fada dos dentes

Eu estava na calçada. Vestido de bolinhas, bonecas para todos os lados, um fogãozinho rosa com detalhes floridos em minhas pequenas mãos. Eu tinha cinco anos.
A inocência de quem espera acordada a fada do dente, a felicidade de uma princesa quando seu felizes para sempre acontece, a esperança que tem a borralheira, que espera a fada madrinha transformar a abóbora em carruagem. Mal sabia eu, que naquele primeiro dia de primavera, iniciaria um inverno fora de época, congelando meu coração e transformando minha pele em finos grossos cristais de gelo.
O lobo mau estava a minha espreita, pronto para soprar e soprar até minha casa derrubar. Me lembro de estar na casinha de palha de meus pensamentos na primeira vez. Ele aproximou-se de mansinho, vestido de ovelha, idêntico a mim.
- Sente-se em meu colo. - ele disse - Sinta como meu pelo é macio. - Sua mão áspera e grosseira tomou minha delicada mão infantil e deslizou-a por seu couro, até chegar em uma parte desconhecida. Estava rígido e latente. Olhei para o lobo e distraído pela excitação que causava sentir minhas ingênuas mãos em seu pelo, ele sorriu. Pude então ver as presas brilhantes e afiadas me refletindo. Era como se o diabo estivesse me mostrando as portas do inferno naquele sorriso. O badalo da meia noite viria mais cedo. Eu seria devorada ali mesmo. Mas a sorte soprou e congelou os ponteiros do relógio. Aquela não era hora do meu abate.
Outros dias vieram. Meu comportamento não era dos melhores mais. A menina que sonhava com animais falantes, princesas e fadas, agora sentia em suas mãos a rigidez daquele membro desconhecido e se perguntava o que era aquilo. Mal ela sabia que logo descobriria.
Eu ainda ovelhinha, ainda inocente, na casa de concreto havia me esquecido que o lobo morava comigo. A porta de madeira não  iria impedir sua entrada. Lá ele era bem vindo.
Eu estava sentadinha na escada, a casa estava vazia, eu pensava. Calcinha de babados e uma boneca de pano nos braços. Suas mãos grossas seguravam em meus ombros com força. O lobo despojado de sua pele de cordeiro estava raivoso, fedia a álcool e tinha presas prontas para me devorar. Me arrastou pelos braços até seu quarto, me jogou em sua cama e uivou ao ver o pequeno corpinho estirado a sua frente. Para ele seria uma refeição e tanto. A calcinha de babados foi rasgada a violência e maestria de seu bote. Conheci então a utilidade do membro. Suas mãos violaram a Terra do Nunca, transformaram Cinderela em açoite. Eu senti doer, senti sangrar, chorei, gritei, mas a fada madrinha não apareceu para me salvar. 
Quando o lobo ouviu a porta da sala se abrir transformou-se novamente em homem. Para minha surpresa, eu conhecia seu rosto.
- Papai, me vista! - pedi em meio aos meus soluços.
—  The Last Coffee
Sabe quando você era uma garotinha e acreditava em contos de fadas? Você se deitava na cama à noite, fechava os olhos e acreditava piamente em tudo. No Papai Noel, na Fada dos Dentes, no Príncipe Encantado. Mas aí você cresce e um dia você abre os olhos e o conto de fadas desaparece. É difícil se desprender totalmente de um conto de fadas porque quase todo mundo tem um tiquinho de fé e esperança que um dia eles vão abrir os olhos e tudo aquilo vai se tornar realidade.
—  Grey’s Anatomy
Eles irão te contar historias bobas sobre heróis do passado. Vão falar sobre fadas madrinhas e bruxas. Te dizer que existem princesas, príncipes e castelos. Mas eles não vão te contar sobre fome, dor e saudade. Não vão te ensinar como ser forte nem como superar algo. Não vão te contar sobre os suicídios nem os assassinatos. Você vai crescer e ver que o Papai Noel na verdade era seu pai, a Fada do Dente era sua mãe e que tudo aquilo não era real. Eles simplesmente encheram sua cabeça de esperanças pra depois deixar o mundo leva-las uma de cada vez.
—  Beatriz Pontes.
Quando eu era criança nunca acreditei na fada do dente, nem em coelho da páscoa… Mal me lembro se acreditei mesmo no papai noel. Isso por muito tempo me fez pensar se eu era anormal, estranha. Mas não foi intencional, minha mãe até fazia aquilo de por a moeda debaixo do travesseiro, os ovos de chocolate sempre apareciam magicamente, assim como os presentes no Natal. O problema é que eu não acreditava no impossível. Não acreditava nos contos de fadas também. Príncipes em cima de cavalos brancos, felizes para sempre? Não. Nem pensar. Mas o que eu, uma jovem desacreditava nessas coisas pude então acreditar na coisa mais próxima que temos da magia, que é o amor? Ora. Foi graças a um simples garoto de alma bela. Ele me fez ter certeza absoluta que quando estamos nos apaixonando, tudo a nossa volta parece mais bonito, até a dor fica mais bonita. Quando você ama, você se torna capaz de sentir tudo que havia esquecido que podia sentir. Eu ainda não acredito em príncipes em seus cavalos. Não acredito em felizes para sempre. Mas bem que a gente poderia ser felizes para sempre, o que acha?
—  Diferentes, lembra?
Sabe quando a gente era criança e acreditava em contos de fadas? Naquela fantasia de como seria a vida, vestido branco, príncipe encantado que levaria a gente para um castelo nas montanhas, deitava na cama à noite, fechava os olhos e tinha a mais completa fé. Papai Noel, fada dos dentes, príncipe encantado… pareciam tão reais que a gente quase tocava eles. Mas com o tempo a gente cresce, e um dia a gente abre os olhos, e o conto de fadas já era. A maioria se apóia em coisas e pessoas nas quais pode confiar. Mas o fato é que, é difícil se livrar do conto de fadas completamente, porque quase todos ainda têm aquela esperançazinha, aquela fé, de que algum dia vai abrir os olhos e tudo vai virar realidade. No fim das contas, a fé é uma coisa engraçada. Ela aparece onde a gente menos espera. É como se um dia a gente percebesse que o conto de fadas pode ser um pouco diferente de como era nos sonhos. O castelo, bom, pode não ser um castelo. E não é tão importante ser feliz pra sempre, desde que a gente seja feliz agora. E assim de vez em quando, a cada ano bissexto, as pessoas surpreendem a gente. E muito de vez em quando, as pessoas deixam a gente sem fôlego.
—  Greys Anatomy.