entenderam a piada

Capítulo 46

– Clara? A mamãe falou que sua amiga chegou vocês estão aí? A Luana está aqui com a Karina.


Era Vitória, a irmã mais nova de Clara. Em um único movimento, pôs se de pé, catando suas roupas pelo chão, enquanto Vanessa tentava se recompor, na medida do possível, porque seu corpo ainda estava quente, afim de disfarçar para a cunhada o que se passava ali.


– Luna! Kaká, pensei que vocês iriam para Nova Orleanza hoje.


As moças adentraram o quarto de Clara, visivelmente curiosas para conhecer a forasteira.


– Ah desistimos, o Igor vai dormir lá, e você conhece meu pai, nunca deixaria que eu dormisse fora de casa, especialmente no carnaval. – Respondeu Karina.


– Meninas, essa é minha amiga da faculdade, Vanessa. Van, essa é minha irmã Vitória, e minhas amigas de infância: Karina e Luana.


Vitória foi a primeira a cumprimentar Vanessa, sem cerimônia deu dois beijos de comadre, demonstrando sua simpatia. As outras ficaram mais tímidas diante da moça da capital.


– A Clara disse que você tira fotos, é verdade? – Vitória perguntou.


– Sim, trabalho com fotografia sim, é minha paixão na verdade.


– Eu quero ser modelo! Acha que levo jeito?


A adolescente fez pose para Vanessa, como se colocasse pronta à avaliação da fotógrafa.


– Bem… Precisaria ver como você se comporta diante das lentes… – Vanessa respondeu sem graça.


– Vivi! Pára com isso menina!


Clara repreendeu a irmã caçula, estranha reação enciumada, uma vez que Vitória já exibia um corpo de mulher, e belíssimo. A menina mostrou sua face infantil mostrando a língua para a irmã.


– Clara, viemos buscar vocês para irmos ao vesperal no clube. – Karina disse.


– Vesperal? Ai gente… – Clara fez cara de desagrado.


– Ai não faz essa cara! Você tem que ir, assim papai me deixa ir também! Você vai deixar sua amiga enfurnada com você dentro desse quarto em pleno carnaval?


Na sua mente Clara respondia “Esses são exatamente meus planos…”.


– Vitória, a Vanessa veio para estudarmos! Temos um trabalho complicadíssimo para apresentar logo após o carnaval.


– Vanessa! Convença esse bicho do mato a sair de casa pelo amor de Deus!- Vitória apelou.


– Vamos Clara, sabe quem vai estar lá? O Fábio!


Luana tentou convencer a amiga, usando o rapaz como atrativo, entretanto, para Clara seria só mais um motivo para recusar o convite.


– Quem é Fábio? – Vanessa se interessou.


– … a paixão da Clara! – Vitória se antecipou em responder.


Clara ruborizou, olhando para Vanessa que lhe observava atenta.


– Ah é? Paixão dela? Não me diga… – Vanessa comentou reflexiva.


– Não tem nada de paixão! – Clara tentou argumentar.


– Ah está com vergonha de assumir pra Vanessa sua paixonite de infância? – Brincou Karina.


– Ai que exagero Karina! – Clara disfarçava o nervosismo.


– Exagero nada! Aposto que se procurarmos nesse guarda-roupa a gente acha seus antigos diários cheios de poemas e declarações de amor pro Fábio!


Karina rebateu, arrancando risos das demais, até de Vanessa, mas o sorriso da loira era diferente, enigmático, o que apavorou Clara.


– Era coisa de criança gente! O Fábio era o menino mais bonito do colégio, metade das meninas da cidade era apaixonada por ele. – Clara se justificou.


– Mas só você ficou com ele na formatura do terceiro ano!


– Pois é, e depois ficaram de namoradinhos até ele se mudar para Campinas, não foi? – Vitória provocou.


As meninas riram com os olhos arregalados de Clara engolindo o ar enquanto tentava concatenar uma sentença em sua defesa. Vanessa encerrou a questão sendo taxativa:


– Pois bem, vamos para esse vesperal. Nem sei o que é isso, mas se é a atração no carnaval dessa cidade, vamos lá!


– Muito bem Vanessa!


Clara empalideceu.


– Mas, Van, o nosso trabalho…


– Fica pra amanhã, não vou perder a chance de conhecer o menino mais bonito da cidade, a sua paixão!


O tom de brincadeira de Vanessa soava leve apenas para as meninas que ignoravam a relação das amigas de faculdade. Para Clara, a convicção de Vanessa para aceitar o convite das outras, chegou a lhe causar calafrios, imaginando a cena: reencontrar seu namoradinho com Vanessa, sua namorada ao seu lado.

As meninas não saíram mais do quarto, emendando assuntos diversos, sabatinando Vanessa sobre fotografia, e sobre a rotina da cidade grande, a mais empolgada com a loira era Vitória. A expressão desconfiada de Clara não passou despercebida, e interpretada pelas amigas como nervosismo pelo reencontro com Fábio.

Depois do almoço, no clima familiar que deixou Vanessa bastante à vontade, especialmente pela paparicação de Mariêta e a simpatia de dona Fátima, as moças seguiram para o clube da cidade no carro de Vanessa.

