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[A última carta que escrevi]

A última carta que escrevi foi em dois mil e sete; eu tinha vinte e três anos e ela dez páginas. Era uma carta de amor, pelo menos achei que fosse, em papel de linho branco, com gramatura 180. Optei por uma caligrafia mais simples para ter certeza que a destinatária entendesse todas as palavras escritas. Usei tinta nanquim de uma marca chinesa – dizem que são as melhores, e uma pena antiga, presente do meu pai. Para escrever cartas de amor, escolha sempre a melhor tinta, assim daqui a dez, vinte ou cem anos, você terá certeza de que as palavras estarão ali com a mesma força, ou fraqueza do dia que você selou a carta, lacrou o envelope e entregou com todo carinho para a moça dos correios. Cartas de amor, depois de um tempo, deixam de ser cartas de amor e passam a ser cartas de saudade para alguns ou cartas de remorso para outros.

Levei doze dias para terminá-la e até hoje não me lembro de ter posto um ponto final.

Se eu relesse essa carta, provavelmente acharia um pouco cafona: culpa da minha imaturidade adolescente. Mas tinha passagens bonitas, eu lembro. Não a decorei. Não sei dizer palavra por palavra o que estava escrito. Mas sei sentimento por sentimento o que por escrito foi dito. Hoje em dia os e-mails, as mensagens de chat, os comentários nas postagens, tomaram conta da troca de palavra. Se o nosso tempo fosse uma estação, seria o inverno. Estamos sós, conectados com tantas outras solidões. Somos frios, uma fina melancolia sempre parece nos forçar a rir (kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk). As risadas não são tão engraçadas. E isso me dá silêncios. Longos silêncios. Acho que descobri o motivo de eu demorar tanto para responder meus e-mails. Vivo no ritmo das cartas. Ah, preciso evoluir! Ah, preciso aceitar que acabou! Mas por que ninguém me mandou ao menos uma carta para avisar?

Sou do tempo do amor nos tempos do cólera. Sou do tempo em que a espera tempera a palavra, valoriza o conteúdo. Sou daquele tempo e ainda tenho vinte e nove anos. Você ainda lembra da carta que não escreveu por preguiça, por achar uma forma ultrapassada de se revelar ao mundo ou por simplesmente preferir o instantâneo e julgar mais conveniente dizer tudo que sente em poucas palavras? Ah, se você soubesse o quanto ela poderia mudar a vida de alguém. Não estou pedindo para que você seja Florentino Ariza e espere 51 anos, 9 meses e 4 dias por um grande amor que talvez nunca chegue. Eu também gosto da rapidez dos nossos tempos, mas, às vezes, o amor pede mais de 140 caracteres. Meu pai até hoje me manda os tais cartões postais. São breves palavras que encurtam a distância de 10.000km que nos separam, e abrem sorrisos capazes de criar uma ponte entre o Rio de Janeiro e a cidade de Chur, na Suíça.

Fernando Pessoa, na pele de Álvaro de Campos, diz que todas as cartas de amor são ridículas. Guimarães Rosa revela que a vida quer coragem da gente. E eu concordo, Álvaro. E eu te dou toda razão, Guimarães. Queria eu, naquele dia em que lacrei o envelope, ter sido mais ridículo e ter tido muito mais coragem. Isso evitaria o meu remorso ao confessar nesse momento que a última carta que escrevi foi em dois mil e sete; eu tinha vinte e três anos e ela nunca foi entregue.

Com carinho,

Pedro Gabriel

PS: (talvez um dia eu mande por whatsaap )

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*PEDRO GABRIEL nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e criador de “Eu me chamo Antônio”, perfil do Instagram e página do Facebook que deram origem ao livro Eu me chamo Antônio, lançado pela Intrínseca.

Leia um texto inédito, toda terça, no blog da Intrínseca.

