esbugalhar

Eu sou a bonitinha que lê uns livros e vê uns filmes. Você é essa força absoluta e avassaladora que jamais precisará abrir a boca para impor sua vitória. Você coloca aquele moletom cinza com dizeres do surf e eu experimento um guarda-roupas inteiro pra ficar à sua altura. Você é essa força da natureza que deu certo. E como eu não sou mulher de correr da dor, deixo ela entrar aos pouquinhos, esbugalhar meus sentidos, enfraquecer meu orgulho. Quando vejo, estou calada novamente, ouvindo o que você não diz e vendo o que você não faz . Não existe não morrer um pouco quando você chega.
—  Tati Bernardi.
E você ainda é o homem mais lindo do mundo. No canto da foto dos amigos bêbados, e você é o homem mais lindo do mundo. Com gorro, no meio da confusão do frio. Escondido embaixo de tanta roupa. No fundo do mar. No escuro. De costas naquela festa chata. Meu Deus, como você é lindo. Não sei direito o que é aurora boreal, mas acho que deve ser algo lindo que se formava enquanto você era feito. Não sei direito o que é isso que eu sinto por você. Mas como é maravilhoso fumar você, cheirar você, tomar você, injetar você. Calar a boca. Me pergunta uma daquelas coisas para eu dar uma daquelas respostas que você morre de rir. Me deixa pirar no seu céu da boca escancarado. Você se joga pra trás. E só porque você e o mundo inteiro têm certeza do quanto você é lindo, você faz questão de sempre se largar no mundo. É a liberdade que só tem quem é infinitamente lindo ou infinitamente feio. Eu sou mais ou menos, mas nesse segundo, já que comprei sua beleza, sou a mulher mais linda do mundo. Me deixa ser linda vestindo você. Outro dia me peguei pensando um absurdo que me fez feliz. É triste, mas me fez feliz. Pensei se isso que você faz, de ficar horas comigo depois de ter ficado horas comigo. Se isso é algum tipo de caridade sua. Porque, veja bem. Somos plantas e pássaros diferentes. Eu sou a bonitinha que lê uns livros e vê uns filmes. Você é essa força absoluta e avassaladora que jamais precisará abrir a boca para impor sua vitória. Você coloca aquele moletom cinza com dizeres do surf e eu experimento um guarda-roupas inteiro pra ficar à sua altura. Você é essa força da natureza que deu certo. E como eu não sou mulher de correr da dor, deixo ela entrar aos pouquinhos, esbugalhar meus sentidos, enfraquecer meu orgulho. Quando vejo, estou calada novamente, ouvindo o que você não diz e vendo o que você não faz . Não existe não morrer um pouco quando você chega.
—  Tati Bernardi.
A defesa é automática. Não há nada que eu possa fazer, mas eu acho também que não gostaria de fazer alguma coisa. Acho que não gostaria, realmente, de carregar a responsabilidade. As decisões que eu tomo todos os dias são ridículas.
escovar os dentes ou não
tomar banho ou não
escrever ou não
me humilhar ou não
escutar músicas tristes ou não
lembrar da solidão ou não
viver. Ou não.
Eu gostava de prender a respiração, e não faz muito tempo. Era como se por alguns segundos eu expulsasse os pensamentos vitais e mergulhasse num cheiro de morte, silêncio e escuridão. Talvez eu conseguisse passar até 4 minutos sem encher meus pulmões de ar e, logo em seguida, esbugalhar um pouco os olhos e me aliviar por ser um completo imbecil com mais velas no bolo pro soprar. Até que me disseram que meu poder sobre mim era uma completa farsa. Ninguém consegue morrer desse jeito. Nunca mais consegui passar além dos 5 patéticos segundos sem me desesperar e confirmar com o meu peito oscilante que eu mantinha a consciência no lugar. Acho que a minha vida sempre durou 5 patéticos segundos. O que vinha depois, era defesa. Espasmos. De cinco em cinco segundos, alguma hora, eu devo sair por aí caindo numa cova.
Viver é uma coisa automática. Ninguém aguenta ser responsável pelo próprio sangue. Se colocassem o valor de todo o oxigênio ingerido sem moderação na minha conta (porque acredito que viver deva ser uma espécie de porre universal), eu já teria explodido em um milhão de pedaços. De novo.
Os amores que deixei? Que paguem. As doenças que me comem o estômago? Que paguem. As saudades? Os orgulhos? Os centavos da passagem? Que paguem. Que paguem todos.
Como eu venho apagando. Pagando. Que seja.
Minha dívida é com alguma coisa dentro de mim, - essa é uma das frases que eu mais repito, e a coisa pode ser, acredite, qualquer coisa, inclusive uma coisa que nem sequer seja minha - alguma coisa dentro de mim que se apieda constantemente das estrelas que ignorei ao longo das minhas janelas fechadas e dos meus olhos envoltos por um cobertor quase sem forro. É desperdício de sanidade me aprisionar no meu mundo insano. O mundo insano que inclui doses altas de uma morfina invisível. Sem ter motivo, sem ter dor alguma. Porque a defesa é automática. Eu fico triste por um segundo, no mínimo, todos os dias. Eu fico só.
