diagonais

Estivera

Quem esteve já não está mais
Em meu coração
Pra entender essa vida em diagonais
Basta percepção
Só não digo que não te quero mais
Por compaixão
E nesses momentos cruciais
Vem a mim a desilusão
E viver assim é como deitar em um caixão.
Findo essas circunstâncias atuais
Dizendo-lhe
Quem esteve já não está mais.

Rosa Coelho

vertical 
algum lugar em mim 
em meio aos tortos 
os possíveis, diagonais 
algum, qualquer, enfim 
dentre tantas as tangentes 
espirais 

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Os Diagonais - Não vou chorar

Ouvia os Beatles e pensava na Inglaterra. Os carros, os bus, os getlemen, os fuscas, os guardinhas fantasiados e os becos diagonais. Fazia passeios que iam da Itália à China, passando pelo Marrocos e fazendo a curva que vez Vasco da Gama. Era daqueles que viajam pelos olhos e pelos ouvidos, bastava ouvir que estava lá, sentindo e vivendo. Onda do mar. Sons de buzinas. Carros e mulheres. Combinação mortal, uísque e nicotina. Naqueles pensamentos ele se perdia das seis às oito, por comodismo ou tédio. Era eventual viajante imaginário que, por ironia, não pensava em viajar, pois aviões entojavam, mas queria conhecer as praias, os Emirados e as Dunas, queria ir da Flórida à Berlim, ver a parede cair, a assembléia surgir, a máquina aparecer e ver Chaplin fazer os homens sorrirem no cinema mudo. Quem sabe seria ele o novo Mr. Bean? Os poetas de hoje condenam gente assim. Aluar-se não faz bem. Diziam isso quando tentava, mas a verdade é outra. Aluar-se para ser feliz, pois no plano do ser o jeito é viajar sem sair de onde está. Aproveitar o movimento de rotação do Planeta Azul. Ao som dos Beatles ou de qualquer música que conte com submarinos amarelos. Agora ele quer viajar além-mar em caravelas e em barquinhos de papel. Poeta porreta.
—  A.E.C Souza 
A Prova de Fogo - Capítulo 22

– Arrumou a minha mala? – Rodrigo perguntou ao entrar no quarto do casal.

– É claro, querido. – Paulo respondeu com um pequeno sorriso e se aproximou dele, que não recuou.

– Então eu já vou.

– Tome cuidado na viagem e por favor, não fique com qualquer mulher. - Paula tomou o rosto do marido entre as mãos e depositou um pequeno beijo no seu queixo, depois com um sorriso divertido.

– Não prometo nada. - Sua voz foi ríspida, mas fraca.

Rodrigo nega a si o quanto ama a mulher a quem fez tanto mal. Ele se torna estável com Paula, ele se torna diferente e vive em outro mundo. Mas esse mundo fora corrompido por uma descoberta: Star. E gradualmente, guardava o que sente por Paula. Aos poucos se tornando o Rodrigo que deixou um corpo sem vida sob ela, enquanto lentamente uma hemorragia ia aumentando e o sofrimento se tornava ídolo para ela. Ele não é bobo e nem inocente, chega a gostar quando se deleita nos pensamentos sobre Mayra; sobre o que fez a ela. Também ama das súplicas de Clara, vulnerável e grávida. Ele gosta. Não se arrepende pelo tempo que fez Bia conhecer seus desejos carnais e até gosta de lembrar de seus gritos, berros, choro e sofrimento.

Mas quando se lembra do que fez com Paula, seu coração gela e sente algo apertar o coração. Um dos seus capangas já tentou obrigar a sua esposa a ter relação sexual com ele, mas morreu no instante em que quase conseguiu o êxito. Rodrigo lembra com nitidez a fúria do que viu, a dor que sentiu e o ódio o consumindo. Tanto é que nesse dia se ironizou, pois, antes de Paula conquistá-lo, ela era um objeto de prazer para os melhores. Nunca quis sofrer ou se deitar com eles. Mas quando não era drogada ou amarrada, ela era debilitada. São marcas que não se comparam com que sua irmã e seu amor passaram.

