exilados

Da linda pátria estou mui longe
Triste eu estou
Eu tenho de Jesus saudade
Quando será que vou
Passarinhos, belas flores
Fazem-me almejar
As maravilhas e esplendores
Do meu celeste lar

 Cristo me deu fiel promessa
Vem me buscar
Meu coração está com pressa
Eu quero já voar
Meus pecados eram muitos
E culpado sou
Mas o seu sangue põe-me limpo
E para a pátria vou

Qual filho do seu lar saudoso
Eu quero ir
Qual passarinho para o ninho
Eu quero ao céu subir
É fiel, a vinda é certa
Quando não o sei
Mas ele me achará alerta
Com Ele ao céu irei
Com Ele ao céu irei

—  O Exilado, Hino 36, Harpa Cristã.
Ficarei o Inferno de ser Eu, a Limitação Absoluta, Expulsão-Ser do Universo longínquo! Ficarei nem Deus, nem homem, nem mundo, mero vácuo-pessoa, infinito de Nada consciente, pavor sem nome, exilado do próprio mistério, da própria Vida. Habitarei eternamente o deserto morto de mim, erro abstrato da criação que me deixou atrás. Arderá em mim eternamente, inutilmente, a ânsia (estéril) do regresso a ser.
Não poderei sentir porque não terei matéria com que sinta, não poderei respirar alegria, ou ódio, ou horror, porque não tenho nem a faculdade com que o sinta, consciência abstrata no inferno do não conter nada, não-Conteúdo Absoluto, [Sufocação] absoluta e eterna! Oco de Deus, sem universo, (…).
—  O Inferno de Ser Eu por Fernando Pessoa, ‘Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação (1915)’
Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!…
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã — como nos desalegra!…
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra…
—  Fernando Pessoa
Mas se voltardes para mim, e obedecerdes aos meus mandamentos e os praticardes com amor, ainda que os vossos exilados estejam dispersos pelos lugares mais longínquos debaixo do céu, de lá os reunirei e os congregarei no lugar que escolhi para fazer habitar o meu Nome.” Ora, estes, precisamente, são os teus servos e o teu povo amado, que resgataste com o teu grande poder e com teu braço forte.
—  Neemias 1: 9 -10.
As coisas são donas dos donos das coisas e eu não encontro minha cara no espelho. Falo o que não digo. Estou, mas não sou. E entro num trem que me leva aonde não vou, num país exilado de mim.
—  Eduardo Galeano.
O homem recusa o mundo tal como ele é, sem aceitar o eximir-se a esse mesmo mundo. Efectivamente os homens gostam do mundo e, na sua imensa maioria, não querem abandoná-lo. Longe de quererem esquecê-lo, sofrem, sempre, pelo contrário, por não poderem possuí-lo suficientemente, estranhos cidadãos do mundo que são, exilados na sua própria pátria. Excepto nos momentos fulgurantes da plenitude, toda a realidade é para eles imperfeita. Os seus actos escapam-lhes noutros actos; voltam a julgá-los assumindo feições inesperadas; fogem, como a água de Tântalo, para um estuário ainda desconhecido. Conhecer o estuário, dominar o curso do rio, possuir enfim a vida como destino, eis a sua verdadeira nostalgia, no ponto mais fechado da sua pátria. Mas essa visão que, ao menos no conhecimento, finalmente os reconciliaria consigo próprios, não pode surgir; se tal acontecer, será nesse momento fugitivo que é a morte; tudo nela termina. Para se ser uma vez no mundo, é preciso deixar de ser para sempre. Neste ponto nasce essa desgraçada inveja que tantos homens sentem da vida dos outros. Apercebendo-se exteriormente dessas existências, emprestam-lhes uma coerência e uma unidade que elas não podem ter, na verdade, mas que ao observador parecem evidentes. Este não vê mais que a linha mais elevada dessas vidas, sem adquirir consciência do pormenor que as vai minando. Então fazemos arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.
—  Albert Camus, A busca da felicidade ou do sofrimento.
Há momentos em que somos encurralados por circunstâncias medonhas. Nessas horas, não sabemos o que fazer. Porém, quando nos voltamos para Deus, em oração, ele abre para nós uma porta a partir das alturas. Quando o apóstolo João foi exilado na Ilha de Patmos e todas as portas da terra se fecharam para ele, Deus lhe abriu uma porta no céu e descortinou-lhe o futuro, mostrando-lhe que tudo estava sob controle e que os destinos da história estavam em suas onipotentes mãos!
—  Hernandes Dias Lopes