dourando

(in)Quietude

   Uma cascata violácea de sofrimento, onde o sentimento profundo é só um sopro, é o que tem sido essa fase, dividindo as águas do passado e do futuro. Mas não posso ser unilateral. Gosto do vermelho quase laranja de minhas pálpebras fechadas quando sou despertada pelo sol em meu rosto. Gosto dessas tardes distantes onde o tempo se liquefaz, derrete, some, evanesce, apenas existe, sem números para contá-lo, metamorfoseando o céu iridescente, como um som de fundo, plangente, gotejando. Gosto do sol dourando a cozinha com cores de silêncio. Gosto quando o silêncio é suavemente entrecortado pelo violino e saxofone do apartamento ao lado, enquanto devaneio nessas tardes lânguidas, nesse momento que é só meu, onde sou só mistério, onde ninguém sabe de mim e eu me esqueço do mundo. Gosto de quando as palavras dançam ao redor de mim. Gosto dessa solidão que me pertence enquanto estou plenamente rodeada pelo gosto áspero e sedutor da juventude. Gosto dessa possibilidade latente que existe quieta, sussurrante, de fazer o que eu quiser, de trazer quem eu quiser para os meus domínios ou simplesmente me trancar neles. Gosto dessa premissa de liberdade que borda as minhas tardes. Gosto de mergulhar na escuridão e assistir as nuvens noturnas. Gosto da madrugada bruxuleante e marmórea, às vezes preenchida de música, conversas e beijos, para depois ser beijada por Vênus que brilha através de minha janela. Gosto da ideia de a noite não ter fim, poder descer do ônibus, no princípio da madrugada cantante e desviar até o outro apartamento, onde desaguam desabafos, enquanto a chuva lá fora corre, para depois, ao sair, ainda encontrar um outro alguém e adentrar a chuva gelada, acompanhada pelo piar das corujas. Sim… Isso se aproxima do que venho buscando, isso me parece bom, dá-me vontade de construir, enquanto que, dentro de mim, essa tormenta inesgotável nunca cessa.

Trindade

Os laços estavam lá
No coração,
Com nó de marinheiro.
Invisíveis,
Inviáveis,
Sofrendo
A ação do desprezo
E do tempo.
Mar calmo,
Brisa leve,
Sol quente
Dourando a pele.
Em silêncio
A mente vagava
Junto com as ondas do mar,
Como se assim
Fosse ao teu encontro
Matar as saudades
Antes que se afogasse
No esquecimento…

Rafael Liguili