O clima entre Vanessa e Clara estava esquisito, não tiveram oportunidade de conversar a sós depois da fofoca adolescente. No clube, a típica festa do interior, onde todos se conhecem. As rodinhas separadas de moças e rapazes inspiravam risos em Vanessa que deixou escapar:


– Os rapazes demoram muito tempo para vir cortejar as moças? Nesse clima fico esperando que a qualquer momento o Chico Bento chegue aqui limpando as botinas…


As meninas não entenderam a piada de Vanessa, exceto Clara que reconheceu o tom de zombaria tão peculiar da moça. E de repente, o cochicho das meninas e os olhares apontando para o centro do salão anunciaram a chegada de Fábio.


– Maninha, olha lá! Nossa, ele está ainda mais gato! Imagina um doutor desses?


A beleza do rapaz era mesmo incontestável, mas, comum. O estereótipo do “Mauricinho”, aguçado pelo suposto visual da cidade grande: no rosto óculos de sol da moda, trajando roupas de marca. Vanessa observou com atenção, olhos fixos no rapaz, mas não deixava de olhar Clara com o rabo do olho.

Clara se sacudia impaciente, coçava o pescoço, passava as mãos pelos cabelos e teve o impulso de correr para longe quando as meninas ouriçadas avisaram:


– Clara ele te viu! Está vindo para cá!


Fábio se aproximou esbanjando simpatia, cumprimentando Karina, Luana e Vitória com dois beijinhos. Diante de Clara o rapaz parou, colocou os óculos na cabeça para encarar os olhos de mel da antiga namoradinha.


– Oi Clarinha.


– Oi Fábio.


– Muito bom te encontrar por aqui, sua mãe me disse que você está morando em São Paulo, e então, o Direito é tudo aquilo que você esperava?


– Acho que até agora, com um mês de aula, o Direito é mais do que eu esperava.


– Que bom! Estou muito satisfeito também com a Medicina, apesar de estar sem tempo para outra coisa que não seja estudar.


Um silêncio rápido se instalou, pela timidez, e principalmente pela tensão de Clara, imaginando o que se passava na cabeça de Vanessa.


– Ah, deixa eu te apresentar Fábio, essa é Vanessa, uma amiga da faculdade.


Dulce cumprimentou o rapaz com toda sua simpatia, o que deixou Clara ainda mais confusa e tensa.


– Vocês estão bebendo alguma coisa? Ou querem beber alguma coisa? – O rapaz foi gentil.


– Obrigada Fábio, mas não acho que aqui tenha algo forte o suficiente para minha necessidade.


Vanessa respondeu dessa vez deixando claro seu desconforto.


– E você Clarinha?


– Não, obrigada.


– Preciso falar com uns amigos que não vi ainda depois que cheguei de Campinas, mas, volto pra te cobrar a dança que você ficou me devendo.


O rapaz se afastou, e a essa altura, Vitória, Karina e Luana já estavam no meio do salão dançando animadas. Finalmente as duas ficaram sozinhas.


– Van, não existe nada entre eu e Fábio, eu juro!


– Você nem sabe o que estou pensando.


– Você está aí com essa cara, mal me olha, não é possível que você ache que sinto alguma coisa pelo Fábio!


– Não é seu amor de infância? Um partidão!


– Vanessa! Eu nem queria vir aqui!

– Porque não? Medo de reencontrar o seu amor do interior?


– Claro que não! Porque eu queria mesmo era estar fazendo amor com você no meu quarto!


– Ah é? Então diz isso pra ele, ele está vindo de novo atrás de você.


O rapaz voltou exibindo a mesma simpatia.


– Sei que você adora essa música, vamos?


Clara emudeceu.


– Não se preocupe comigo Clara, pode ir, vou até o bar, quem sabe tenham um ponche com arsênico para vender.


Vanessa saiu enquanto Fábio puxava Clara para o salão. Obviamente os olhos de Clara procuravam Vanessa todo tempo, enquanto o rapaz se insinuava claramente para ela. Metade da música foi o tempo máximo que Clara conseguiu suportar a agonia de ficar longe de Vanessa sabendo da chateação dela pela circunstância. Deu uma desculpa qualquer a Fábio e saiu a procura de sua namorada pelo clube que ironicamente parecia gigantesco na ânsia de logo achar Vanessa.

Quase meia hora depois encontrou sentada diante de um lago, que tinha como vista as serras que cercavam a cidade.


– Vanessa estava louca te procurando!


– Seu pai tem razão, a cidade tem paisagens lindas.


– Tem, mas não vejo a menor graça nessa paisagem com você dando as costas para mim.


– Já se acertou com seu namoradinho?


– Como você pode dizer isso? Você é minha namorada, quero estar certa com você!


– Será mesmo? Porque você foi dançar com ele então?


– Porque sou uma idiota! Mas, você quer que eu volte lá e te apresente como minha namorada? Então vem.


Anahi estendeu a mão para Vanessa.

– Você sabe as conseqüências disso? – Vanessa perguntou.


– Não. Mas, qualquer coisa é menor do que ler nos seus olhos a sua decepção comigo.


Vanessa segurou a mão da namorada, e disse:


– Vamos voltar pra casa, quero fazer amor com você agora.