essa minha

Vem cá, me descubra, abre essa minha caixa de pandora, minha arca da aliança, vasculhe bastante, com intensidade, investigue meus mundos indefinidos, meus mundos incongruentes, mundos descobertos ou ainda desconhecidos, procure meus gostos e dissabores, meus males e encantos, talvez você goste e encontre coisas que ainda não sei, e quem sabe, decida ficar.
—  Ronaldo Antunes
Eu sinceramente não sei o que me faz acreditar que vamos estar sempre juntos, você já me deu sinal que nem sempre pensa assim, e não posso simplesmente lhe obrigar a acreditar em algo. Eu só quero que saiba que mesmo não conseguindo explicar de onde vem toda essa minha convicção, eu sinto algo que vai muito mais além de todos os nossos problemas. Sinto amor por você, e só isso talvez já seja o suficiente para que eu acredite em nós.
—  Reciteis.
Você deveria ter notado, pelas tantas coisas que te falei sobre mim, que eu era uma pessoa bagunçada. Não apenas com meu quarto, mas com a minha vida. Era óbvio que eu iria te machucar, é a única coisa que eu consigo fazer direito: decepcionar as pessoas. Eu te falei. Nem uma, nem duas vezes, mas você insistiu em ficar. Fez os dias ficarem melhores, mais suportáveis. Fez com que eu realmente acreditasse que fôssemos ficar junto. Mas sempre acaba. Por mais que sua força de vontade fosse enorme, ela era tão grande quanto seu ego. Acabei sendo demais, até pra você. Mas eu gostaria de te contar mais um segredo, sabe? Eu amo você. Mesmo que talvez minhas ações possam muitas horas te dizer o contrário, essa era a minha forma de amar, que você acabou aceitando, até agora pelo menos. Então eu venho te pedir desculpa. Desculpa por ter feito gastar tanto tempo, para chegar a conclusão que eu não sou uma dessas pessoas que valem a pena lutar. E principalmente, desculpa por eu ser tudo para você, menos o que você sempre quis.
—  O Pequeno Bob.
Anota aí: Um dia desses eu morro com essa minha ingenuidade. Tenho uma mania completamente louca de achar que alguém está afim de mim só porque foi gentil. Segundos depois já me pego imaginando todos as situações que estou disposto a vivenciar ao lado da pessoa. E ainda fico pensando num jeito de apresenta-lá para os meus pais e também me preocupo se meus amigos vão achar ela engraçada. Até aquelas legendas românticas pras fotos em casal eu consigo formular. Meu Deus! Me devolve ao remetente, acho que vim com defeito de fábrica.
—  Pedro Pinheiro.
Eu estava bem. Você estava bem. Nós estávamos bem. Todos estavam bem. Mas, sabe aquele ditado “tudo que é bom dura pouco”? Então, ele também se aplica aqui. Seria até engraçado, se não fosse trágico. Mas foi bem assim, uma hora estávamos bem e do nada tudo mudou, veio uma onda de sentimento, uma descarga enorme de pensamentos e algumas sensações estranhas que eu ainda não conseguia entender. Foi aí que eu parei e pensei! Fiquei ali, quieto, não triste, não com raiva, não chateado, apenas ali pensando. Como tudo é frágil e pode mudar tão rápido? Eu me via fugindo de um sentimento, com uma agonia de que algo estava errado, mas, não era sua culpa, essa bagunça era minha, essa bagunça sou eu…
—  Meus dilemas.
02:18

Me falta coragem de sair, mas sempre me vejo saindo daqui com uma mochila nas costas e indo seguir por aí sem rumo, nunca entendi bem essa minha vontade de ser nômade. Mas já se imaginou numa nova vida em um local totalmente desconhecido ou diferente? É algo incrível ou cruel, garanto que eu, você  ou qualquer um mudaria bastante, é uma oportunidade de ver como você realmente é, como você pensa, o que faz sem a interferência de ninguém! Sempre tem algo ou alguém que pensamos duas vezes ou mais antes de fazer qualquer bobagem, mas e agora, como você realmente é sem pensar nos que estão ao seu redor?

Clara sempre foi apaixonada pelas cores, em especial pelo roxo bebê - cor que ocupa 70% do seu armário. Meiga, delicada e sorridente. Dizem que ela é como uma brisa, leve e calma. Isso, claro, sem perder a compostura de chefe. Bom, pelo menos até às 18h, horário que sai do seu escritório. Ninguém desconfia, mas em casa a vida de Clara é um martírio:
- Clara? Ei, estou com fome. Isso lá são horas de chegar? Estou esperando a janta há 10 minutos, isso não se faz.