– Onde está Bia? - O coração de Paula gelou, mas respirou e sorriu delicadamente.

– No quarto, assistindo séries. - Paula o informou.

– Quero me despedir dela. – Rodrigo avisou, já se movendo para o quarto da filha. Paula foi atrás, atenta a qualquer ação dele.

(..)

O sol invadiu a mansão, e incomodou os olhos de Vanessa que logo sentiu uma dor terrível nas costas. Abriu os olhos e bateu a sua cabeça três vezes, na madeira. Dormiu sentada e encostada na porta do quarto de Clara. O dia de ontem não foi bom e as coisas pegaram fogo quando ela pisou o pé em casa. A destratou e bateu diversas vezes no seu ombro. Correu da mulher, a xingou e bateu a porta do quarto com força. A mesmo insistiu por horas para que ela conversasse com ela, e não desistiu. Disse que não sairia dali e assim o fez. Depois de um banho, roupas limpas e analgésicos, se sentou na mesa da cozinha saboreando um café forte. Não demorou para ver sua esposa entrando no cômodo. Ela sorriu para si ao vê-la descalça e com pouca maquiagem. Clara se sentou na cadeira que estava encostada na ponta da mesa branco rústica. Observou os olhos de Vanessa e sentiu arrependimento. Talvez a única coisa que precisava seria os braços dela a envolvendo.

– Desculpa. - Sussurrou.

– Você não tem que se desculpar. - Vanessa disse segura e mudou de cadeira. Sentando ao lado da esposa e oferecendo a sua xícara com café. A mesma tomou a xícara em suas mãos e bebericou.

– Forte e amargo. – Resmungou produzindo em Vanessa um pequeno riso. Ela acariciou a maça do rosto da esposa, com as costas de sua mão esquerda.

– Conte somente quando tiver vontade. Eu espero… Só não tente me manter distante. - Vanessa falou baixo e sentiu a mão de Clara tomar a sua apertando-a levemente e tirando ela de seu rosto.

– Porque? - Ela desejava saber com todo o ser. Porque não se manteria distante de uma mulher que não consegui deixar os filhos viverem em seu ventre. Se sentiu uma praga.

– Fiquei um dia fora e o mundo desmoronou. Eu te deixei vulnerável e sozinha, quando aquele canalha apareceu. Novamente não estava ao seu lado… Seus olhos estão embargados com tristeza e eu nem sei o que aconteceu… De novo. - Vanessa confessou apreensiva.

Clara se levantou e sentou de lado em seu colo, como se fosse uma criança novamente. Cruzou as pernas e sentiu as mãos dela envolverem a sua cintura. Olhou em seus olhos e  sentiu uma onda de emoções percorrerem seu corpo. Lágrimas sem aviso, embaçaram sua visão que só voltou mais limpa quando elas se desmancharam sobre seu rosto.

– O médico disse que foi espontâneo… Ele não estava se desenvolvendo direito e… Com a adrenalina liberada ,quando Rodrigo tentou me bater, colaborou para o meu organismo… Se livrar dele… - Tentou dizer, baixo e suave, porém carregadas com uma dor que já conhecia.

– Você? - Vanessa perguntou olhando para os olhos dela.

– Sim… Mas não era seu filho e eu tinha medo… Dúvidas… Eu queria que fosse seu, eu juro, mas não era. - Clara se levantou e passou as mãos nos longos cabelos. Fungou e fechou os olhos.

Esperava ouvir a fúria de Vanessa talvez tapas ou a tentativa de força-la… A reação que teve quando descobriu que ela tinha um amante. Quando ela contou e jogou na cara dela tantas coisas. Respirou fundo e sentiu braços a envolverem, um beijo em sua testa a fez abrir os olhos. A abraçou com tamanha força e chorou baixo, enquanto escondia seu rosto na curva do pescoço de Vanessa.

– Você será mãe… Calma… Tudo vai passar… - Van tenta reconfortá-la e então, ela sai de seus braços.

