era: utopia

(Anotação)

São dessas coisas que passeiam no pensar até escorrerem pelas pontas dos cílios. Sussurros de ninguém entre o estrondo dos trovões que parece balançar os móveis. Talvez o barulho da chuva também te faça se sentir menos só. Tenho aprendido a não temer os sons, eles me fazem companhia. É certo que desde aquele fim de noite, o céu não parou de chorar. 

G.

B.,

Sempre te escrevi por dois motivos. O primeiro deles é que você merece não uma, mas dezenas de cartas. O segundo é, admito, uma necessidade minha de te manter ciente sobre todas as coisas. Escrevo quando o mundo me dói e seus braços estão distantes. Vezenquando é preciso chorar sob o olhar de alguém que não me deixou cicatriz.

Me pego recordando partidas. Você tem conhecimento de que elas são tristes, assim como fazem parte de nós. Sabe, também, o quanto dói ser ponto passageiro em vidas que criam raízes no nosso peito. Me desfaço em lembretes que rasgam porque, por mais esperançosa que eu seja, compreendo o caminho dos dias e a realidade de que existem escolhas fora do nosso alcance.

Não tenho escrito sobre o sentir de uma forma bela - de forma alguma, na verdade -, tudo me soa contraditório. É como se eu soubesse do vazio que virá me abraçar após cada sorriso, para me lembrar que não sou eu. O sinto em cada ponta do peito como quem recorda que não há escapatória, então te escrevo. Porque meu vazio não te afugenta, B. Eu não tenho que ignorar ou esconder diante dos seus olhos a brutalidade com a qual o mundo me rasga.

Dia desses me peguei pensando no fato de você ter sido a única pessoa que jamais me feriu. Isso me deu alento como aquela canção que recorda nossas andanças. Mas se me perguntarem a coisa mais bonita sobre você, direi que foi eu nunca precisar te pedir para ficar. Não pela partida ser uma constante de quem me marca, mas por saber que você não vai.

G.