Quando saio sem destino e presto atenção no mundo, ele parece maior. O mundo, não o destino. Esses dias, eu andei por São Paulo e tive a sensação de caminhar no meio de livros gigantes. Livros divinamente enfileirados, imponentes. É impressionante! É como se eu, daqui da calçada, tivesse sido engolido por aquelas lombadas de concreto. Me senti um personagem fugitivo, recém escapado de uma dessas histórias cotidianas e que agora se esconde sem rumo no meio dos carros, no meio do caos, no meio dos e-mails, no meio de outros tantos personagens.

Todos esses livros ainda estão em construção. Tenho certeza. A estrutura está montada, construída, edificada. Mas sinto que os personagens ainda não estão à vontade, transitam pra lá e pra cá como se procurassem a melhor história para se encaixar. Nenhuma história parece bonita. As avenidas são os corredores principais dessa biblioteca sem fim. Ali estão os personagens que encontramos nas leituras. Ali estão os dramas, as damas, as tramas, os traumas, essas coisas que viram histórias. Algumas serão impressas, outras serão erguidas, outras serão simplesmente memorizadas. Guardadas em nós como se guarda uma voz após pedir silêncio.

Nossos braços pequenos não conseguiriam abraçar esses livros imensos. Nossas mãos pequenas seriam incapazes de virar uma página sequer. Deve ser difícil virar a página, né?. Ô, se é… Mas acredito que seja mais difícil não ter página para virar. Sorte nossa que temos imaginação. O nome das ruas separa as categorias: Literatura Brasileira, Literatura Estrangeira, Arte, Viagem, Gastronomia, Poesia. Poesia? O que é isso? Uma casinha rebelde e colorida no meio de tanta modernidade. Sempre à margem. Olha lá, seu Drummond na portaria, abrindo as portas da poesia moderna. Bom dia, Carlos! Tudo bem?

Seu silêncio me conforta.

Cada metro andado é como se cada centímetro quadrado fosse o início de uma nova palavra, de uma nova trama… De um novo trauma? Quem é o autor? Seria romance? Terá final feliz? Quando será publicado? Aliás, erguido! Cada página, um andar. Cada capítulo, um apartamento. Cada morador, um enredo. Procuro nas placas, nos letreiros algum nome, alguma indicação, uma sinopse… Não há assinatura, o autor é sempre desconhecido. Só vejo o nome dos prédios: Edifício Guardanapo´s (nome fictício, obviamente). É difícil acreditar que estão escondendo a Poesia. Quem organizou essa bagunça? Na correria, tropeço. Ops, pula, é Autoajuda! Quanto preconceito, menino! Onde foi parar a Arte? Onde está a Literatura Brasileira? Na rua de trás? Como assim? Por que não ficam em destaque, na avenida principal? Aos olhos do mundo… Por quê?

Paro no número 526, sei lá, gostei do jardim. Ainda tem flores. Achei raro. Quais histórias nunca escritas ele ainda guarda nessas paredes imensas? Lourenço, do apartamento 201, tem a cara de Faulkner. Roberta, do 703, seria perfeita para acompanhar Cervantes. Nicolaï, da cobertura, se encaixaria perfeitamente na trilogia de Murakami. E você, essa beleza inesperada que dobra a esquina bem na hora que eu me ajoelho para desdobrar as meias, seria o verso mais bonito de qualquer poema russo.

Preciso respirar.

Nosso romance poderia estar do outro lado da calçada, na prateleira das apostas para 2015. Ou, logo ali, na próxima esquina, junto com os romances consagrados pelo tempo. Espero você se interessar pela leitura. Aviso logo: o começo é sempre um pouco denso, confuso. Mas seus olhos, os mais belos leitores desse mundo, saberão como ninguém conduzir a nossa história.

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*PEDRO GABRIEL nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio e Segundo – Eu me chamo Antônio.

