espermograma

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Espermograma

Nada foi tão traumático quanto isso. Nem ficar 18 minutos para estacionar o carro nas apertadas vagas de pontiagudas pilastras no primeiro dia no estacionamento novo, nem derrubar molho shoyo no chefe no restaurante japonês, nem as nudes vazadas.
Ok, talvez as nudes vazadas.
Fato é que quando dei por mim e olhei para os lados, o branco séptico das paredes com a luz ainda mais branca que falhava de três em três segundos (eu contei) no cubículo sanitário onde me encontrava percebi que aquela era uma missão fadada ao fracasso. Nada ali remetia ao mais singelo erotismo. Nada.
Quem inventou o tal do espermograma?

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Na teoria parece fácil, você está julgando ali de longe, jogando na minha cara a quantidade de testosterona que pulsa em suas veias, nada podia abalar a enorme e entusiasmada ereção que parecia durar o dia inteiro. Eu sei, estaria te acompanhando no discurso caso não fosse eu que devesse performar o ato ali, no banheiro do laboratório.
Longe de mim parecer qualquer coisa perto do pudico, desde os tempos de adolescência sou o rei da punheta, performo onde for necessário, onde der na telha. Saí no meio do vestibular há quatro anos atrás pra liberar a tensão. Passei em terceiro lugar - deu bronze (e bronha!). Sempre funcionou pra mim. Mas algo aconteceu ali, no caminho entre a sala onde a técnica de enfermagem Aline me entregou o potinho com pulsante desconforto me explicando como deveria proceder durante a minha intimidade.“Tente não encostar na borda do pote. Ele é esterilizado, deve permanecer assim”, e o banheiro minúsculo.
Ah, Aline, nada é tão lascivo quanto um pote esterilizado.
Me senti um impotente daquele momento em diante. Fiz de tudo, diminuí a luz, experimentei técnicas de respiração, fiquei parado tentando deixar a imaginação trabalhar. Criei cenários, enredos, elencos dignos de inveja, me rendi ao celular, naveguei por sites terríveis com materiais maravilhosos, ângulos diversos. Técnicas de direção. Nada funcionava.
“Não encoste na borda!”. A voz de Aline vinha como um fantasma.
Amaldiçoei o médico, a família do médico, a medicina. O corpo humano. O 4G da Claro que não funcionava dentro do banheiro, e me acalmei. Vamos lá. Vamos acabar logo com isso.
Olhei para o meio de minhas pernas e fiz um juramento: “Essa é a última vez que fazemos isso, meu amigo. Eu prometo. Força. Me ajude.”

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Foi duro - ou melhor, meia bomba - durou o que pareceu uma eternidade, horas de esforço e concentração pra um desfecho que não fez nada além de me deixar deprimido. Mais um menos como todas as vezes em que me apaixonei.
Que tipo de pessoa pensa em paixão numa hora dessas?
Talvez esse tenha sido o meu problema: romantizar o espermograma. A punheta, a bem dizer.
Tem coisas em que o romance não deve encostar, deve se manter distante. Tente não encostar na borda do pote, romance! Ele é esterilizado, deve permanecer assim.
A voz de Aline me acompanha toda vez que fecho os olhos.
Caminhei humilhado para fora do banheiro levando em minhas mãos um pote esterilizado com uma amostra ínfima daqueles que não dariam nem de longe um bom primogênito
.Apalpei minhas partes por cima da calça e disse em tom protetor. “Acabou, amigão. Nada esterilizado chegará perto de você, nunca mais!”
Nunca mais.


- Gustavo Roças