embalsamar

Beethoven viciou a música: introduziu nela as mudanças de humor, deixou que nela penetrasse a cólera. Sem Bach, a teologia seria desprovida de objeto, a Criação, fictícia, o nada, peremptório. Se há alguém que deve tudo a Bach esse alguém é Deus. O que são todas as melodias comparadas àquela que sufoca em nós a dupla impossibilidade de viver e de morrer. […] Houve um tempo em que, não conseguindo imaginar uma eternidade que pudesse separar-me de Mozart, não temia mais a morte. E foi assim com cada músico, com toda a música… Chopin elevou o piano à condição da tuberculose. O universo sonoro: onomatopeia do inefável, enigma desenvolvido, infinito percebido e inapreensível… Quando se experimenta sua sedução, só se concebe o projeto de fazer-se embalsamar em um suspiro. A música é o refúgio das almas feridas pela felicidade. Não há música verdadeira que não nos faça apalpar o tempo. O infinito atual, paradoxo para a filosofia, é a realidade, a essência mesma da música. […] É preciso escolher entre Brahms e o Sol. A música, sistema de adeuses, evoca uma física cujo ponto de partida não seriam os átomos, mas as lágrimas. […] De alguns andantes de Mozart emana uma desolação etérea, como um sonho de funerais em uma outra vida. Quando nem sequer a música é capaz de salvar-nos, um punhal brilha em nossos olhos; nada mais nos sustenta, a não ser a fascinação do crime. Como gostaria de morrer pela música, para punir-me por haver duvidado algumas vezes da soberania de seus sortilégios.
—  Emil Cioran.