[minha timidez me obriga a tirar os olhos]

Não sei quando começou esse negócio de não enxergar direito. Fato é que até hoje tenho uma enorme dificuldade em querer ver as coisas com nitidez. Geralmente, o que é muito perfeito me incomoda um pouco. Por isso, mesmo depois de o oftalmologista diagnosticar um grau elevado de miopia, eu sempre usei meus óculos com moderação. Meus motivos? Acho que a timidez é um deles.

Minha primeira lembrança desse isolamento visual data da infância. Eu e a minha querida miopia tentávamos brincar de bolinha de gude com os meninos da vizinhança. A regra era clara (e eu não a enxergava tão bem assim): o jogo consiste em fazer três covinhas em um percurso de ida e volta, no qual o jogador tem que colocar o seu berlinde dentro de cada cova. O chão de terra escura e a luz de final de tarde dificultavam o meu jogo. Eu não sabia onde estava a cova principal, muito menos onde se encontravam os berlindes dos meus adversários, e, envergonhado, queria me esconder nessas covinhas. Eu era o meu maior adversário.

Depois, na adolescência, a minha miopia encontrou um amigo: o astigmatismo. Agora, além da dificuldade de enxergar de longe, também tenho a vista embaçada. Lembro-me do primeiro show com a Brisa, a minha banda de indie rock alternativo. Por medo de encarar a plateia, eu não colocava os meus óculos e abaixava a cabeça. Até hoje não sei se tinha três, 20 ou 100 pessoas naquele pequeno galpão. Minha única obrigação era olhar para as teclas brancas e pretas, pretas e brancas, brancas, brancas, pretas, brancas, pretas… Pânico! Sorte a minha que o meu instrumento era o teclado (santificado seja o seu inventor! Aposto que ele era tímido também e fez da sua invenção uma forma de não enfrentar o mundo à sua frente).

Hoje, já adulto, ainda não me acostumei a ver o mundo certinho. Ainda não me sinto totalmente confortável quando estou de óculos. Sei lá, acho lindo observar as pessoas fora de foco, a paisagem se tornar um imenso borrão multicolor. Isso me tranquiliza um pouco. Algumas situações inusitadas inclusive me ajudaram a ter inspiração. Já saltei na estação errada do metrô. Já abracei desconhecidos na rua achando que eram meus melhores amigos de infância. Já pedi sorvete de creme por não conseguir ler a plaquinha do sabor exótico logo ao lado. Tudo isso me impulsiona a criar. No meu caso, só quero ter visão perfeita em três situações: para enxergar o número do ônibus, para analisar detalhadamente o extrato da conta-corrente e para contemplar os olhos da amada.

Ah, tenho um agravante: sou míope, tenho astigmatismo e ainda ando de fone e música alta. Portanto, se você passar por mim e eu não vir, e se você chamar meu nome e eu não ouvir, pense naquele velho bordão do término dos namoros: o problema sou eu, não você.

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*PEDRO GABRIEL nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e criador de “Eu me chamo Antônio”, perfil do Instagram e página do Facebook que deram origem ao livro Eu me chamo Antônio, lançado pela Intrínseca.

[EU SOU TAMBÉM]

Eu adoraria que chamassem o que faço de poesia. Alguns até chamam. Pelo menos na minha frente. Outros insistem em colocar complementos visando claramente a rebaixar o meu jeito de dialogar com o mundo. Até entendo a necessidade de classificar o trabalho de alguém. O mundo tem essa mania ultrapassada de encaixar a gente (muitas vezes em lugares onde a gente nem cabe!). Às vezes, por razões estratégicas; noutras, por desconhecimento ou ainda pelo simples prazer em diminuir a importância de uma determinada manifestação artística.

Tenho que admitir: até ontem, tudo isso me incomodava demais. Hoje não me importo mais com rótulos. Pela primeira vez, eu tive a oportunidade de falar com mais calma com alguns alunos do ensino fundamental da Escola Municipal Jacyra Baracho, em São José dos Campos/SP. Esse dia mudou a minha forma de encarar as críticas. Acredito que o que aprendi com essa experiência se estende aos demais alunos de todas as escolas do Brasil. E aos ex-alunos também. Se é que existe ex-aluno quando a essência da vida está em aprender e ensinar de forma contínua.

