fatos odair

Katniss seria a primeira a morrer. Encontraram algo em seus rins. "Faça", ordenou um Peeta com já setenta anos à médica. "Por favor." Esta deu de ombros, impotente. "Peeta, você jamais sobreviveria a uma cirurgia desse porte. Não é mais um adolescente. Além disso, tem algo que precisa saber." "Eu não ligo. Não é a minha vida a que está em jogo. Olha, eu deveria ter morrido naquela arena, anos atrás. Mas ela me salvou. Está na hora de eu retribuir. Honestamente, de qualquer maneira, não vejo vida alguma sem ela. Ela é o centro de tudo. E acho que prefiro de qualquer maneira morrer a perder os eixos de novo." A médica tinha lágrimas nos olhos. "Receio que isso não será possível, Peeta. O que eu queria te contar... Katniss se matou. Hoje de manhã." O lábio inferior de Peeta tremeu enquanto ele se sentava. "O quê?" "Amoras cadeado. Aparentemente, você não era o único que não podia suportar. Ela só foi mais rápida." Peeta assentiu antes de as lágrimas rolarem. "Ela tinha esse hábito."
Maxon observava as fotografias junto com seu pai e os conselheiros. "Falta muito?", perguntou, bocejando. No começo, estava animado com aquilo; entretanto, 537 garotas depois, parecia-lhe bastante cabível deixar que os outros escolhessem por ele. "Essa aqui é bonita", observou seu pai. "Mas ela não sorri!" "Já olhou pro decote?" Maxon revirou os olhos, quase perdendo a próxima foto. "Espere. Volte." O guarda que segurava o controle do projetou obedeceu imediatamente. "America Singer", leu um dos conselheiros em voz alta. "Nome perigoso, esse." "Gostei do rosto. Expressa uma espécie de felicidade que..." Mas Maxon não estava ouvido. Fora hipnotizado pelo cabelo. E pelos olhos. E pela boca. Jamais gostara de ruivas, mas aquela cor de cabelo o fez sorrir. Como queria ser o fotógrafo que registrara aquele momento! "Maxon?" "É ela", informou, pigarreando. "Você ainda nem sequer viu as outras!", exclamou o pai, contrariado. Mas Maxon voltara a encarar o rosto com o qual sonharia naquela noite.
Peeta amava crianças, antes e depois das teleguiadas o mudarem. Porém, conforme foi conhecendo Katniss, lentamente perdeu as esperanças de construir uma família com ela. Ficar com o amor da sua vida era um preço alto para desistir de um de seu sonho de ser pai, mas Peeta estava certo de sua decisão. Até que, alguns anos após o fim da guerra, estava trabalhando na recém-construída padaria do 12. Katniss havia acabado de voltar de sua caçada matinal. Mal entrou na cozinha e foi para o banheiro vomitar. "O que foi?" "Quero vomitar", respondeu ela. Ele a seguiu, segurando seu cabelo enquanto ela terminava de pôr o almoço para fora. "Obrigada", agradeceu Katniss quando finalmente terminou. Ele sorriu. "Eu cuido de você. É o que eu faço." "Mas e se eu te dissesse que não é só de mim que você vai ter que cuidar?" Peeta ficou confuso. Então, abriu o sorriso mais sincero desde o dia de seu casamento. "É mesmo?" Ele abraçou a mulher e, em seguida, começou a chorar. "Ei!" "Podemos chamar o bebê de Pãozinho?" "NÃO."
