endredon

Talvez eu estivesse enlouquecendo. Ou nunca fora normal e estivesse descobrindo só agora, dezoito anos depois de nascer. Talvez todas as minhas palavras sobre ser forte e indestrutível, tenham sido de mentira. Não uma mentira ruim, uma dessas que a gente fala e cruza os dedos para virar verdade. O fato é que eu nunca havia surtado de tal forma. Nunca havia me enterrado viva com mil flores mortas debaixo de um endredon. Não, eu devo estar louca, completamente. Enchi centenas de baldes e fiz tempestade sobre todos eles. Rios de lágrimas desnecessárias e sem sentido. Talvez minha coragem fosse só uma armadura o tempo inteiro. Talvez fosse corajosa de verdade só por ter a coragem de fingir ser. Mas, olha, dentro desse ferro todo tem um menino mirrado com medo da guerra e sem força pra segurar uma espada. Eu sou pequena para o mundo. Ele se aproxima, me engole e eu me sinto no estômago de uma baleia, sem saber quando serei expulsa com um jato d’água. É assim que tenho visto o mundo: um mamífero gigante contra o qual a maré me carrega e eu não posso fugir. Sei que pensar nisso é se afogar antes de engolir água, mas o que posso fazer? Pensar sempre foi meu mal. Acordo. O pesadelo não passa. Talvez seja um sintoma de loucura. Fazer associações malucas, imaginar baleias, chorar oceanos, se afogar de medo. Será que um médico entenderia? Não, ninguém entenderia. Eu passo meus dias nessa bola de neve: Morro medo, deixo de fazer coisas que meu falecido eu corajoso faria, acho que ninguém está gostando dessa criança mimada e chorosa por trás das botas de ferro e então morro, pela segunda vez, de medo. Talvez fosse uma questão de tempo isso de esperar pelo esguicho da baleia. Talvez fosse loucura, dessas que os escritores e amantes têm mania de ter. E quem cura? Não cura, é o mal do século.
—  Rio-doce