Definir é limitar, já dizia Oscar Wilde. Eu não sou só, sou também. Eu não faço só poesia, eu faço também. Eu não sou só um publicitário, eu sou também. Eu não sou só um artista de internet, eu sou também. Eu não sou só um autor de redes sociais, eu sou também. Eu não sou só um cara que desenha palavras em guardanapos, eu sou também. Enquanto as pessoas não souberem diferenciar o só do também, elas continuarão a me classificar na posição óbvia e nada desafiadora da mesmice. Bom para elas; eu preferi acreditar no olhar dos meus leitores. Eles, os leitores, têm os olhos molhados pela emoção do encantamento. Elas, as críticas, têm os olhos secos pela necessidade de classificar.

No refeitório do colégio, Poliana deixou escapar que quer ser engenheira química e seu sonho é entrar na UFRJ. Yasmin timidamente assumiu sua vontade de escrever. Fábio mostrou todo seu talento quando o assunto é fotografia ou edição de vídeo. Já o menino Anderson deixou aparecer sua capacidade de transformar pequenos elásticos em pulseiras ou bichinhos (obrigado pela coruja-elástica). A meu ver, tudo isso é arte. Querer ser alguém é arte.

Não é fácil agradar o mundo. E é muito mais difícil ser aceito pelos mais jovens. Por isso me emociono toda vez que alguém chega e me diz que a minha poesia (sim, poesia) carismática fez com que um aluno perdesse o medo de desenhar, que ganhasse a vontade de escrever ou que simplesmente voltasse a querer ler. Quando isso acontece, ele descobre que a simplicidade também tem seu valor, que a delicadeza também tem sua importância e, principalmente, vê que quando algo tem a capacidade de emocionar uma outra pessoa de forma sincera, esse algo terá sempre seu lugar no mundo.
Muitos têm talentos escondidos, que precisam apenas de uma luz para revelá-los. Talvez esse texto seja aquele empurrãozinho ou aquela forcinha para que eles acreditem nos próprios sonhos. Não posso ensinar ninguém a decolar, afinal ainda estou tentando entender a mecânica das minhas turbinas. O que eu posso pedir é: não seja só suas asas, seja também o seu voo.

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*PEDRO GABRIEL nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio e Segundo – Eu me chamo Antônio.

[SAUDADE DEVIDAMENTE ATUALIZADA]

De uns tempos pra cá, tenho acordado no susto. Sempre com a estranha sensação de estar atrasado para um compromisso que não existe. Sempre com aquela angústia desnecessária de estar devendo ao mundo um poema que nunca será escrito. Olho na agenda, nada marcado. Coloco meus óculos e confirmo nitidamente que não tenho realmente nada agendado para os próximos dias, quiçá meses. Devo estar atrasado comigo, com o meu passado. Alguma saudade que eu deixei para trás está cobrando minha companhia, como se fosse um chope ou uma dúzia de bolinhos de bacalhau que eu deixei em alguma conta pendurada no balcão do meu bar predileto.

Regra número 1: a saudade sempre volta para apertar o peito e acertar as contas.

Ela se infiltra nos meus sonhos, pelas janelas fechadas dos nossos olhos, e fica ali, quietinha, até se apoderar com força descomunal das nossas fraquezas. Acho que é assim que nascem as nossas lágrimas. Lágrima é a nossa saudade em estado líquido.

Meu despertador é testemunha sonora da minha vontade de continuar sonhando. Só mais um pouquinho, por favor. “NÃO!” – temos tanta intimidade que parece que ele me dá esporro em bom e velho português. E toca mais alto e mais alto e mais alto e mais alto… Não tem mais jeito: preciso levantar.

