eu mudei o texto no meio

  • <p> <b></b> - Por que você é assim?<p/><b>Ela:</b> - Eu já fui uma pessoa legal, uma das melhores amigas de muitos, uma das melhores em tudo, expressava meus sentimentos, tratava as pessoas bem. Mas aí chega um momento em que tudo começa dar meio errado, as pessoas mudam, te largam, te esquecem, o mundo muda, tudo vai acabando aos poucos, ai você se cansa disso tudo e resolve entrar no embalo e também muda. Mas eu mudei para pior, eu sei, mas quando me tratam realmente como devo ser tratada as vezes volto a ser a menina que eu era antigamente, o problema é que o mundo mudou para pior, e não da para evitar de acompanha-lo.<p/></p>
A verdade é que eu não sabia (quase) nada sobre você. E, passado mais de um mês depois, eu me pergunto: como??!
Me parece impossível entender como - de uma hora pra outra - a gente passa do não saber absolutamente (quase) nada pra saber quase tudo. Como que um mês e meio atrás eu negava a existência do que hoje me é tão óbvio e imprescindível?
Bem, eu planejo me casar com você. E isso por si só já diz o quanto eu mudei e o quanto você é importante pra mim.
—  sawe-you
Capitulo 95

– Isso foi sugestão de um produtor daqui, achava que meu nome era muito “aflorado”: Angelique Campos… Era isso ou Miss Garden, então achei mais divertido o Miss Flower até mesmo pela tradução que você citou. E as anfíbias, sim, acabaram. Há uns três anos, eu entrei em uma espécie de “reality show” musical latino, isso abriu algumas possibilidades para mim. O grupo não resistiu a isso.

– Você ganhou um reality show?!

– Não, quem me dera! Mas, me deu alguma visibilidade, ganhei uma bolsa para estudar em um conservatório em Los Angeles, e junto com isso, algumas propostas de trabalho, alguns “back in vocal” em discos de algumas estrelas como: a Mariah, Pink, ah! Do John Legend e Leny Kravitz também. Então pedi uma licença do hospital e me joguei nessa aventura, era a última chance que eu daria para a música.

– Uau!

– Porra, foi um grande aprendizado. Mas, não era esse meu plano de viver da música, então, aceitei a proposta desse produtor de fazer shows aqui pelo Queens, conheci uma galera legal, montamos essa banda, e estamos a quase um ano nessa estrada.

– Nunca imaginaria você numa aventura dessa doutora! Você é louca!

– Você simplesmente me envia uma mensagem de texto avisando que estava se mudando para Nova Iorque e some por mais de cinco anos! Que tipo de louca faz isso?

– Eu ia lá me despedir de você, explicar tudo, mas, você não estava em São Paulo, o que eu podia fazer?

– Pow Vanessa, tantos meios de comunicação, redes sociais e você some? Juro que pensei de cara em você quando me mudei para cá, mas… Quando conferi sua ascensão na carreira, imaginei que você nem lembraria mais de mim.


– Acho que eu tive medo de retomar qualquer relação com aquilo que queria me esquecer. Mas o importante é que nos reencontramos!

A rápida mudança de assunto depois do desabafo que Vanessa deixou escapar mostrou para Angelique que a chaga que as aproximou ainda estava aberta, ou a menos aquela cicatriz ainda incomodava muito.

– Conseguiu se esquecer?

Vanessa desviou o olhar, sorveu mais uma dose da bebida e foi irreverente:

– Tinha me esquecido do seu talento e hábito de se intrometer, e agora você não é mais paga pra isso não é?

Entendo o que estava subentendido na saída pela tangente de Vanessa, Angelique desconversou, depois de quase meia hora se deu conta da tromba que sua acompanhante colocara, especialmente porque aquela altura estava sozinha na mesa com elas, os demais circulavam pelo clube cumprimentando os conhecidos.

– Vocês costumam fazer isso? Excluir uma pessoa assim de uma conversa? Precisam mesmo conversar em português?

Daniela não escondeu sua chateação. Notando a tamanha garfe que cometeram, Vanessa tentou se desculpar, enquanto Angelique se sentava ao lado do seu affaire, arriscando um afago na sua mão.

– Desculpe-me minha querida…

Angelique beijou suavemente os lábios de Daniela, arrancando um sorriso da colunista. Vanessa inexplicavelmente tímida e incomodada com a cena usou da sua irreverência mais uma vez para quebrar o clima entre as amigas:

– Pronto Dani, seu draminha já teve o reconhecimento, agora desfaça essa tromba e vamos beber!

Daniela arremessou outra azeitona em Vanessa, mas dessa vez acertou em cheio a testa da fotógrafa.

– Auuu.

Vanessa esfregou a testa.

– Ok, quem falou em beber?

Aos poucos, um a um da turma deixou o bar, restando apenas Vanessa e o casal: Daniela e Angelique. No entanto, as tentativas da colunista intensificar as carícias e precipitar a ida delas para seu apartamento foram inúteis, uma vez que Angelique a freou de todas as formas, animada com o reencontro com a amiga. A bebida mostrou seu efeito quando Angelique e Vanessa se levantaram, uma caiu por cima da outra, despertando as gargalhadas de ambas estateladas no chão, cena que irritou profundamente Daniela.

