estrelas na janela

então é isso: eu moro numa pausa, como quando o metrô para entre uma estação e outra e todo mundo prende a respiração sem notar, com medo de nunca mais sair dali. por enquanto, o metrô têm continuado o caminho em seguida. eu também logo vou voltar a correr em bala.
esse limbo é um silêncio que diz muito. um correr de mãos pra boca, pro estômago, pro peito ou pra testa, como quando a gente tenta embrulhar nas palmas aquilo que dói. não fosse longe, eu te embrulhava nas minhas mãos antes de partir. e te carregava comigo no caminho. mas a gente não decide pra onde o outro vai. só dá pra caminhar com duas pernas de cada vez.
o metrô continua seguindo e não é como no ônibus que a gente grita o motorista e, se der, ele para ali mesmo pra quem perdeu o ponto ou mudou de ideia. o metrô parece mais a vida: meio sem volta, sem controle, sempre tão frio. o maquinista opera sem perguntar pra onde a gente quer ir. saltar e subir são escolhas deliberadas mas fora isso, já tá tudo meio pré definido. a gente só roda catracas e se segura.
eu às vezes cogito voltar umas estações e te buscar, te pausar, te beijar. nunca entendi o motivo de janelas tão grandes quando as paredes do túnel são todas tão escuras. tipo ter uma alma que habita um corpo com olhos intermináveis. a gente sonha muito porque o mundo é uma eterna noite de tão escuro. maiores os olhos, maiores os sonhos. de criança que dorme sem saber que não há acordar da vida. a gente vive acordado e sonhando com isso. bordando estrelas nas janelas do metrô. ligando pontos de sonhos. tentando realizar pedaços de alma na escuridão existencial.
voltaria pra te buscar na estação em que você ficou. mas não dá pra saltar mais. esse trem não passa pelo seu ramal.
chamam de vida que segue. só não te avisam dessa incessante falta no banco gelado glacial.