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Eu vivo em prisões. Respiro uma ou duas vezes por dia. De resto, estou presa nas minhas burrices e teimosias. Tenho os ouvidos cheios de palavras amigas, mas não as que eu queria ouvir ou as de quem eu queria ouvir. Há muito tempo, ele me salvou para me abandonar no canto da estrada novamente, com danos piores. Culpa minha, talvez. Culpa da minha mente fechada. Eu me afundei, por simplesmente não querer emergir. Faço um pouco de drama, eu sei, mas assim ponho a emoção que todos gostam ao ler uma história de vida. Não sou sociável, conheço no máximo umas cem pessoas. Digo, pessoas de verdade. Infelizmente, também conheci o pior dos bueiros e valas, fui um deles. Fui diversas pessoas, para ser sincera. Não tenho defesa, não tenho álibi. Culpada, eterna eu. Cansada, roubaram-me as forças, quebraram-me as pernas, rasgaram-me por dentro, tiraram-me tudo. Beba o meu drama. Talvez em sua boca tenha gosto doce, pois na minha amarga muito, mais do que posso suportar. Bato a cabeça na janela do ônibus, ouvindo aquelas músicas encorajadoras enquanto tento limpar a garganta. Envergonho-me também por dizer e fazer mais do que queria. Eu já os magoei. Sei que se entristecem quando jogo tudo para o alto e fujo até a fome e a rua me expulsar, fazendo-me retornar com a culpa embaixo do braço e ouvidos abertos para sermões que finjo ouvir. Não tenho jeito, cheguei a essa conclusão um dia desses. Mas ainda posso tentar, eu acho. Tristeza vicia, é o que me disseram. Então o que impede a felicidade de causar dependência? Eu sinto que algumas mãos ainda não desistiram de me segurar. E que ele, de todos o mais importante, só espera que eu levante para me pegar em seus braços.

O chão, a morte, o escuro e a tristeza já não me querem mais, carcereiro.

—  Evelyn Cardoso
Encontre-me quando as mãos se desprenderem e os olhares não se cruzarem mais. Procure-me quando meus rastros estiverem apagados e todo o pão que eu joguei devorados pelos monstros que nos rodeiam. Agarre-me quando os trapos que visto estiverem remendados, assim como o coração que abrigo no peito e reservei a você. Pegue-me em seus braços, pois só neles posso repousar e pôr os pensamentos para dormir. Entenda-me, ou pelo menos finja, quando lágrimas falarem mais que minha língua. Seus lábios ainda queimam em minha bochecha pálida, junto com seu nome tatuado e mergulhado em meus olhos, que querem a todo tempo mais de ti. Espero-te nas linhas não escritas de uma história que ficou maior que nós dois e fugiu ao controle, embaixo das pedras que guiaram seus pés e me fizeram tropeçar, seguindo a direção oposta à sua. Sonho no seu colo, repouso nas suas carícias irreais, torcendo para não abrir os olhos, pois nossas noites são iluminadas por estrelas que escolheram brilhar para apenas um de nós. E o braço esticado que agarra o vento me faz querer correr as milhas que poupei meus pés. Mas o sol só nasce emoldurado em minha janela e as portas não ousam se abrir a mim, pois elas sabem que me perderia em uma destas armadilhas que parecem me levar a você mas me fazem andar em círculos e voltar para o interior destas quatro paredes de saudade. Então me leia nos sopros do vento que te cato a cada minuto, jogando-me na mesma medida que te busco. Encontre-me na estrada onde os amores começam e terminam e torça para que o destino, ou o que for mais conveniente, decrete o nosso recomeço. Reconheço o nosso fim, mas meu coração que ainda carrega a sua marca grita o seu nome em meio ao silêncio que você deixou. Reencontre-me. Eu estou aqui.
—  Evelyn Cardoso
Carrega-me nos teus braços e arranca-me dos teus pés, Gregório. Não sou pedra no teu sapato, mas tu és abismo no meu coração. Mostre-me por que a ti eu amo, ao invés de recolher meus cacos e procurar por quem me remende mais que as tuas mãos calejadas, culpadas pelo tempo. Tempo que tu me roubaste, que me prendeste, que prometeste amor proibido.
Encontre, Gregório, nos meus lábios o teu perdão, pois não podes ir embora assim, antes de comigo se redimir. Tiraste o sorriso malandro do canto da minha boca e levaste o brilho dos meus olhos para iluminar tua varanda. Meu telhado desmoronou, junto com a tua imagem que tapava a minha visão.
Não me surpreende este mundo ser tão sem cor. Eu sempre soube que tu eras quem preenchia meus vazios e me mostrava o arco-íris. Pote de ouro és tu, toda a minha riqueza que não é mais minha. Não escolhas o caminho contrário a mim. Não pegues aquela estrada, se a ti imploro que fique para pelo menos me explicar por que o amor começa se um dia acabará.
Por que acabaste, Gregório? Por que escolheste os teus pés correr para longe se os meus só sabem ir ao teu encontro? Poderias pelo menos apaziguar minhas guerras antes de me derrotar por completo? Poderias, de algum modo, não me arrancar de mim mesma?
Tuas mãos, minhas mãos, nossos dedos entrelaçados contaram mentiras que nem a verdade é capaz de amenizar. Tu se vás, tu irás me levar contigo mesmo que eu fique. E meus olhos, os mesmos que te viram pela primeira vez e o prenderam a mim, não têm a chave da tua algema. Somos um, Gregório. Um amor que não deu certo e deixou como restos rios de lamentos. Um medo da solidão que nos cerca em vida, pois em breve viraremos morte. Ou já viramos?
Não encontro dentro de mim as desculpas para te deixar ir, para aceitar que meu tu não és mais e que tua serei até que o tempo me leve. Eu não andarei, Gregório, não impedirei teus pés de seguirem em frente. Mas me carregues nos braços, não me deixes terminar no teu sapato.
—  Evelyn Cardoso