duas-colunas

importa não deixar cair
a antiguidade

as flores

as colunas que seguram o rio

importa não morrer adormecido
porque mais pesa a noite sobre as cabeças derrotadas

importar alinhar a vista com a distância de barcos desancorados
com a silhueta de uma cidade branca

a árvore que não se esconde não cai
o poema que levita é poesia

o meu coração está tão perto do chão como de ti
mas importa não cair

sejamos a antiguidade de duas gregas colunas

se cairmos
cairemos já velhos

Eu, que me chamo poesia, ando dando voltas na mesa de compor do poeta. Ele não me percebe, o que não é ruim, pois os que me perceberam ou enlouqueceram ou se tornaram orgulhosos insuportáveis. Por isso me esgueiro e me escondo atrás do porta canetas. Às vezes, quando saio, vejo suas mãos cheias de tinta trabalharem habilmente em um desespero que só a composição é capaz de causar. Como um viciado em cafeína, ele prescreve medicamentos para matar as enfermidades de seus efusivos leitores, que rogam a ele, através de cartas em verso, pedindo cura para suas dores ou acalento para suas moléstias espirituais. Como não bastasse a demanda, ele ainda tem de escrever duas colunas diárias para o jornal local. Assim ganha a vida, de crônica em crônica, contando seus causos para meia dúzia de pessoas lerem e não entenderem mais do que devem. Eu? Eu, que me chamo poesia? O que faço? Nada, porquanto. Nada além de cochichar ao pé de seu ouvido que palavra casa melhor com o que ele quer dizer. Me escondo dentro do café, atrás da xícara, no nó da gravata, na tampa da caneta, dentro da meia, por trás do sapato, na sola, no laço. Estou lá e, enquanto ele não me descobrir, estarei. Eu, que me chamo poesia, não procuro outra coisa, mas um poeta que possa chamar de meu.
—  Theu Souza