finjindo

é que eu me coloco nas mãos das pessoas
eu me exponho e falo o que não querem ouvir
a cara tá sempre disposta ao tapa,
mas eu também bato
de cara no armário
de cara na porta
de cara no crush
de cara no poste
porque ser raso não me basta
calcular sentimento através do relógio não é muito a minha praia,
eu nado mesmo contra a direção do mar
e já perco as contas de quantas vezes já me afoguei em tentativas,
uma hora eu venço, uma hora eu paro
umas horas eu só me deixo levar.
acontece que esse lance de estar sempre na mão dos outros é uma parada bizarra, porque eu tô sempre dependendo daquele retorno
daquela piscadinha que assegura a minha insegurança
daquela chamada pra uma foda qualquer
daquele poema que a gente recebe indiretamente em formato de beijo
daquela selfie deixando claro o espaço a mais na cama do outro.
e eu vou finjindo que comando tudo quando na verdade eu tô é me fodendo de descontrole,
roendo as unhas
chorando
gritando.
só que eu tô é querendo sair dessa mesmo sabendo que vou entrar na próxima
por que lembra da cara? ela tá sempre disposta pro próximo tapa
lembra do crush? ele tá sempre disposto pra próxima foda
lembra do mar? eu tô sempre imerso
lembra de mim?
você lembra de mim?
você lembra de quem sou?
eu sou o mar que já passou.

(e o crush levou)

lucas.

Alma pesada

Eu fui como deu pra ir
Capenga!
Catando os meus cacos e traços
Vivendo como se fosse feita de papel.

E não há mais nada que me obrigue
Nem razão que me pertença
Eu vou andando controversa
Fingindo a algumas paisagens que sou cega
Finjindo a alguns passantes que não sei

Eu vou levando esse corpo como pesa
E essa alma como pena
E esse nada agarrado a minha saia como se eu fosse mãe de tudo
Como se eu tivesse alguém

— caus-ada