Uma secretária imaginária parece ter programado o meu dia:

6h: abrir os olhos

6h40: acordar

7h30: sair da cama

9h: tomar café

9h01: despertar.

Sim! Acho que o primeiro sinal de que o tempo passou é quando a gente descobre que existe diferença entre abrir os olhos, acordar, sair da cama e despertar. Quando menino, eu já abria os olhos com o coração a mil por hora, elétrico, chutando uma bola imaginária. Tadinha da luminária!

10h: responder e-mails de ontem

12h: reunião com o meu organismo para saber se estou com fome

13h: pagar a conta do almoço

14h35: ligar para o meu pai. Será que a voz dele mudou nesses quatro anos e meio? E-mail não tem timbre…

15h: desenhar guardanapos

16h: lembrar que esqueci que a agência bancária acabou de fechar e eu não paguei meu plano de saúde

17h50: caminhar pela orla

19h: responder os e-mails de hoje

21h: pensar em sobreviver da minha arte

23h: continuar pensando no que eu estava pensando às 21h

23h59: deitar

1:15: pedir encarecidamente para pararem de comentar “segue de volta” e “troco likes”

2h: iniciar o processo de sono e se preparar para sonhar

Que tédio! Nossos sonhos não podem virar rotina, um programa sem audiência embutido na grade horária da nossa realidade. Nossos sonhos não podem ser uma resposta automática do nosso corpo quando a luz se apaga, como estender as mãos para cumprimentar ou retrair os pés para se despedir. Onde aperto o botão, querida secretária imaginária? Preciso atualizar o meu sistema operacional.

6h: abrir os olhos…

Talvez seja só uma conclusão saudosa e um menino que se esqueceu de despertar, talvez seja só uma afirmação ranzinza de um adulto que não se lembrou dos seus sonhos, mas essa saudade que volta para apertar o nosso peito e acertar as nossas contas é a nossa infância buscando compatibilidade com a nossa realidade. Por que carrega essa amargura, Pedro? Por que você deixou de lado a ternura, Antônio? Onde está essa criança, Gabriel?

Regra número 2: a poesia sempre nasce para que essa saudade não passe.

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*PEDRO GABRIEL nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e criador de “Eu me chamo Antônio”, perfil do Instagram e página do Facebook que deram origem ao livro Eu me chamo Antônio, lançado pela Intrínseca.

Meu avô parece ter nascido com a mesma idade que me deixou. Setenta e um anos. A puberdade nem ousou se apossar de seu corpo. Pelinho no sovaco é coisa de adolescente, não pertente à categoria dos avós. O cabelo grisalho é de berço. As rugas já vieram de fábrica. Fazem parte do pacote completo “Nasci para ser Avô”. Para ser bem sincero, não o imagino aos sete anos fazendo birra na hora de arrumar o quarto. Respeita a sua mãe, (no caso, a minha bisa), vôzinho! Não o imagino aos treze anos inventando uma desculpa esfarrapada por não ter feito a lição de casa. Não o imagino aos dezessete gaguejando ao abrir seu coração para a primeira namorada (desculpa vó, mas a senhora já está bem grandinha para ler essas coisas). Não o imagino aos trinta e três pedindo exoneração de um cargo público. Muito menos o imagino aos cinquenta e seis planejando a aposentadoria. Uma casa de praia com cães adestrados nunca foi o seu sonho. Ele não nasceu para ser egoísta. Se pudesse, dividiria seu FGTS com toda pessoa que encontrasse pelo caminho. Doutor Ênio veio ao mundo com setenta e um anos e pronto!