É o segundo quando olho bem no fundo do poço do meu passado, e me reconheço, em perfeito estado de conservação, sem retirar uma palavra do que disse, sem pedir desculpas pra quem eu deveria pedir desculpas, sem rodar a chave na porta do meu quarto e parar com essa economia de ar, porque a conta não é minha, a responsabilidade também não. Sou quase um corpo solidário. Ainda bem.
É o segundo quando me escondo na poesia, nas luzes apagadas e na música triste. Quando escovo os dentes, tomo banho, me humilho ou escrevo. De cada 5 segundos, vivo 4. Um espaço eu deixo pra ser o que sou de graça. Sem precisar escolher ser.
Um segundo eu deixo pra me arrepender. E nos outros 4, eu lembro, feliz, extremamente feliz, que a culpa não é minha, nem das estrelas (desculpe), nem de ninguém.
Viver é uma questão de hábito. Talvez, eu nem sequer esteja vivo agora, procurando lembrar onde eu coloquei meus remédios pra dor de cabeça, respirando. E o que vem depois, não é a morte. É espasmo, é ilusão, é crédito, é imposto, é automático.
É costume.
—  Cinzentos
Não vou me privar de pensar em você, nem por um segundo. Quando os pensamentos vierem, vou deixá-los me invadir e esbugalhar toda a minha sanidade. Quando eu ouvir seu nome, não vou me privar de sorrir de orelha a orelha e nem de chorar. Quando eu te ver, vou te olhar, mesmo que descaradamente. Não vou mais me privar desses míseros segundos que tenho, dessa triste realidade que é não te ter pra mim. Vou pensar em você a todo segundo, se for possível, vou aproveitar cada pensamento como se realmente fossem acontecer, vou te sentir, mesmo que não seja real. Farei isso até enjoar e, quando eu finalmente enjoar, vou fazer tudo de novo, do começo ao fim. Vou criar fantasias e um futuro para nós dois, talvez eu escreva sobre eles, talvez eu crie nossa história de amor na minha cabeça e finja que é isso é felicidade. Às vezes, viver a realidade dói demais, então vou me deixar flutuar nas nuvens e se algum dia eu cair, vou saber que valeu a pena.
—  Laura Brigatti
Eu sou a bonitinha que lê uns livros e vê uns filmes. Você é essa força absoluta e avassaladora que jamais precisará abrir a boca para impor sua vitória. Você coloca aquele moletom cinza com dizeres do surf e eu experimento um guarda-roupas inteiro pra ficar à sua altura. Você é essa força da natureza que deu certo. E como eu não sou mulher de correr da dor, deixo ela entrar aos pouquinhos, esbugalhar meus sentidos, enfraquecer meu orgulho. Quando vejo, estou calada novamente, ouvindo o que você não diz e vendo o que você não faz… Não existe não morrer um pouco quando você chega.
—  Tati Bernardi.
E você ainda é o homem mais lindo do mundo. No canto da foto dos amigos bêbados, e você é o homem mais lindo do mundo. Com gorro, no meio da confusão do frio. Escondido embaixo de tanta roupa. No fundo do mar. No escuro. De costas naquela festa chata. Meu Deus, como você é lindo. Não sei direito o que é aurora boreal, mas acho que deve ser algo lindo que se formava enquanto você era feito. Não sei direito o que é isso que eu sinto por você. Mas como é maravilhoso fumar você, cheirar você, tomar você, injetar você. Calar a boca. Me pergunta uma daquelas coisas para eu dar uma daquelas respostas que você morre de rir. Me deixa pirar no seu céu da boca escancarado. Você se joga pra trás. E só porque você e o mundo inteiro têm certeza do quanto você é lindo, você faz questão de sempre se largar no mundo. É a liberdade que só tem quem é infinitamente lindo ou infinitamente feio. Eu sou mais ou menos, mas nesse segundo, já que comprei sua beleza, sou a mulher mais linda do mundo. Me deixa ser linda vestindo você. Outro dia me peguei pensando um absurdo que me fez feliz. É triste, mas me fez feliz. Pensei se isso que você faz, de ficar horas comigo depois de ter ficado horas comigo. Se isso é algum tipo de caridade sua. Porque, veja bem. Somos plantas e pássaros diferentes. Eu sou a bonitinha que lê uns livros e vê uns filmes. Você é essa força absoluta e avassaladora que jamais precisará abrir a boca para impor sua vitória. Você coloca aquele moletom cinza com dizeres do surf e eu experimento um guarda-roupas inteiro pra ficar à sua altura. Você é essa força da natureza que deu certo. E como eu não sou mulher de correr da dor, deixo ela entrar aos pouquinhos, esbugalhar meus sentidos, enfraquecer meu orgulho. Quando vejo, estou calada novamente, ouvindo o que você não diz e vendo o que você não faz . Não existe não morrer um pouco quando você chega.
—  Tati Bernardi