Ela sempre fica sem reação e acha que deve obedecer. Com a cabeça baixa, mal consegue olhar para o rosto dele, fala com a voz fraca:
- Hoje o trabalho estava exaustante. O Alexandre, meu melhor funcionário, teve que faltar porqu….
- EU NÃO QUERO SABER, CLARA. Oh Clarinha - diz ironicamente - sua vida não me interessa. Minha fome, sim.. - diz Cláudio, seu marido.
Essa situação era normal para Clara, que com o rabo entre as pernas vai fazer a janta.
- Ele é meu homem, devo satisfazê-lo, eu sei. Mas é que ultimamente…
Marcos, seu filho, chega interrompendo seus pensamentos. Ele tem apenas 16 anos, mas é quase um clone do pai.
- Mãe, a janta já vai sair? Eu estou com fome. - fala grosso, ríspido.
- Está cada vez mais igual o pai - pensa Clara, aflita. Mas responde com tranquilidade:
- Amor, vou fazer a janta agora. Que tal ir para o quarto e chamo quando estiver pronta?
Tudo ocorre normal. Ela está sozinha. Aliás, acompanhada de seus pensamentos que, exatamente nesse dia, começaram a atormentá-la de maneira descomunal.
- CLARA! A janta está pronta? Já disse que estou com fome. - chega Cláudio, mal educado como sempre.
- Está sim. Vai lavando as mãos.
- Você me faz rir, Clara. Lavar a mão é para viadinhos. Vou esperar aqui na mesa já que está quase pronto. - responde em tom intimidador.
Clara serve a mesa e vai chamar Marcos:
- Nossa, mãe, eu estou jogando vídeo game, não está vendo? Que saco! O pai está certo de tratar como te trata. Já vou!
Clara não retruca, seu filho está virando outro monstro.
A janta ocorre tudo normal, a não ser os pensamentos de Clara que começam a crescer cada vez mais na sua cabeça de maneira assustadora e ela não sabe o que fazer. Outro dia começa, mesma rotina, Clara acorda, chama Marcos para ir à escola, local que ele dá trabalho corriqueiramente, e Cláudio continua dormindo, provavelmente até o meio dia. Horário em que acorda e come um Hot Pocket, pra variar.
Chegando no trabalho, ela está deslumbrante vestindo uma saia branca e a blusa roxa clarinha, como de costume. Alexandre chega pedindo mil desculpas pela falta:
- Claaara! Me desculpe ontem. Uma virose me pegou de jeito, hoje já estou melhor. Prometo que vou adiantar tudo e isso não voltará a ocorrer. Tá?
Clara, educada, responde:
- Alexandre, não se preocupe. Só deixe o atestado em cima da minha mesa e, caso não se sinta bem hoje, pode ir para casa. As coisas estão calmas aqui.
O dia corre como de costume. Responsável e dedicada, não para pra nada em seu trabalho, a não ser, de hora em hora, que o pensamento volta a crescer em sua cabeça. Ela tenta evitá-lo, mas é inevitável. Chega 18 horas, hora de ir pra casa - o que de um tempo pra cá não vem sendo sua maior alegria.
Chegando em casa, algo está diferente. Ao estacionar o carro Clara já ouve uns gritos vindo de dentro. Ela abre a porta bem devagar e escuta vindo do quarto de Marcos:
- PAI, VOCÊ É UM OTÁRIO, UM VERME. A MÃE É OUTRA. NÃO SEI O QUE FIZ PARA MERECER VOCÊS COMO PAIS. VAI SE F…
Um barulho imenso se propaga pela casa. Clara leva o maior susto e corre em direção ao quarto. Quando pensa em abrir a porta, ouve o filho mais uma vez:
- PAI, VOCÊ ESTÁ LOUCO. MINHA TELEVISÃO, VOCÊ É DOENTE, SÓ PODE.
- APRENDE A NUNCA MAIS PENSAR EM ME MANDAR PARA AQUELE LUGAR, PIVETE. - responde o pai nervoso.
Agora o som foi diferente, deu para distinguir exatamente. Era um murro. Um murro bem dado. Clara corre para o carro e finge que nada aconteceu, os pensamentos em sua cabeça ficam ainda mais forte, não conseguindo mais evitá-los. Sua casa é um inferno, ela já não sabe o que fazer. Ou melhor, agora, está começando a saber.
