estúdiofotográfico

euteamo sem separações

eu estou escrevendo porque preciso sentir essa sensação que me irradia quando você não está. eu estou escrevendo porque nesse exato momento as gotículas da chuva tocam sonoramente em meu telhado e eu consigo imaginar em quantos segundos elas caíram no chão e o cheirinho de terra irá exalar por aqui. eu estou escrevendo porque nada mais me aterroriza, porque já não sinto mais medo de que as paredes dessa casa possam se espremer contra mim. escrevo porque viajo em inúmeras cidadelas e planetas no qual eu nunca coloquei o pé, mas que todas chegam a você…
você me deixou com resquícios seus. eu ainda consigo sentir seu cheiro que está há quilômetros de distância de mim. posso escutar sua voz em qualquer música em que ouvir [será que estou ficando louca ou sobre efeito de alucinações que assumo ser maravilhosas?]
eu sempre me deixo levar. eu me deixo levar porque já não me sinto mais como antes. como no começo. eu já sei para onde ir, eu já sei que não estou mais vazia, mas algo ainda falta. falta eu parar de me limitar. falta eu transbordar. falta eu perder o medo e ser mais corajosa. falta… faltar faz falta.
por muito tempo eu quis escrever e agora escrevendo eu percebo o quanto esse texto está se perdendo.
desculpa, eu sei o quanto você prefere que eu seja direta, mas não consigo.
eu só queria dizer que por muito tempo eu menti pra mim na intenção de me enganar, mas a verdade é que euteamo.
eu que nunca soube definir o amor, amote e percebo que enrolações não vão me levar a lugar algum. mas amor, eu já não sei mais ir sem te encher dos meus “euteamos” que não são avulsos. porque na minha teoria, se eu dizer um “euteamo” separado eles me farão ficar mais longe de você, mesmo que eu tenha medo de te dizer isso.
me perdoa pelo pensamento besta e exagerado anjo, mas é que eu não sei sentir sem ser assim: sem te entregar minha alma exagerada.
sentir é reinventar. é transparecer o transbordamento que o seu ser quer fazer.
euteamo transbordando e não me canso de me encher de novo para transbordar outra vez.

e.c

Também o ato de escrever para mim revela às vezes a insegurança, pois o escritor é um ser frágil, inseguro, ansioso, que procura respostas para todos os mistérios da vida. Fala-se muitas vezes da alegria que o ato de escrever dá. Para mim escrever me provoca mal-estar, medo mesmo. [E assim mais ou menos como o dia em que a gente vai fazer uma operação. Na manhã desse dia dá aquele frio escuro lá dentro da gente. Eu fico impressionada quando ouço pessoas que dizem sentir prazer em escrever. Para mim é sofrimento, um sofrimento de que não posso fugir,mas me amedronta. Penso que escrever serve mais para perdurar, para existir fora de nós mesmos,nos outros. Então me lembro de um poema de Edna St. Vicent Millay, onde ela diz “Read me, do not let me die” [Leiam-me, não me deixem morrer].
—  Hilda Hilst em entrevista.
o poeta é um mutilante, um devorador.. Social ou não, hermética ou não, a poesia é válida pela comunicação que encerra, pela coletividade que o poeta traz dentro de si. Descobri-la é encontrar o entendimento, a emoção como uma forma precisa das inquietações comuns. E para tal é preciso sentir, sofrer, refletir. A aspiração do poeta é ter sobre si mesmo todo o peso da humanidade.
—  Hilda Hilst em entrevista de 1961, trecho retirado do livro Fico besta quando me entendem.