Diziam que a menina era a pessoa mais adorável do Distrito 4. Que, quando eram crianças, o garoto dois anos mais velho não conseguia parar de implicar com ela. Que ela jogava conchas sempre que possível nas inúmeras pretendentes do menino. Que faziam castelos de areia juntos. Diziam que ela ficou acordada, dia e noite, vendo os Jogos quando tinha apenas doze anos- ela sempre se recusara a os assistir antes disso. Diziam que ficou na ponta dos pés na estação de trem quando ele finalmente voltou. Que ninguém gritou mais alto seu nome naquele dia. Diziam que foi o primeiro sorriso sincero que ele deu desde que saiu daquela arena. Que passaram a se encontrar na praia, todos os dias, por volta do pôr do sol. Que ela sempre o fazia rir. Diziam que ele brincava com ela, até o momento em que viam o jeito que ele a olhava. Diziam que seu primeiro beijo foi na véspera daquela Colheita. Que ele agrediu dois Pacificadores quando ouviu o nome. Diziam que ele não a largou, até o segundo em que a menina entrou na arena. Que ela sussurrava seu nome enquanto dormia, tremendo de frio. Diziam que ela voltou completamente louca. Que o famoso Finnick Odair, finalmente, a abandonaria, mas ele nunca o fez. Diziam que ele fazia castelos de areia com ela. E, por fim, ela os fez sozinha. Todas as noites, ao pôr do sol. Diziam que ela ainda exclamava o nome do marido, rindo de uma piada que ninguém mais conseguia ouvir.
Na primeira vez em que Peeta andou pela floresta do 12 após o fim da guerra, Katniss estava com ele. Aquilo foi um erro. O garoto rapidamente se lembrou sobre como observara durante anos ela indo para lá com Gale. O veneno das teleguiadas, remanescente em sua corrente sanguínea, fez despertar um instinto assassino que estava há muito adormecido. Foi a garota virar de costas que ele, segurando uma flecha, tentou atacá-la. Katniss gritou, desviando no último segundo. Ele a derrubou no chão. "VOCÊ VINHA AQUI COM ELE!", urrou Peeta. "PRA QUÊ FOI ME TRAZER NESSE LUGAR?" "Peeta, eu não..." Foi então que sentiram o cheiro de fumaça vindo de algumas árvores adiante. "HAYMITCH!", gritou Katniss imediatamente. "HAYMITCH, ME AJUDA!" Em questão de segundos, o ex-mentor apareceu. "Haymitch! O que faz aqui?", perguntou Peeta. "Pondo fogo nuns ninhos de teleguiadas que eu e sua namorada achamos." Peeta virou-se para Katniss, confuso. "Achei que você odiasse fogo. Nem mesmo acende a lareira." "E ela odeia", respondeu Haymitch. "Mas nós dois concordamos que odiaríamos ainda mais te ver sofrendo caso fosse atacado de novo. Agora, vocês podem fazer o favor de me explicar..." Mas Peeta já levantara Katniss no chão e a envolvera num abraço, chorando. "Desculpa. Por favor, desculpa."
Certa vez, em uma de suas viagens ao Mundo Inferior, Nico estava nas margens do Rio Lete. De repente, viu-se dominado por uma enorme tentação de pular. Ele não conseguia aceitar seus próprios sentimentos, de forma que cada pensamento tornava-se uma tortura. "Talvez, se eu pular, eu me esqueça de tudo isso e possa recomeçar. Talvez...", estava pensando, quando viu uma figura à sua frente. Era Afrodite. "Não vai funcionar", ela falou, como se tivesse lido sua mente. "O que você quer esquecer faz parte de quem você é. E décadas se passaram. Você pode, sim, ser aceito." Nico não queria ouvir. "Sabe", prosseguiu a deusa. "Dizem que o Lete se assemelha um pouco com o Estige. Após o mergulho, você é puxado pra fora por alguma pessoa." "O quê? Achei que o Lete ia me fazer esquecer as pessoas!" "E ele vai. Mas, antes, você terá um vislumbre daquele que significa o mundo pra você. Nós dois sabemos de quem se trata. Está mesmo pronto para esquecer seu rosto? É um mundo muito grande. Pode ser que nunca mais o encontre de novo." Nico finalmente suspirou. Já havia perdido Bianca. Não podia perder Percy também.