- E NÃO OUSE SAIR DO SEU QUARTO TÃO CEDO. - grita Cláudio.
Clara decide esperar 10 minutos e entra em casa como se nada tivesse acontecido. Cláudio é grosso, como sempre, mas ela simplesmente não liga. Vai para o quarto, toma um banho e começa a fazer a janta. Leve e calma, essa era sua marca.
O jantar é servido, a mesa está em silêncio e o clima pesado.
- Vamos, fale algo, Clara. Você sempre tenta me agradar. Agrade. - fala Cláudio, em tom irônico e intimidador.
Clara dá um sorriso amarelo, levanta da mesa e limpa seu prato na pia. Marcos, na velocidade de uma metralhadora começa a falar:
- Vocês dois são loucos. Você, mãe, como pode fingir que está tudo bem? Olha para o meu rosto, OLHA SUA VAGABUNDA! Isso é a marca do que seu marido, meu pai, fez - seu olho estava roxo, inchado. E você aí, com essa cara de tranquila como se nada tivesse acontecido. Isso não vai ficar assim, não não. Terá volta. - levanta nervoso, joga a cadeira no chão, e vai para o seu quarto. Bate a porta tão forte que o som ecoa pela casa toda.
Uma troca de olhares intensa entre Clara e Cláudio, até que ela decide ir para o seu quarto e com um tom leve fala:
- Não ouse entrar no quarto hoje. Obrigado. - e dá um sorriso de canto de boca como se estivesse tudo planejado em sua cabeça.
Cláudio não retruca. Talvez ele tenha consciência de que o que fez foi errado.
Chegando no quarto, os pensamentos de Clara gritam, a incomodam, parecem fazer um barulho fora do comum. Ela decide deitar e dormir, ou pelo menos tentar.
Mais um dia começa. Hoje, Clara está de vermelho. Um vermelho forte, gritante. Ela vai ao trabalho decidida, os pensamentos sumiram de sua cabeça. Alexandre, seu funcionário, chega até sua mesa pedindo o dia de folga.
- Você só pode estar louco. Ontem estava tranquilo e você decidiu ficar, hoje preciso de você aqui, a resposta é não.
Alexandre não retruca. Dava-se para perceber de longe algo diferente em Clara - fora a roupa vermelha, coisa que nunca havia acontecido antes.
Chega 18 horas, hora de ir para embora. Chegando na porta de sua casa, percebe que está cheia de viaturas. Ela dá um sorriso de canto de boca, se sente vitoriosa. Estaciona o carro e vai em direção a sua casa.
- Ei, você não pode entrar aí! É a cena de um crime. - fala um policial
- Essa é a minha casa. - responde Clara, com sua tão conhecida tranquilidade.
Entrando encontra Cláudio morto, uma facada no peito. As mãos de Cláudio estão segurando a faca, uma cena assustadora. Ela vira de costas e pergunta ao policial sobre seu filho:
- O senhor viu um adolescente aqui? Cerca de 16 anos, loiro..
- Oi? Adolescente? Chegamos e não havia ninguém aqui.
- Tudo bem. Onde dou meu depoimento? - responde, com a voz aliviada.
—  Pedro Peixoto.
Você está vendo, filha? As tempestades podem chegar, a doença pode te atingir, a dor pode te cercar, mas você está comigo e nenhum mal te sucederá. Para suas lágrimas, há consolo. Para suas noites mal dormidas, há renovo. Para as dores, há cura. Para o tormento, há minha paz e essa tenho lhe dado. Minha amada, eu amo ver como seu coração fica grato ao sentir minha paz em você, eu me alegro ao ver você confiar em mim, eu amo ver que você corre para mim e não para as pessoas, eu me alegro quando você lembra de minhas palavras e acredita nelas ainda que todos digam que não dará certo, eu me alegro ao ver que seus olhos estão em mim e não nas circunstâncias. Filha, você tem me feito sorrir, porque você não tem desistido de mim e nem se afastado de mim só porque as coisas estão difíceis. Você tem dado toda a sua vida a mim e eu me alegro imensamente com isso. Continua, minha flor, continua porque eu sempre vou estar com você e eu honrarei a sua fé, porque eu sou fiel. Continue sem nem ao menos pensar, continue com seus olhos fixos em mim porque eu te usarei muito ainda, continue aceitando a minha boa, perfeita e agradável vontade porque eu tenho muito a fazer por você e em você. Então, por favor, continue a me deixar morar bem ai dentro de você.
—  E disse Deus, Chance com Deus.