direito de ir e vir

Antigamente, eu costumava fazer um escândalo quando via alguém partindo. Hoje em dia não. Meu coração dói, mas não bato mais os pés. Não quero mais que os céus desabem sobre minha cabeça. Atualmente tenho aceitado as partidas, tenho aprendido a conviver com as ausências, com as lacunas que a vida nos causa. Ninguém é pertença minha tão como não sou pertença de ninguém, e era isso que eu precisava entender. Por mais que amemos algumas pessoas, isso não anula o direito de ir e vir, que possuem. Elas continuam sendo livres, para voar e explorar outros abismos. Finalmente tenho as deixado ir, quando quiserem. Mas, também tenho não deixado chegar quando querem e isso é um direito meu.
—  Jô Costa.
Aquelas 30 pancadas banalizadas

Uma garota de 16 anos foi estuprada, violentada e humilhada por 30 homens. Não 30 animais, não 30 deficientes mentais, 30 homens com sua saúde mental completamente ativa e sã. 30 homens que mostram o quanto é banal e tão de segundo plano a igualdade, o respeito, a justiça, no país do funk apológico, dos representantes políticos corruptos, da saúde precária, da justiça falha, do futebol que nem é mais lá essas coisas, do carnaval com exposição de corpos em rede aberta. E não me venha com essa de “mulher tem que ser discreta”, MULHER TEM QUE SER E USAR O QUE ELA QUISER. Enquanto homens saem de casa com medo de terem seus celulares e carteiras levados, nós, as do sexo frágil, as escandalosas, as patéticas, as que gritam por justiça, saímos com medo de não voltar mais. Horários não estupram, bebidas não estupram, roupas não estupram, festas não estupram, pessoas estupram. Pessoas tornam banal o simples direito de ir e vir, de dizer “não”, de viver em paz, quando a única diferença entre os dois gêneros é o que se carrega entre as pernas. Um vídeo mostrando todo o ato de estupro e a garota dopada foi postado na internet por um dos estupradores, isso se chama vangloriação, essa é a certeza que todo esse alarde não dará em nada. Nossos superiores estão ocupados demais livrando seus próprios rabos para cuidar do seu povo. Eu, desde muito criança, sempre quis ter uma filha. Uma menina, para dar ela tudo o que não tive, hoje penso e repenso muito sobre isso. Me questiono e temo, gelo, me arrepio por antecipação, esse não é um mundo ou um país para mulheres. Cansei de todos esses gritos no vácuo, hoje, não como menina, mas como mulher, me silenciarei pelo luto, pela morte de uma ilusão chamada “direito”, que ficaram mortos nos meus livros de história e na constituição nacional.
Aqui jaz o direito de ir e vir.

Extinta.

Andei pensando sobre na liberdade e prisão que todos estamos a mercê. Direito de ir e vir é o parágrafo mais vicioso ao meu ver da nossa constituição, mas por algum jeito isso não se limita apenas a mudar de país, no âmbito pessoal é algo bem válido. Vivemos com um colete controlado pelo governo ou pela nossa própria índole/consciência, a liberdade é uma viagem com paradas obrigatórias. Como o seu cachorro que você leva para passear, ele está desfrutando da liberdade, mas mesmo quando não há ninguém por perto e você o solta, a coleira dele ainda o prende.  Estamos numa fluência de acordo com uma maré que uma hora irá nos colocar entre dois leitos e é nossa opção escolher qual leito iremos desfrutar. Namorar ou ser solteiro, atirar ou não atirar ou até mesmo não fazer nada, permanecer no lugar onde estamos simplesmente “ habituados ”. O problema é que a mesmice me incomoda, ser pequeno ou ficar apenas no “ básico ” é algo tão banal que me pergunto se o ser humano sabe do poder que ele tem nas mãos. Não apenas de mudar o pais com um voto, mas de melhorar a vida das pessoas com um riso sendo capaz de abandonar aquele olhar congelado diário das pessoas. Fazemos tão pouco com o muito que temos e como somos humanos me coloco nesse meio. Ser livre não é apenas um direito, é uma obrigação de você se libertar perante as coisas mais banais que te atrasa, inclusive pessoas. Veja como o tempo voa, ate ele é livre pra voar e fazer a sua hora, por que não fazer o mesmo ?
—  s-olenidade
Foi você me olhar de lado e eu, ao lado, doido para confessar, mesmo quando a boca cala o corpo quer falar. Esses gestos incompletos, olhos tão repletos de te desejar. O direito de ir e vir. O desejo de ficar. Tudo isso pra dizer que eu não sei dizer, onde é que isso vai dar? Que eu não mando no querer, aliás é o querer que quer me governar. Hoje eu vivo pra dizer - ou digo pra viver - você é meu lugar. Se o amor não nos quiser, então azar do amor: Não soube nos amar.
—  5 à Seco
Mesmo Quando a Boca Cala

