eu christiane f

Colocou seu braço sobre meus ombros. Começara a chover, e eu não sabia se as gotas que brilhavam em meu rosto eram de chuva ou de lágrimas. Outro ônibus parou. Falei: “Estamos fodidos. Você se lembra de quando ainda estávamos no haxixe e nos pequenos comprimidos? Nós nos sentíamos absolutamente livres, não tínhamos necessidade de nada e nem de ninguém. E agora… Agora estamos totalmente possuídos.” Deixamos passar três ou quatro ônibus. Murmurávamos coisas tristes. Chorei, pendurada em seus braços. Ele falou: “Vamos sair dessa. Vamos nos desintoxicar. Nós dois sairemos dessa, vou procurar Valeron. Eu me encarrego, a partir de amanhã cedo, da privação de drogas. Vamos juntos.”
—  Eu, Christiane F. Drogada e Prostituída.
É dureza para mim buscar ajuda externa, pelo fato de eu achar difícil ter confiança nas pessoas. Muitas vezes nem confio em mim mesma, quando se trata de responder às expectativas alheias. Adoraria ser pontual, confiável. Mas me conheço e sei que essas coisas não funcionam comigo. Não funcionam mais, infelizmente.
—  Eu, Christiane F.
A maior parte daqueles que não conhecem o que vivi não conseguem me entender. Como alguém que cresceu mimado e protegido, que sempre pôde contar com os pais, vai entender que eu desconfie mesmo de quem amo? Sei por experiência própria que os que estão mais próximos de mim são os que mais podem me machucar. Como compreender algo assim, como alguém que nunca viveu nada parecido pode interagir com minha angústia?
—  Eu, Christiane F., A Vida Apesar de Tudo
Agora, só me sentia mais ou menos feliz quando me imaginava outra pessoa. Meu sonho preferido era me ver uma adolescente feliz, tão feliz quanto aquela que faz a propaganda da Cola-Cola.
—  Eu, Christiane F.
Quando duas pessoas têm experiências em comum, as coisas entre elas se passam com mais facilidade. A maior parte daqueles que não conhece o que vivi não conseguem me entender. Como alguém que cresceu mimado e protegido, que sempre pôde contar com os pais, vai entender que eu desconfie mesmo de quem amo? Sei por experiência própria que os que estão mais próximos de mim são os que mais podem me machucar. Como compreender algo assim, como alguém que nunca viveu nada parecido vai interagir com minha angústia?
—  Eu, Christiane F.
Para mim, a qualidade de vida é a soma da maneira como me sinto, da influência das pessoas ao redor de mim e da situação da minha família. É o que constitui o indivíduo. Mas não tenho mais nada disso. Tudo se foi.
—  Eu, Christiane F.
Os livros são a minha automedicação. Na imaginação, sou livre, sem limites e sem deveres, posso fazer e deixar que façam o que bem entender, sem decepcionar ninguém. É bom para mim. Acredito que o corpo se sente bem quando a alma está em boa saúde e vice-versa. A leitura me ajuda. Mas essa sensação agradável desaparece assim que a história acaba. E toda a minha vidinha miserável volta a estar presente.
—  Eu, Christiane F.
Não vi o tempo passar. Mal percebia se era inverno ou verão, Natal ou Ano-novo; para mim, todos os dias eram quase iguais. […] Passei algumas semanas totalmente pirada. Não pensava em nada, não percebia mais nada. Estava totalmente fechada em mim mesma, mas não sabia quem eu era. Às vezes não sabia nem mesmo se estava viva.
—  Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída.
Tive então, uma verdadeira vontade de morrer. No fundo não esperava por outra coisa. Não sabia o que estava fazendo no mundo. Antes, eu também não sabia muito bem. Mas um viciado vive para que? Para se destruir e destruir aos outros? Pensei, naquela tarde, que seria melhor que eu tivesse morrido, mesmo que fosse só pelo amor a minha mãe. De qualquer forma, não sabia mais se existia ou não.
—  Eu, Christiane F
“Colocou seu braço sobre meus ombros. Começara a chover, e eu não sabia se as gotas que brilhavam em meu rosto eram de chuva ou de lágrimas. Outro ônibus parou. Falei: “Estamos fodidos. Você se lembra de quando ainda estávamos no haxixe e nos pequenos comprimidos? Nós nos sentíamos absolutamente livres, não tínhamos necessidade de nada e nem de ninguém. E agora… Agora estamos totalmente possuídos.” Deixamos passar três ou quatro ônibus. Murmurávamos coisas tristes. Chorei, pendurada em seus braços. Ele falou: “Vamos sair dessa. Vamos nos desintoxicar. Nós dois sairemos dessa, vou procurar Valeron. Eu me encarrego, a partir de amanhã cedo, da privação de drogas. Vamos juntos.”
—  Eu, Christiane F., treze anos, drogada, prostituída…