era tac

Peço desculpas ao leitor por não dar-lhe hoje o prazer de um texto simpático, mas prometi a ti e a mim a minha sinceridade. Abro o peito por cima do teclado, nele deixo cair o que há. E o que há, em alguns dias, é gozo, é felicidade, é beleza e amor. Em outros, esta coisa disforme. Hoje há um desânimo, uma não-vontade que não combina comigo. Eu que sou enérgico demais, incomodado demais, me sentei no sofá dois dias atrás por e duas horas fiquei. Comi, conversei, pensei. As malas para visitar alguns parentes na cidade vizinha estavam nos meus pés, a hora de descer para a rodoviária passava com todos os seus minutos e segundos. O relógio contava o tempo como o tempo deve ser contado, e não há nada mais irritante que um relógio que faz o seu trabalho direito. Ele não corria, para que eu pudesse voltar logo para casa. Nem sequer andava devagar, para assim acalentar a poesia da minha saudade. Era um tic tac regular, sério, pontual. Quem já viu relógio pontual?
Então, eu ando. Eu vou a todos os lugares, eu vejo todos os rostos, tudo é novo. Há os textos que me animam e me distraem, há o mundo no qual pareço não ter lugar. O lugar ao qual pertenço não é um lugar, são pessoas. O lugar onde quero estar não é físico nem estático, mas move-se longe daqui. Eu que tanto sonhei em sair, eu que tanto sonhei em estar longe. Eu que era outro menino e agora sou este homem. Eu que queria intensidade e às vezes me canso dela, eu que gosto de estar bem. Eu que não me sinto bem. Eu que tenho os olhos caídos e entediados, desinteressados e murchos. E, com tanta frequência, molhados.
Eu que não tenho prazer no toque. As coisas que quero tocar não estão aqui. Eu que não previa esta falta. Eu que não sabia o quão apegado eu era. Eu que mudo meus sonhos com tanta frequência desde os dezessete anos, que agora já se tornou natural. Não espero muito. Tenho uma lista reduzida e vaga de coisas que me são preciosas, como pequenos souvenirs. Esqueci-me de pesar o presente na balança dos atos recentes, preso aos meus esforços do passado. Preso a tudo o que já passei para estar aqui, não me questionei se valia a pena, dadas as atuais circunstâncias, estar. Dado o atual Eu. Jogo dados, então. O futuro sempre está a própria sorte, e nele navego sem bússola. Nele espero um eu futuro, talvez consonante com o eu de agora. Nele espero uma luz, ou várias. Espero faróis, mastros e velas.
—  Felipe Vale, Noite de Domingo. Março de 2017.
Lápis e papel em cima da mesa de café. “Quanto tempo eu ainda tenho?” Sentou meia hora depois do que deveria, e todos aqueles segundos que passou em frente ao espelho, antes de pegar as chaves, se questionando: “Quem eu sou?” ecoaram em sua cabeça molhada pelo suor. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Se estava confortável? Estava. Por um momento se sentiu parte da espuma daquela cadeira cara. Queria infiltrar-se ali dentro. Quente e mudo, comendo ácaros. Quem eu sou? Um momento. Precisamos de um nome. De um endereço. De uma idade. De um problema. De um comprovante de renda. “Eu não posso ser eu mesmo sem ter que ser alguém?”. E a infância, como foi? “Boa, obrigado”. E o coração, como vai? “Bem, obrigado”. E a mente? “Ótima”. Não agradeceu mais. Não era obrigação. A mente está por aí, sabe, mentindo como sempre. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Era como se tudo fosse tempo. Aquele maldito trava-línguas. O tempo perguntou pro tempo quanto tempo o tempo tem. É, a vida é um enorme trava-línguas. Queria muito dizer isso em voz alta, mas a língua travou. Olhou para os lenços de papel. Perguntou a si mesmo quantas pessoas passaram por ali, quantas estavam atrasadas, quantos abriram mão de compromissos mais importantes, quantos choraram ali pela última vez. Suspirou. Quantos lenços de papel seriam necessários para limpar o sangue caso, hipoteticamente, ele quisesse se jogar daquela janela bonita no quarto andar do prédio? Voo. Ele poderia dizer que era um pássaro. Pássaro não tem nome, pássaro é só pássaro. Mas até pássaro consegue voar. Estava cansado dessas coisas boas durarem pouco. E decidiu que pelo menos a morte não seria trágica feito um passarinho morto por não saber fazer a única coisa especial que passarinho sabe fazer: voar. Piscou os olhos e agradeceu por ninguém saber ler pensamentos. Bebeu outro gole do café. Desejou um cigarro. As coisas fluem melhor quando você sabe que está se matando na frente de alguém e esse alguém só reclama do cheiro da fumaça tóxica. Talvez fosse por isso que fumar em ambientes fechados é proibido. Ninguém quer morrer a morte do outro. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Quem eu sou? Não é fácil. Não é fácil como abrir os olhos e acreditar numa religião que diz que o mundo vai acabar. Mas uma religião onde não existe fé, nem culto, nem Deus. Só existe uma tristeza tortuosa do tamanho de uma galáxia desconhecida, onde não há vida, mas, infelizmente, há paz.
—  Cinzentos, 22/03/2013
O relógio contava o tempo como o tempo deve ser contado, e não há nada mais irritante que um relógio que faz o seu trabalho direito. Ele não corria, para que eu pudesse voltar logo para casa. Nem sequer andava devagar, para assim acalentar a poesia da minha saudade. Era um tic tac regular, sério, pontual. Quem já viu relógio pontual?
—  Felipe Vale, trecho de Noite de Domingo.
La gente caminaba sin más, perdida en sus propios problemas y en su mundo.

La calle estaba llena de hormigas humanas cruzándose en la distancia, como estrellas de un universo infinito, sin fijarse unas en otras, sin mover siquiera una antenita en señal de reconocimiento. Unos miraban el suelo, otros los escaparates, unos el paso de cebra calculando si algún coche se dignaría a parar, otros iban con la vista perdida en ninguna parte. Lo que marcaba sus vidas era el reloj.
Tic-Tac.
Pasos controlados. Tiempo consumido. Momentos quemados.