Foi você me olhar de lado
e eu ao lado doido para confessar.
Mesmo quando a boca cala o corpo quer falar.
Esses gestos incompletos,
olhos tão repletos de te desejar.
O direito de ir e vir,
o desejo de ficar.
Tudo isso pra dizer que eu não sei dizer
onde é que isso vai dar.
Que eu não mando no querer, aliás,
é o querer que quer me governar.
Hoje eu vivo pra dizer,
eu digo pra viver,
você é meu lugar.
Se o amor não nos quiser
então azar do amor,
não soube nos amar.

Vinicius Calderoni e Bruna Caram

Negros sem almas

Desce a ladeira, mas desce devagar mesmo que esteja indo trabalhar. A sua cor não se esconde, é negra do dia da consciência mas pode justificar a sua aparência de ladrão. Não deixa crescer esse cabelo emaranhado que é “duro” por padrão, não pinta e não faça dreads. Esconda sua identidade e alise. Não homenageie seus ancestrais, apenas esqueça-os. Não erga sua cabeça diante de um policial e ponha a carteira de trabalho no bolso para você apresentar sempre que for abordado. Alguns irão te intitular com apelidos ofensivos e até te bater algumas vezes mas isso será um problema apenas seu. Estude e se esforce em seu trabalho, mas não se surpreenda ao ouvir que “as cotas te salvaram” ou que “você até que se esforça”. Compreenda que talvez o seu empenho seja um exemplo para meritocracia infeliz que há sob nós. Se houver algum furto, os olhos se voltaram para você. Você está andando contra uma multidão. Desde que uma igreja gritou que eramos sem almas as vozes tem ecoado durante séculos. Nos deram crucifixos para pedirmos perdão por nossa cor. A nossa cultura foi dotada como inferior. Quando quiseram se aproximaram da nossa capoeira, da nossa música mas não de nós. Não tínhamos mais utilidades então a lei abolicionista foi assinada com aparência da nossa salvação, mas não, passamos de escravos com donos para escravos de todos. Prosseguimos e estamos nos centros urbanos, não somos a cara do cartão postal, muito menos das revistas ou dos comerciais. Não somos vistos, não somos ninguém. Nem em livros de história somos uma verdade, nossos antepassados foram livros vivos esquecidos. Proclamam com as suas bocas o nosso direito de ir e vir no país, mas nós seremos mortos a luz do dia com mais de 50 tiros, nós e nossos amigos negros. Na televisão não irá passar a dor de nossas mães, ninguém saberá nada além do que a tela fala: “foi em legítima defesa”, “ele carregava uma arma”. Sentirão empatia momentânea mas quando jorrar sangue demais desligarão a tv e esquecerão. Todos os dias um de nós morrerá e a sociedade não vai enxergar que foram cúmplices.

Eu sou muito pessimista, não é mesmo? Também sou chata, dramática, infeliz. Dizem vai ficar tudo bem, você é nova, olha aí a vida bem na sua frente. E só o que vejo no horizonte é decepção sobre decepção, um sol quente e muros onde picham que tenho direito de ir e vir. É tudo tão irônico, alguns querem dormir e acordar ricos, outros casados e com filhos, outros ainda, acordar no início da viagem dos sonhos… Eu só quero não acordar.
—  Cheiene Oliveira
Aonde há privilégio, há desprivilegio

 

 As cidades não necessitam de uma análise esforçada para transparecer a existência de privilegiados entre os que as habitam. Aonde há privilégio, há desprivilegio. E nessas, os que não podem oferecer produção, não merecem inclusão.