Finnick estava na água. Annie e o filho esperavam, ansiosos, na areia. "Finnick Odair!", chamou Annie, num tom de voz que faria até mesmo o mais forte dos tributos ter medo. "Saia dessa água agora! Vai pegar um resfriado!" Finalmente, fazendo bico, Finnick concordou em voltar para a superfície. "Você é muito chata!", exclamou, ignorando a toalha que lhe fora oferecida e abraçando Annie. "Ai, Finnick! Você está molhado, droga!" Ele lançou um olhar de cúmplice para o filho. Em questão de segundos, o homem e a criança haviam erguido Annie. Rindo, ela implorava para que eles a soltassem enquanto era jogada no mar. No segundo em que seu rosto bateu na água fria, ela acordou. Seu filho dormia na cama ao lado. Ainda meio sonâmbula, Annie foi avançando pela areia, o mais perto possível do oceano. "Finnick Odair! Saia dessa água agora! Vai pegar um resfriado!", gritou. Sem resposta. "Vem logo!" Ele nunca veio.
"Peeta, como pode querer que eu fique calma sobre isso?" "Foi sua a ideia de mandá-la pra aquele acampamento inter-distritos!" "Bom, pra ela aprender alguma coisa... Não pra voltar namorando! Ela só tem 16 anos!" "A mesma idade que você tinha quando me beijou..." "Sai pra lá! É sério. Foi uma questão de sobrevivência, e agora nossa filha..." Peeta a abraçou enquanto ouviam a campainha. "Meu pãozinho. Fique tranquila. Nós vamos conhecê-lo, e ele vai ser uma pessoa incrível, porque nossa filha também é uma, e pessoas incríveis atraem pessoas incríveis. Certo? Veja só nós." Katniss revirou os olhos. "Ótimo. Vamos acabar logo com isso." Ao abrir a porta, foram sufocados pelo abraço da filha. Atrás dela, bastante tímido, estava um jovem alto, pele morena e olhos penetrantes. "Olá", cumprimentou, e Peeta sorriu amigavelmente para ele, enquanto Katniss- por algum motivo que não entendeu- sentia um arrepio. "Qual seu nome?" "Marcos, senhor. Marcos Hawthorne Mason." "Hawt..." O rosto de Peeta ficou azul enquanto Katniss, finalmente, soltava uma enorme gargalhada.
Katniss acordara num péssimo humor. Fazia um ano desde aquele dia horroroso, no qual o barulho das bombas somado ao vermelho do céu tinham levado sua irmã embora. Só queria voltar a dormir, mas Peeta parecia ter outros planos para ela. Preparou o melhor café da manhã de todos os tempos e, depois, levou Katniss de olhos vendados até o lado direito da floresta, o qual ela nunca tinha se dado ao trabalho de explorar; só havia uns poucos arbustos ali. "Peeta, mas o quê..." "Pronto, sua chata! Pode abrir os olhos." Katniss mal acreditou no que viu. Flores, de todos os tipos. Rosas, roxas, vermelhas, brancas; "Peeta, mas o quê você fez?" "Eu? Nada. Só achei o lugar. Acho que o fogo não conseguiu chegar aqui durante o incêndio. Legal, né?" "Mas... Quem..." "Gastaria seu tempo procurando sementes pra criar um jardim num lugar como esse? Nossa, não tenho ideia. E o curioso é que já faz mais de um ano, mas ele continua aí." Katniss sentiu uma lágrima escorrendo. "Não é porque ela foi embora que o que ela fez deixou de existir. Ok? É nisso que temos que nos concentrar. Tomar conta do que ela nos deixou. Agora, vamos pra casa. Temos que cuidar da pior herança de sua irmã: Buttercup! Como eu amo aquele gato." Katniss ficou alguns segundos observando enquanto Peeta se afastava. Estava atônita com o pensamento cada vez mais real que tomava conta dela. Uma ideia, na verdade. Estava se apaixonando por Peeta Mellark.
"Oi", cumprimentou America, passando um chocolate quente para Maxon. "O que está fazendo?" Ele agradeceu com um beijo em sua testa, apontando para os mapas ao seu redor. "Trabalhando. Veja. Esses eram os antigos continentes." Ela aproximou-se, franzindo a testa. "Espera, não faz sentido. Por que esse pedaço de terra está... Hum... Não consigo achar uma palavra." Maxon riu. "Destacado. É apenas o meu preferido. Nada importante. Ei!" Ignorando-o, ela debruçou-se para observar melhor. "America", leu. "Você me destacou. No mapa." "Sim." "Por quê?" "Bem... No meio de outros continentes, e países, e oceanos... Se a pessoa América se destaca tanto... Por que não fazer o mesmo com o continente?"