Se fosse juiz, faria uma lei irrevogável. Mudaria a Constituição. Ninguém mais teria o direito de ser nomeado Ênio até completar setenta e um anos. Quem se chama Ênio não sabe matar aula. Quem se chama Ênio não conhece outro lugar a não ser a primeira fileira da sala, quase mais à frente do próprio professor. Ênio só sabe ensinar. O cérebro dele devia ser bem desgastado, tadinho. Mas de tanto usar! Sortudo. Finalmente, alguém com capacidade de usar o cérebro até seu limite. É raro! Seu primeiro lugar no vestibular de medicina de 1951 é testemunha. Uma espécie de Google antes de o Google ser uma espécie de inteligência terceirizada. O Google deveria se chamar Ênio. Desconfio que esse nome foi cogitado na reunião de marketing da empresa e quase foi escolhido, mas, por não se encaixar nas exigências do mercado internacional, acabou descartado rapidamente. O coração nunca bateu o martelo das grandes decisões corporativas.

Meu avô parece ter nascido com a mesma idade que me deixou e com aqueles óculos grandões e com aqueles cabelos grisalhos e com aquela cicatriz no nariz – brinde de uma cirurgia que não deu muito certo esteticamente, mas se não fosse ela, ele não teria cara de avô. Aquela cicatriz combina tão bem com os seus óculos. Parecem uma dupla insuperável. Tipo Tom e Jerry, Mônica e Cebolinha, Pelé e Coutinho. Parecem aqueles produtos chineses nos quais óculos e nariz se confundem em um único objeto frágil e descartável. Daqueles que se compram nos camelôs do centro da cidade. Queria poder encontrar o meu avô em uma dessas barraquinhas. Mas, no meu avô, nada seria falsificado. Muito menos barato. Aliás, sequer teria preço. Só queria que fosse fácil reconstruí-lo. Ele seria exatamente igual, sem uma ruga a mais ou a menos. Talvez com um pouco mais de eternidade. E se for pedir muito pedir eternidade, que ele tivesse ao menos órgãos originais: pulmões a todo vapor, rins de dar inveja a qualquer filtro de Instagram, fígado com aplicativo anticirrose, veias com sistema de desentupimento on-line 24h e, claro, um coração que não pifasse da noite pro dia.

Ah, como ele mesmo costumava brincar: Para eu ser gÊnio, só falta o G, Pedrinho. Concordo e vou além: Vô Ênio, para o senhor ser saudade, não falta mais nada.

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*PEDRO GABRIEL nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio e Segundo – Eu me chamo Antônio.

[QUERIA QUE SEU CORAÇÃO NÃO PIFASSE]

Meu avô parece ter nascido com a mesma idade que me deixou. Setenta e um anos. A puberdade nem ousou se apossar de seu corpo. Pelinho no sovaco é coisa de adolescente, não pertente à categoria dos avós. O cabelo grisalho é de berço. As rugas já vieram de fábrica. Fazem parte do pacote completo “Nasci para ser Avô”. Para ser bem sincero, não o imagino aos sete anos fazendo birra na hora de arrumar o quarto. Respeita a sua mãe, (no caso, a minha bisa), vôzinho! Não o imagino aos treze anos inventando uma desculpa esfarrapada por não ter feito a lição de casa. Não o imagino aos dezessete gaguejando ao abrir seu coração para a primeira namorada (desculpa vó, mas a senhora já está bem grandinha para ler essas coisas). Não o imagino aos trinta e três pedindo exoneração de um cargo público. Muito menos o imagino aos cinquenta e seis planejando a aposentadoria. Uma casa de praia com cães adestrados nunca foi o seu sonho. Ele não nasceu para ser egoísta. Se pudesse, dividiria seu FGTS com toda pessoa que encontrasse pelo caminho. Doutor Ênio veio ao mundo com setenta e um anos e pronto!