 Com uma dificultosa locomobilidade, excluindo o direito de ir e vir, as cidades ignoram o real sentido de exercer a cidadania; Exclusão que atinge diretamente idosos, deficientes, gestantes e crianças.

 Nas últimas décadas, a preocupação com a acessibilidade tem crescido, em processo lento. É possível perceber a inclusão de obras e serviços de adequação do espaço urbano e dos edifícios, que tragam a eliminação de barreiras. Porém, ainda, a grande problemática continua a ser executada, pois o padrão estético da funcionalidade e de reprodução do capital continua a ser produzido dentro das cidades.

 Ainda, estendendo um prazo de melhoria nas cidades, grande parte das universidades oferecem cursos de arquitetura e urbanismo que enfatizam a lucratividade, e a colocam como premissa, preparando profissionais sem preocupações sociais, reprimindo as necessidades de um coletivo.

 Há quem perde o direito e o privilégio de ser livre, quando perde o direito de viver em sua condição. Considerar, pensar e repensar em melhorias sociais é o caminho para uma solução. 

“Na minha época era diferente”… Mas é claro, surpreendente seria se as coisas continuassem iguais. O mundo tem por tendência evoluir, e por mais coisas negativas que a evolução tenha trago consigo, pôde agregar inúmeros pontos positivos. A violência aumentou? Sim, mas talvez tenha aumentado proporcionalmente ao crescimento populacional. O consumo de drogas se tornou explícito? Sim, mas este consumo sempre existiu, mas a educação ditatorial de muitos pais antigamente não permitia que tais fatos se tornassem públicos. A juventude de hoje não está perdida, assim como em todas as épocas, existe uma parcela de jovens que não sabem conduzir a vida de uma maneira adequada, porém isto não torna toda a juventude atual ruim. Os jovens atualmente têm inúmeras oportunidades de empregos, podem fazer cursos gratuitos, o governo em alguns casos oferece ajudas financeiras para famílias de baixa renda, as pessoas não tem mais um toque de recolher, podendo assim deixar em vigor o seu direito de ir e vir. Como em todos os países, as leis mudam, presidentes mudam, e o Mundo muda. Desde sempre podemos perceber que se não existisse em nossas vidas mudanças elas continuariam as mesmas de sempre. Quando muda, isso transforma tudo em sua volta. Em um país que protestos e manifestações tomam conta, é sinal de que os jovens, ou adultos mesmos querem mudanças sejam elas na saúde ou educação. “Na minha época era diferente”, talvez as pessoas tivessem medo de ir pra rua, gritar ou buscar os seus direitos. Quem sabe? Se no passado tivessem feito isso, agora não estaríamos assim. Podemos concluir que o Brasil já teve diversos protestos com grandes motivos, nem muitos deles foram resolvidos. Por um único motivo: Voto nas eleições. Apenas posso dizer que ao fazer uma escolha seja ela de qualquer motivo, o Mundo a sua volta sofre as consequências, por isso pense. Sempre haverão novas causas e novas mudanças porque o mundo muda, o país muda, os estados e as cidades mudam, você muda. E precisa aprender a parar de reclamar e acompanhar o ritmo, imaginou que chato seria se tudo continuasse exatamente igual? A moda seguindo as mesmas tendências, o país com os mesmos problemas, as escolas com os mesmos métodos… É preciso encarar a mudança de forma positiva porque isso sempre vai ocorrer, tudo ainda vai mudar milhares e milhares de vezes, exceto uma coisa: sempre haverá alguém que não entenderá certas modificações, tendo consciência de que as épocas e ele mesmo são diferentes. Tais pessoas se assemelham a uma criança que chora e esperneia quando ganham algo novo, talvez seja melhor, mas ainda assim não conseguem ver aquilo como algo bom, apenas porque é diferente.
—  By: Gláucia, Ana Luiza and Heloisa written in imperfeita-s