Haymitch sempre dissera que a bebida foi o único modo que encontrou de conviver com todo o sofrimento que havia enfrentado. "Quando tudo o que você sente te faz mal", falou certa vez a uma amiga. "O único jeito é fugir disso. Mas como, eu lhe pergunto, se a tristeza está dentro de você? Não pode apagar sua própria memória, mas pode escapar da realidade. Mesmo que por uns instantes." Effie lançou-lhe um olhar ríspido enquanto lhe entregava um copo de água. "E agora me obrigar a cuidar de sua ressaca. Grande ideia." "Se algum dia você estiver num nível de sofrimento no qual a única alternativa seja beber, prometo que no dia seguinte também cuido de você." Ela jurou a si mesma que o dia nunca chegaria, mas veio. Com um copo de uísque na mão, Effie fez um brinde a um caixão no qual lia-se: Haymitch Abernathy. Ninguém lhe ajudou com sua ressaca.
No casamento de Finnick e Annie, Haymitch conseguiu, pela primeira vez em meses, alguns minutos de folga. Não que isso significasse qualquer tipo de felicidade. Estava apoiado numa mesa, sozinho e carrancudo. Não era o único. "O que está fazendo aqui parado?" Gale suspirou. "Não estou muito num clima pra festas. Quer dizer, um bolo. É assim que ele pretende reconquistá-la?" Haymitch deu uma risadinha. "Não gosto que fale mal do Peeta, garoto. Ele já salvou minha vida mais de uma vez. E a de Katniss também. Vocês dois são idiotas por gostarem dela. Mas você é o mais idiota, assim como eu. Teve anos e anos e deixou pra fazer algo apenas quando a perdeu", ele tomou um gole de sua bebida antes de acrescentar, amargurado: "Que saudade da Effie Trinket."
630- Katniss sempre acreditou que seu nome não saíra naquele papel porque a sorte estava a seu favor. Nos seus dias mais amargurados após a guerra, comentava com Peeta como o mundo era injusto. “Você. Prim. Os dois com menor número de papeis. Sorteados. E eu e Gale, um com mais chance do que o outro, impunes. Na teoria.” Numa vez em especial, ele riu. “Eu não sei quanto ao Gale e a sua irmã. Mas não é bem que a sorte estava a seu favor. Na verdade, agora eu consigo me lembrar bem…” ele franziu a testa. “Outra pessoa estava em seu favor.” Ela lhe pediu para que explicasse. Peeta apenas deu um sorrisinho. Após ela ameaçar colocá-lo para fora de casa com um arco-e-flecha, ele finalmente falou. “Abaixa a arma! Eu me rendo! Bom, digamos que você não era a única que infringia a lei. Eu… Meio que fazia uma coisa ilegal todos os anos. Eu ia lá e punha meu nome, Katniss. O suficiente para sustentar sua família. Você só estava cinco vezes no sorteio. Darius me ajudava. Ele tirava a maioria dos papéis com o escrito “Katniss Everdeen” das garotas e compensava com outros… Com meu nome na dos garotos. Era como se eu pegasse as tésseras. Em troca, eu o dava pão fresco todas as manhãs da padaria. Acho que foi por isso que meu nome saiu. Não que eu te culpe.” Katniss estava boquiaberta. “Por que você fez isso? Por que nunca me disse?” Ele pôs o cabelo dela para trás da orelha enquanto dizia, num tom que indicava que estava falando com uma criança de cinco anos. “Pelo mesmo motivo pelo qual eu te protegi dos Carreiristas. Pelo qual eu me ofereci para ir no lugar de Haymitch no Terceiro Massacre. Pelo qual eu avisei que o 13 ia explodir, sem me importar com as consequências. Eu te amo, Katniss Everdeen. E isso não é o tipo de coisa que a sorte pode mudar.”