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Sábado passado fui visitar vovô, faço isso há dois anos desde que o velho ficou doente. Ele não lembra de quase nada e de quase ninguém, mas sempre lembra de mim. Acho que isso quer dizer alguma coisa.
Todo sábado fazemos o mesmo, almoçamos, jogamos xadrez e eu leio um livro pra ele na varanda. Final de semana passado, terminamos “Dom Casmurro”. Vovô gostou bastante, eu também. Vou embora às cinco da tarde, sempre. Não por que quero, mas porque vovô manda. Ele diz que estradas são perigosas depois que o sol vai embora. Acho que ele ficou assim desde a morte da vovó, dez anos atrás num acidente terrível de carro. Vovô se salvara, mas não complemente. Ele dizia que seu coração e tudo de bom que era foi embora junto com a vovó. Eu acreditava nisso.
Três meses depois da morte dela, ele disse que não resistiria durante muito tempo, porque era impossível viver sem ela. Dez anos se passara e ele ainda estava aqui, confesso que as vezes acho que ele não gostaria. Uma vez o questionei, ele contou que vovó sempre foi teimosa e por essa teimosia ele ainda permanecia vivo. Porque a noite, quando ele se deitava e conversava com ela pedindo pra que o levasse, ela dizia que não, pois ele ainda tinha algo pra me ensinar.
No caminho pra casa, pensei no quanto eu poderia aprender com meu velho; muita coisa. Mas a lição mais importante eu já aprendi: o verdadeiro amor não termina aqui.
Antes de dormir, rezei, pedi. “Deixe o vovô ir vovó, eu já sei o bastante.”
—  Obrigado vovó e vovô, por terem me ensinado. Gustavo Carvalho