ficou enooooorme

Eu nem sei muito bem por que motivo, mas ter que ir ao mercado sempre me deixa estressada. Tentei ser o mais rápida possível e coloquei algumas coisas básicas pra um café da manhã em um cesto, por fim, fui pra enorme fila que tava as exatas dez e vinte cinco da manhã. Eu tava com um rímel levemente borrado e as pessoas me olhavam com uma cara “hummm teve a festa ontem e no mínimo tu chegou de quatro em casa” e apó mais uma festa cheia de bebidas, cigarros e mais sei eu lá o que pra tentar esquecer coisas que eu já deveria ter esquecido. Foi só mais uma festa que tanto fez, sem sentido, sem contexto, sem valor. A fila para o caixa não se movia muito, mas em cerca de dez minutos eu já tava na parte que chamava para o consumismo. Uma prateleira cheia de doces, grande parte chocolates caros e um deles adivinha só, qual era? Esse mesmo, Bueno, nosso chocolate preferido que por sinal era os olhos da cara. Mais alguns passos e eu estava do lado de um monte de revistas falando da tal Carminha e demais personagens da novela Avenida Brasil e de que maneira eu deveria me importar com o que acontece com essa merda de novela? Nem Globo pega na porra da TV a cabo. Bem… Eu não deveria me importar com você, mas eu me importo. Eu deveria ter feito as compras antes, mas eu tava deixando por fazer tudo na ultima hora. Eu deveria ter deixado de te amar, mas até no mercado lendo o que a Carminha iria ou não fazer eu conseguia - e ainda consigo- lembrar que o meu amor por ti cresce a cada novo nascer de Sol. Eu deveria estar tentando parar de pensar em você, mas não. Eu vou lembrando e relembrando daquele teu perfume que se impregnava nas minhas roupas, daqueles teus maus modos na mesa que me faziam rir, daquele teu sorriso e daquela tua casa bagunçada. Eu fui me afogando em coisas que eu nunca deveria remexer, por que sabe como é né quanto mais mexe mais a merda fede e nesse caso todo aquele amor, todo aquele nós que hoje é um simples nada é a pura e maldita merda. Talvez eu ainda te ame por pura teimosia, por pura mania de querer todas as coisas que são quase inalcançáveis, ou talvez seja um porque sem resposta que me intriga e me deixa curiosamente curiosa. Em meio às lembranças, por alguns instantes, eu fecho os olhos e te relembro. Cada detalhe. Desde a barba mal feita, sorriso torto, até os dedos dos pés esquisitos e aquele ronco baixinho que tu deixava escapar todas as noites em que tu tava podre de cansado. De repente alguém toca no meu ombro, me viro pra ver quem e vejo que deixamos de sermos duas ruas paralelas, que sempre vão para o mesmo sentido, porém nunca se encontram. Fico sem reação.Meu rosto gela, minhas mãos suam frio, minhas pernas balançam. Ôh sorri pelo menos vadia, devia mandar o coração, mas eu fiquei sem reação mesmo, então fingi que o coração não tava querendo arrombar o peito e cair bem nas tuas mãos novamente e dei as costas. “— Ôh, mal-educada. Bom dia.” tu disse com aquela vozinha rouca que sempre me deixa em um estado de nervos e com vontade de te beijar, abraçar, levar pra minha casa, pra minha cama e nunca mais deixar sair de novo. Viro pra ti, digo “— Bom dia” com uma cara amarrada e volto pra mesma posição, olhando fixamente para a operadora de caixa torcendo pra que ela ganhasse poderes ou que ela me passasse na frente das outras três pessoas. Respirei fundo e tentei não mexer muito os ombros, mas como? Tu perceberia de qualquer jeito que eu tava alteradíssima e louca de amor, tesão, saudade e mais o caralho a quatro por ti. Me virei mais uma vez pra ti, observei o sorriso e não falei nada, mas de repente tu salta falando “— Tu não sabe o quanto eu senti a tua falta” era como se eu tivesse tendo um orgasmo, mas ao mesmo tempo eu tivesse levando alguns (vinte) tiros no peito. Doía e me deixava com vontade de pular, sussurrar, gritar, rir, gargalhar ao mesmo tempo. “— ã? sentiu a minha falta? Tu me usou, brincou comigo, fez de gato e sapato e agora vem dizendo que sentiu saudade? Ah, já sei! Sentiu saudade de brincar com a bonequinha que tu manipulava, mentia e a bonequinha sempre acreditava? Mas agora tem um porém, eu cai na real. Já deu. Cansei.” quando percebi o que eu havia falado já era tarde demais, respirei o mais fundo que eu pude sem me preocupar se tu perceberia ou não. Eu não tinha a mínima ideia no que consistiria àquela enxurrada de palavras. Tu me olhou por alguns segundos que pareciam intermináveis e disse roucamente, calmamente, suavemente e mentirosamente… “— Eu te amo”. Como assim? Tu tinha me dito um eu te amo? Eu ouvi direito? É, acho que eu ouvi direito. “— Tarde demais” “— Me da mais uma chance, por favor.” “— para” “— Não tem como, eu te amo esqueceu?” “— tu me ama mesmo? ” “—sim” “— Então tu faria qualquer coisa por mim?” “— É obvio pequena” “— Então, me faz esse favorzinho, some da minha vida caralho”. Eu sai daquele caixa. Daquele mercado. E tu se deu o luxo de permanecer na fila, me olhando partir, não que eu queria que tu corresse atrás de mim, mas… Mas que se foda. Comprei qualquer coisa pra comer no boteco que eu comprava cigarros e agora eu tô aqui deitada, de barriga pra cima. Já escorreguei pela parede até o chão e abracei os joelhos, já chorei, já pensei no que poderia ter resultado se eu tivesse sido mais branda, mais transparente ao que eu realmente quero e sinto e tivesse sido menos durona contigo e comigo mesma, mas agora eu tô só vendo e revendo a cena e tentando colocar na minha cabeça oca que a melhor coisa que eu poderia ter feito foi a que eu fiz, mesmo bem no fundo (ok, nem tão no fundo) o que eu realmente grito, quero, anseio, desejo, aspiro, é que tu mude. Mude, volte, bata na minha porta, me traga o teu coração de menininho cheio de medo de sete anos e ao mesmo tempo corajoso pra se jogar dos mais altos penhascos e me peça pra eu cuidar. E que eu aceite — eu sempre aceitarei, mas vamos desejar isso, vá que um dia eu crie vergonha da cara e amor próprio. E que dure, que não me machuque, que não te machuque também. Que não seja um suicido cometido a dois. E que seja por alguns dias amargo, pra que evite de enjoar, e por outros doces, pra não machucar. Mas ai já é demais pra um idiota como tu, simplesmente isso tá se tornando um filminho ridículo de romance feito em Hollywood ou eu tô com os olhos fechados sonhando com o idiota mais idiota de todos.
—  Foi melhor assim, embora nunca tenha conseguido aceitar esse fato… Filho da puta, te amo. Vitória Dias.