Se fosse juiz, faria uma lei irrevogável. Mudaria a Constituição. Ninguém mais teria o direito de ser nomeado Ênio até completar setenta e um anos. Quem se chama Ênio não sabe matar aula. Quem se chama Ênio não conhece outro lugar a não ser a primeira fileira da sala, quase mais à frente do próprio professor. Ênio só sabe ensinar. O cérebro dele devia ser bem desgastado, tadinho. Mas de tanto usar! Sortudo. Finalmente, alguém com capacidade de usar o cérebro até seu limite. É raro! Seu primeiro lugar no vestibular de medicina de 1951 é testemunha. Uma espécie de Google antes de o Google ser uma espécie de inteligência terceirizada. O Google deveria se chamar Ênio. Desconfio que esse nome foi cogitado na reunião de marketing da empresa e quase foi escolhido, mas, por não se encaixar nas exigências do mercado internacional, acabou descartado rapidamente. O coração nunca bateu o martelo das grandes decisões corporativas.

Meu avô parece ter nascido com a mesma idade que me deixou e com aqueles óculos grandões e com aqueles cabelos grisalhos e com aquela cicatriz no nariz – brinde de uma cirurgia que não deu muito certo esteticamente, mas se não fosse ela, ele não teria cara de avô. Aquela cicatriz combina tão bem com os seus óculos. Parecem uma dupla insuperável. Tipo Tom e Jerry, Mônica e Cebolinha, Pelé e Coutinho. Parecem aqueles produtos chineses nos quais óculos e nariz se confundem em um único objeto frágil e descartável. Daqueles que se compram nos camelôs do centro da cidade. Queria poder encontrar o meu avô em uma dessas barraquinhas. Mas, no meu avô, nada seria falsificado. Muito menos barato. Aliás, sequer teria preço. Só queria que fosse fácil reconstruí-lo. Ele seria exatamente igual, sem uma ruga a mais ou a menos. Talvez com um pouco mais de eternidade. E se for pedir muito pedir eternidade, que ele tivesse ao menos órgãos originais: pulmões a todo vapor, rins de dar inveja a qualquer filtro de Instagram, fígado com aplicativo anticirrose, veias com sistema de desentupimento on-line 24h e, claro, um coração que não pifasse da noite pro dia.

Ah, como ele mesmo costumava brincar: Para eu ser gÊnio, só falta o G, Pedrinho. Concordo e vou além: Vô Ênio, para o senhor ser saudade, não falta mais nada.

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*PEDRO GABRIEL nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio e Segundo – Eu me chamo Antônio.

[uma nota sobre o amor]

Aperte o play que o texto vai começar. Tenho pouco tempo. Inspiro-me no jazz e improviso algumas palavras. Saio para passear para um destino aleatório, as músicas vêm comigo em modo shuffle e dão as mãos aos meus ouvidos. Imagino como seria o amor se este durasse o tempo de uma canção.

0min23s

Os primeiros trinta segundos são cruciais. A gente nunca sabe o que vem pela frente. Se o que nos espera é uma levada de punk, um batidão de funk ou uma sinfonia interminável daquelas do tempo de Beethoven. Ainda andamos desatentos, angustiados. Na sombra desenhada pelo sol o que aparece é um menino assustado que não sabe aonde ir, nem se vai chegar nesse destino aleatório. Mas é inevitável: num esbarro, numa rua sem saída, numa olhada distraída, o amor sempre há de acontecer. Abro um sorriso, a música continua.

1min12s

O primeiro minuto é decisivo. Os instrumentos começam a ganhar espaço e se arranjar na linha melódica. Cada um no seu devido espaço, todos em harmonia. Ah, se as pessoas escutassem mais as flautas, os pianos, os violões. Tenho a mais absoluta certeza de que teríamos menos vilões. Você está comigo? A voz no fone direito me tranquiliza. Pelo timbre parece ser a Nina Simone. Quando menino, eu achava que ela fosse brasileira. Pelo nome, talvez. Na época, não diferenciava inglês de português. Hoje, nada disso importa. A música tem linguagem própria, tem conexão direta com os sentimentos, e sentimentos não têm fronteiras. O amor agora me dá as mãos, o refrão ameaça entrar.

