escravizar

E as discussões se sucediam, sem pé nem cabeça. Mas ciúmes são cegos como o próprio amor. São sentimentos mesquinhos, minuciosos, não esquecem a insignificância dos mínimos segundos. As batidas do coração jamais deveriam se escravizar aos tiquetaques desencontrados de dois relógios diferentes. A verdade, porém, é que eram ambos loucos, um pelo outro, e seus corações acabavam por se entender, num ritmo comum de compreensão. E as hostilidades descansavam invariavelmente em beijinhos e mil perdões.
—  Chico Buarque
(…) Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento. Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes. Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só o ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só o ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espetáculo - desde o crepúsculo aos olhos da amada - sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca. Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor.
—  Jorge Amado
Storms

Verdade seja dita, Gabriel tinha dinheiro. Seja qual fosse a divisão que Chuck fez antes de morrer, o terceiro filho recebeu boa parte da herança. Enquanto Michael e Lucifer só faltavam sair nos tapas em público com  justificativa que cada um queria ser reconhecido como o poderoso líder da indústria dos anjos e demônios, Gabe se mantinha tranquilo num canto. Seria, é claro, tomado como traidor se revelasse o que fazia de verdade. O negócio de escravizar qualquer criatura que não fosse humana continuava a dar lucro. Havia leis. Nem podiam mais ser tratados como escravos. Agora eram “empregados”. Deveriam também ser tratados com igualdade e até mesmo receber salário. Violência física estava fora de cogitação. Por baixo dos panos não era assim que acontecia. O número de mortes das criaturas aumentava a cada ano em lugares específicos. Eles eram capturados na base da força – tomando proveito de como as lutas entre as duas raças os haviam enfraquecido – e sofriam com o tráfico. Independente de para onde iam, tanto para os anjos quanto para os demônios a situação não era das melhores. Por mais que Chuck tivesse feito o possível e impossível como ativista, lutando pela harmonia entre todos, tudo mudou quando veio a falecer e a bilionária empresa da família que praticamente liderava toda a cidade passou para as mãos dos dois irmãos mais velhos. Não havia, contudo, união entre eles. De um lado Michael liderava tudo de maneira rígida e disciplinar. Do outro, circulavam boatos que o rancoroso Lucifer pretendia promover uma rebelião. Controlavam toda a cidade. Ninguém saia dali sem ser vigiado. Ninguém entrava. Até mesmo as ruas eram observadas 24 horas por dia.

O único com poder suficiente para tentar uma reação contra os dois era o terceiro irmão. Aos poucos e em segredo, Gabriel desfazia o que os irmãos faziam. Ninguém poderia saber que ele tentava ajudar os outros seres. Para os olhos dos mais velhos, era apenas um viciado em doces que gostava de gastar dinheiro a toa. Fazia o melhor que podia e ainda achava pouco. Era pouco, se comparado com os números gerais do local. Sempre que conseguia comprar ou soltar um anjo ou demônio, trazia o mesmo para “trabalhar” como um interno dentro de casa, onde ali de fato seriam tratados como iguais.  E assim todos conviviam. Ou fingiam conviver.

Começou como a mensagem de Gabriel no celular de Castiel. “Outra estrela caiu”. Estrela era a palavra secreta, como chamavam aqueles que ele conseguia libertar as escondidas. Castiel, o mais novo e esquecido dos irmãos, sabia de tudo o que o louco por açúcar fazia em segredo.  A fala continuava com qualquer coisa sobre “esse não está sabendo se relacionar direito com os que já estão na minha casa” e “vou mandar direto pra você”. Nem ao menos perguntou se o mais novo teria tempo. Inconveniência pura, assim era Gabe. Cas bufou ao desligar o aparelho, guardando-o no bolso. Do outro, tirou a chave da casa. Estava acostumado a fazer aquilo e acabou abrindo de imediato a porta. Era um fim de tarde e voltava de mais um dia de trabalho. Nunca se interessou pela parte da herança que foi recebeu. Com ou sem dinheiro, continuou morando na mesma construção simples, porém confortável, um pouco afastada do centro da cidade. No hall de entrada havia uma mesinha sobre a qual costumava deixar as chaves ao chegar e nem bem tocou a superfície do móvel percebeu que havia ali uma barra de chocolate. Sempre que Gabe aparecia para visitar, deixava ali um agrado para o mais novo. E dessa vez não era apenas uma, mas duas barras - um pedido de desculpas antecipado.

Ao lado dos chocolates, os dedos de Castiel se fecharam ao redor de uma única chave que não estava ali antes. Não era a primeira vez que lidava com aquele objeto. Embora não pudesse vê-la, sabia exatamente para que servia. Isso só podia significar uma coisa: o que quer que Gabe estava enviando para ele, já estava ali. Entrou imediatamente em estado de alerta como se o irmão tivesse acabado de prender o mais novo num labirinto e soltado ali dentro um monstro. Gabe certamente não tinha noção do quanto aquilo era perigoso. Ainda assim, tomou fôlego e começou a caminhar pela residência à procura do convidado.

Castiel não enxergava. Um acidente durante a infância o deixou cego. Era o coitadinho da família e, ao mesmo tempo, aquele que não importava. Em todo caso, havia aprendido a conviver com aquela situação e tinha, na medida do possível, uma vida normal e alguma liberdade. Sabia quantos passos precisava dar para chegar até o quarto de visitas. Sabia que ele ou ela estaria ali. Abriu a porta num rompante e, como natural, não viu nada além da eterna escuridão. Estaria sobre a cama? Ou num canto, em pé? A única certeza que tinha naquele momento era que estava algemado e que tal item o impedia de usar seus poderes. Cas tinha a chave das algemas. Também não sabia qual eram as condições do mesmo. 

- Você está ferido? – Perguntou para a escuridão. Não fazia ideia de onde ele estaria e o azul focou sem intensão o nada que as sombras do quarto criavam.