada com isso e
enchem de menções à “ameaça comunista que o Brasil está sofrendo desde que se tornou uma Venezuela graças à ocupação petralha”. Clique, clique, clique.
Pra começar, caviar não me representa –nunca vi, nem comi, eu só ouço falar. Esquerda caviar é uma ova –literalmente. Entendo a metáfora, mas acho que não se aplica a essa nova esquerda hipster que vocês tanto odeiam. Melhor seria Esquerda Maionese Trufada. Esquerda Cerveja Artesanal. Esquerda Bicicleta de
Bambu. Aí sim: esse cara sou eu. Ou, para ser sincero, nem aí.
Às 6h da manhã, precisamente, tendo à extrema direita. Não me interessam os problemas do mundo, já tenho problemas demais –só me interessa conseguir um café quente. Às 9h da manhã, leio o jornal e descambo para o maoismo: só mesmo a luta armada pode mudar tudo. Até que fumo um baseado e recaio para a direita libertária. “Cada um é cada um e o Estado não tem nada a ver com isso.”
No primeiro gole de cachaça, abraço moradores de rua e pergunto: “Cadê esse Estado que não te dá casa comida e roupa lavada?”. Só usei cocaína uma vez e, depois, nunca mais: quando vi, estava fazendo discursos a favor da família e da propriedade. O lança-perfume, ao contrário, me proporcionou 15 segundos do mais puro socialismo utópico, ao contrário do ecstasy, que me presenteou com 15 horas de anarquismo egoísta.
O anarquismo coletivista só conheci através do ácido lisérgico, num carnaval da praça 15, enquanto o ayahuasca me apresentou para o anarcoprimitivismo –aquela vontade de morar no mato. Como vocês podem ver, não mereço que vocês percam seu tempo criticando a minha posição política: ela muda de acordo com o psicotrópico.
No entanto, independentemente da droga ou da ideologia consumida (e da certeza de que toda ideologia é uma droga), me espanta quando classificam de esquerdistas pautas tão universais quanto a equidade de gêneros e raças, o direito da mulher ao aborto, o direito universal à moradia, à saúde ou à educação. Ser contra a garantia desses direitos universais não é posição política, é falta de serhumanidade.

Gregorio Duvivier
Folha de S. Paulo
29/09/2014
(source)
Uma arroba de abraços

Vanessa BarbaraFolha de S.Paulo – Ilustrada. Abril de 2012

Uma das coisas boas da vida é saber que há inúmeros universos funcionando de forma paralela e independente de nós, com suas regras próprias, linguagem, lendas, vilões e heróis. Isso vale para áreas complexas como a astroquímica no Brasil e também para temas prosaicos, como o setor dos parafusos, da escultura em legumes, dos tocadores de pífano, dos fãs de “Star Trek”, dos praticantes de vôlei e entusiastas do latim.

Sempre quis falar, por exemplo, das dançarinas bamboleando atrás do Faustão – quem são elas, quais são suas motivações e angústias? Quem é a mais invejada? Quem revolucionou a área?

Dito isso, foi com prazer que me vi perdidamente envolvida no mundo da criação do gado nelore, iniciando-me num Leilão de Muares que passou ao vivo no Canal Rural.

Foram quase 4 horas de portentosos bovinos desfilando na tela enquanto compradores davam seus lances por telefone e um especialista pecuário descrevia os atrativos de cada lote. Fiquei tão fascinada que foi preciso tirar o telefone de perto, ou agora mesmo teria um novilho pastando no meu quintal.

Em pouco tempo, entendi o básico: a venda era de prenhezes, em que se exibia a vaca grávida e sua previsão de parto. Forneciam-se os detalhes da gestante, sua genealogia e se gerou descendentes célebres.

Scarlat I, por exemplo, era uma vaca de grande consistência em sua progênie. “Ô, vaca maravilhosa!”, exclamou o leiloeiro, dizendo ser “pigmentada, feminina e com a caixa de crânio linda”. Ela chacoalha o papo, como se concordasse. “Tudo o que ela pare, ela pare muito bem.”

Identificava-se também o touro – não raro, o desgovernado Bitelo SS, campeão absoluto de paternidade.

“São prenhezes destacadas e de grandes matrizes, oriundas de um legado sagrado da raça nelore do Brasil”, exclamou o leiloeiro Aníbal Ferreira, emocionado. Na abertura dos trabalhos, lamentou a ausência do criador Ronaldo Alves, um homem, um mito, que muito cedo aprendeu “a discernir o certo e errado na criação do zebu”. Ele estava ausente porque esperava a chegada de um neto – humano, e não bovino.

Fui cativada pela prenhez da Sérvia 9, uma pechincha – 24 parcelas de 500 reais –, rês de qualidade que estava sendo visivelmente subestimada, apesar de ser “maravilhosa por dentro e por fora”.

Já Backiana era uma vaca com ótima habilidade maternal, muito comprida e mimosa. Não comprei, mas foi quase.

Essa semana a Folha de São Paulo anunciou que a partir dessa semana também vão adotar o sistema de “Pay Wall”, como você pode ver aqui.

Muitas opiniões estão divididas. Salários precisam ser pagos, mas informação também é democracia… é complicado mesmo.

Mas enfim. Procurando por algumas imagens sobre o assunto encontrei essa charge que acabou fazendo muito sentido. Foi mais ou menos o que eu pensei quando vi a notícia :)

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