1min53s

Em coro, admito: você é mais bonita que um solo do Jimmy Page, que um verso do Cartola, que a voz da Nina Simone, que um álbum dos Beatles, que os olhos do Chico. Quando a gente se encaixa, o refrão fica tão mais bonito. É a mesma sensação de passear na beira de um lago em algum jardim no mês de maio. Em Paris, talvez. Eu, sol bemol; você, fá sustenido; e a gente se toca no mesmo arranjo. Cá entre nós: até um lá menor fica maior aqui, quando estamos juntos no mesmo acorde. Bom dia! Dormiu bem?

PAUSE

O amor também precisa de silêncios, a gente também precisa de pausas. Breves intervalos. Passamos da metade da canção e o sentimento ainda está inteiro. Intacto feito aquele bom e velho compacto do Chico. Estamos literalmente em Construção. Nenhuma faixa está arranhada. Não há mais aquela ameaça de um sonoro adeus. Já lhe emprestei meu casaco. Já não deixo a toalha molhada sobre a cama. Minha escova é um pouco sua. Olha só: a gente pode dar samba!

2min57s

Agora que o amor finalmente começou, a música parece encontrar seu fim. Ontem saí para passear e o setlist me fez lembrar você. Sempre desconfiei que o amor fosse aquela faixa escondida do nosso álbum predileto. Aquela que chega depois de um longo silêncio: compassos longos, com passos largos, com paciência, em paz, ciente. Ela demora, mas chega. Ele demora, mas chega. É sempre assim: a saudade bate em looping, a gente apanha em shuffle, mas insiste em não desmarcar o botão repeat.

STOP

Se você chegou até aqui, aguarde alguns segundos que o texto vai recomeçar já já.

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*PEDRO GABRIEL nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e criador de “Eu me chamo Antônio”, perfil do Instagram e página do Facebook que deram origem ao livro Eu me chamo Antônio, lançado pela Intrínseca.

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Is that art?! Parede Viva Graffiti Project @ESPM via @zupi

Análise de Cena 4 - Cidade dos Sonhos

Outra cena do filme “Cidade dos Sonhos” que chamou muita atenção se encontra no início, quando um casal de idosos está no aeroporto se despedindo de “Betty” para que ela possa pegar um táxi e ir para a casa da tia dela em Los Angeles.

A proposta desta cena é muito interessante, porque a primeira coisa que remete quando vemos a cena – devido à trilha sonora e ao tom de paraíso que é dado na própria - é que “Betty” morreu e está indo para o céu, uma analogia muito interessante com a própria história do filme. E, logo após, mostra o casal em uma limousine sorrindo um ao outro, como se soubessem da queda que “Betty” estava prestes a levar e estavam rindo de tudo isso.

Porém, no filme inteiro não dá para entender qual é o real sentido dos idosos e o que eles representam, mas, quando vemos, no final, que eles são os “responsáveis” pela morte de Diane, consegue-se uma interpretação da cena de uma certa maneira que dá uma possível explicação para o que eles são.

Como o surrealismo de David Lynch é extremamente intenso em seus filmes, os velhinhos podiam representar algo – ou representar várias coisas - de fato e não serem colocados ali de maneira aleatória.

Quando vemos a morte de Diane causada pelo “medo” que ela tem por eles, atribuímos aos velhinhos a própria consciência de Diane, pesando nela e chegando a causar o seu suicídio. Dando um tom irônico para a cena da limousine, em que depois pode-se dizer que a consciência dela estava zombando-a o tempo inteiro.

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Verdadeiramente de Gênio essa, na seleção dos videos e nos cortes. Muito bom humor, no ponto certinho. Não podia ter saido de outro lugar né?

Se tivesse nascido um aninho antes..

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“Let him/her rest in peace.”

Advertising Agency: Ogilvy, São Paulo, Brazil
Chief Creative Officer: Anselmo Ramos
Executive Creative Director: Roberto Fernandez, Paco Conde
Creative Director: Paco Conde
Copywriter: Felipe Machado
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