esquecida

Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…
 
E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
 
E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…
 
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

Conversão

Não sou sou de carências
Mastigo pedras com os dentes desgastados
Nem de aparências tolas
Não há decência apenas no verniz simulado
Para que me ache doce ou bom moço
Diabo em pele de cordeiro se fosse
Sou ácido como o estômago de Bukowski de ressaca
Tenho cadeira cativa no fundo do poço
Sou afiado como a faca do marchante
O livro de capa gasta da estante
Mas é você que cega o fio que corta a carne
Acalma a úlcera com o colo exposto
Põe um sorriso no meu rosto
E me dá a santidade esquecida no canto
E do tanto que acredita que te amo
Tiro a pele, tiro as dores do mundo
Faz bater um coração velho e vagando
E tremer as pernas como um motor à diesel
O coroinha que ainda não esteve na zona
E mantém puro o sonho do céu
Balança o sino e olha pra moça
Fazendo força pra não pecar
Veste em mim um terno branco de linho fino
Faz-me a barba com cuidado
Faz-me santo e menino.

- Transtorno Poético, J. Victor Fernandes.

Como te falar que você me encantou, mas eu preciso ir? Sabe, eu nunca vou. Eu saio de madrugada, no domingo, na segunda, saio ás sete da manhã, ou chego ás onze da noite, nunca deixo alguém que precise de colo esperar muito. Como te falar que eu te acho lindo, porém preciso que a gente pare de se enganar ou que eu preciso parar de enganar você? Me desculpa. Você não sabe que eu escrevo, nem que falo de você. Você me ensinou a gostar de uma playlist internacional inteira, eu espero ter te ensinado algo, tu só volta próximo ao meu aniversário e eu preciso tanto de colo agora. Me dá teu colo. Eu preciso chorar por dores que são estranhas, por saudades esquecidas. Eu queria tanto que você estivesse aqui, eu preciso tanto de você, muito mesmo. Mas a gente não pode mais se enganar, ou eu não posso mais enganar você. Teu peito encantou o meu, tua alma entende a minha, sou muito melhor quando estou com você. Mas você só chega próximo ao meu aniversário, eu devo te vê no seu. Eu gosto tanto de você que preciso ir embora. Desculpa.

Entre beijos e desejos eu no fundo sabia que ela só estava ali de corpo. Eu sabia que seu corpo, naquele momento, me pertencia. Eu sabia que tudo aquilo não passava de mais uma cena que na manhã seguinte seria esquecida, e que semana que vem estaríamos ali novamente. Seu toque me fez ter certeza de que dessa vez não seria apenas um jogo, seus suspiros me convenceram de que você estava certa, aquelas repetidas palavras me fizeram acreditar em tudo que seus lábios me contavam. Por um segundo pensei acreditar na parte em que você contava sobre os mares que navegou, e que na orla da minha praia encontrou algo chamado amor. Perdi a noção do tempo, e aquele olhar ardente, pairado sobre meus olhos… eu te juro que naquele momento eu pude ver o seu navio, e a tua história eu vi, vivi e senti. E assim na ilusão de oceanos eu me afundei, de repente pego-me sem controle e noção, percebi que dá sua atuação eu não faria mais parte, pois em minha orla não existia mar o suficiente para você navegar todos os dias.
—  Gabriela Piragibe cita para Refez-se