– Patéticas!

– Acho que estamos mais pra bebéticas! – Vanessa disse com a fala enrolada.

– Esses anos aqui acabaram com seu humor inteligente Vanessa! – Angelique se esforçou para dizer.


As duas gargalharam, enquanto Daniela recolheu seu casaco e se afastou em direção a saída do clube.

– Ei! Aonde você vai sem nós? – Vanessa berrou.

– Vou para minha casa, coisa que devia ter feito a duas horas atrás!

Daniela respondeu sem parar seu trajeto, de costas para as duas bêbadas ainda no chão. Angelique e Vanessa se encararam e mais uma vez gargalharam.

– Fudeu Dona Flor, um de seus maridos acabou de te abandonar, e agora? – Vanessa brincou.

– Agora me restou apenas um o que você vai fazer?

O que parecia óbvio para os outros naquela noite, de repente ficou claro para as duas: a atração escondida foi revelada pela exagerada quantidade de álcool em suas veias, e rendidas a tal ímpeto conduziram seus lábios para uma fusão cálida.

*************

O simples fato de ler aquele nome reportou Clara à sua maior dor até então. O ex-senador Acrisio Mesquita era um dos culpados pelo fim do seu namoro com Vanessa, pela condenação a um oco no seu coração sem aquele amor.

O inquérito enviado pela 23ª DP denunciava o ex-senador por praticar em suas terras, no interior de São Paulo as quais abrigava os maiores canaviais do país, trabalho escravo.

A jovem promotora leu com atenção cada item daquele inquérito, não tendo dúvidas em oferecer denúncia contra o ex-senador. Sua leitura foi interrompida bruscamente por uma senhora gorda, nitidamente mal humorada.

– Quem diabos é você? O que faz aqui?!


– Clara Aguilar. Estou trabalhando, e a senhora quem é?

– Ai meu Deus! Perdoe-me doutora! Não esperava a senhora tão cedo. Mas você não passa de uma menina! Não podia imaginar que era a nova promotora substituta!

– Calma senhora. Imagino que seja minha secretária, estou certa?

– Sim, sim. Joana Silva desculpa o mau jeito doutora. Fui nomeada para ser sua secretária com a aposentadoria do Dr. Taveira.

– Vamos esquecer isso. Vou precisar muito de sua ajuda Dona Joana.

– O que eu puder fazer…

– Bem, imagino que a senhora organizava os arquivos do seu antigo chefe, e tem que concordar comigo que esse gabinete está precisando de uma boa dose de organização, impossível trabalhar numa bagunça dessas.

– Como disse, não esperava a senhora tão cedo, e fui designada há uma semana para esse cargo, não tive tempo de arrumar o gabinete antes da sua chegada.

– Ok, tudo bem. Suponho que a senhora conheça tudo por aqui, as rotinas e tudo mais…

– Supõe isso porque me acha velha? Está me chamando de velha porque disse que você é só uma menina?

– Não senhora, supus por que acabou de dizer que foi transferida depois da aposentadoria de um colega…

– Isso só deixa claro que meu antigo chefe estava velho, por isso se aposentou, se eu fosse velha, estaria aposentada também não é?

Atordoada e sem graça pela indignação da senhora por suas deduções, Clara engoliu suas explicações abrindo e fechando a boca sem conseguir emitir uma palavra.

– O que a senhora quer que eu faça primeiro?

– Ah, preciso de mais informações sobre esse inquérito especificamente.

– Qual é o número dele?

A senhora colocou os óculos antes pendurados no pescoço por uma corrente prateada e abriu seu bloquinho de anotações. Clara mostrou-lhe a pasta, e com a mesma expressão mal humorada da chegada, a secretária saiu da sala. Quase uma hora depois, Joana voltou com um calhamaço de papéis, e uma notícia:

– Chegou esse ofício para a senhora, avisando que seu assessor só comparecerá próxima semana, precisaram chamar outro classificado e atrasou a contratação.

– Você já leu o ofício endereçado a mim?


– Não dizia nada sobre ser conteúdo sigiloso, li sim. O Dr. Taveira sempre pedia que eu lesse pra ver se era mesmo importante, se tinha necessidade de incomodá-lo, essa gente adora escrever ofício!

Clara não respondeu se sentia despreparada para enfrentar a senhora rabugenta naquele momento. Com uma motivação pessoal mesclada ao seu entusiasmo pelo cargo que assumia Clara não viu o tempo passar lendo os inquéritos arquivados nos quais Acrisio fora indiciado.

Ao final do dia, indignada com o montante de supostas provas colhido pelas investigações da policia que foram ignoradas pelos juízes que não aceitaram as denúncias, não teve dúvidas: ofereceu denúncia mais uma vez ao juiz contra Acrisio Mesquita.

Esse nome de volta à sua vida em um momento no qual ela conquistara um passo importante na sua carreira pareceu para Clara uma grande armadilha do destino para fazê-la encarar seus fantasmas e suas dores. Aquele inquérito não só se apresentava como um desafio no seu presente foi também a prova que o seu passado estava mais vivo do que nunca em seu interior.