Com uma expressão desesperada, uma de suas mãos corre até sua barriga enquanto a outra tampa sua boca. Lágrimas voltam com força e ela balança a cabeça negando a afirmação da esposa. Tira a mão da boca e encosta seus dedos em sua têmpora direita, balança a cabeça fortemente.

– EU NÃO QUERO MAIS SER MÃE… - Gritou, apertando suas mãos em sua barriga e sorriu fraco por poucos segundos.

– Clarinha…

– NÃO MEU AMOR… EU NÃO VOU SER! NÃO QUERO! NÃO VOU SUPORTAR PERDER MAIS UM FILHO… NÃO… DEUS NÃO DEIXE EU GERAR OUTRO CRIANÇA PARA PERDÊ-LO MESES DEPOIS… ELES NEM VINHERAM AO MUNDO… VANESSA, MEU VENTRE É AMALDIÇOADO… - Clara surtou e encostou a testa no ombro da esposa.

A mesmo a acalmou sem dizer nenhuma palavra. Sangrou por dentro ao ouvir suas dores e desejou ter o poder de arrancar a dor dali. Ou mesmo sentir por ela. Indiretamente seu coração doeu tanto ao saber que sua mulher perdeu mais um filho. Sim, não era seu mas bastava ser de Clara para amar a criança que estava crescendo dentro dela.

(…)

Um sorriso grande se formou nos lábios do idoso que recebe o abraço da neta com grande gratificação. Vanessa sorri mais uma vez ao ver o avô, depois de algum tempo. Seu irmão de alma, tomou a posição em que ela estava a segundos atrás. Abraçando o avô.

– Demorou muito em me ver, filha… – Carlos disse com receio.

– Eu te liguei pelo menos duas vezes nessas semanas que passaram, vovô. - Vanessa o lembrou.

– Ligou? - Ele deu um pequeno riso e se dirigiu a cadeira de balanço branco, que Mayra mandou para ele no inicio do mês.

– Já consegui a Flor de volta. – Carlos acrescentou, arrumando a boina verde escura antiga em sua cabelo. Porém se atrapalhou, com o braço que doeu ao ser tão esticado.

Vanessa sorriu com a afirmação de seu avô, de certa forma ele entendeu. Carlos sabia que sua neta já reconquistou o coração da esposa.

– May pediu para te dar isso… – Coyote mostrou uma caixa de madeira branca com detalhes pretos e azuis, no centro da tampa as iniciais do casal. “ M & C ”, em uma letra cursiva gravada no tom dourado.

– O que é? - Carlos perguntou enquanto Coyote o ajudava a abrir a caixa.

– Sua gravata e um pedido. - Coyote falou baixo, sorrindo e fitou o idoso que considerava seu avô.

– Só vejo a gravata… - Carlos resmungou, logo arrumando a armação de seus óculos no rosto. Coyote e Vanessa riram. A gravata é azul escuro, com listras diagonais acetinadas.

– May quer que você entre na igreja com ela… Você sabe… Ela gosta muito de você, vô. - Coyote disse com sinceridade.

É impossível o pai de May entrar com ela na igreja, pois ele foi terrivelmente assassinado seis meses depois que Paula viajou para a Itália. A época que a jovem ainda estava se recuperando das feridas deixadas por Rodrigo, e ainda teve a dor de ter seu pai morto com quarenta facas e a mão amputada. Uma morte dolorosa.

– Ela quer que eu… - Carlos gaguejou. Lágrimas caíram de suas pálpebras enrugadas, como uma criança, sorriu feliz e deu pequenos risos.

– A pequena Dias… - Disse lembrando de May com 8 anos, da época que a conquistou com pirulitos e chocolates.

Na visita que fez para neta na cidade, quando sua Flor ainda estava viva e ao seu lado, o bajulando sobre para que lado devia pentear o cabelo e o fazendo usar creme de amêndoas na pele que nunca ficava ressecada.

– Viemos te buscar, você tem que provar o terno. - Vanessa interrompeu as memórias do avô.

(..)

Pomeriggio caffè, está razoavelmente vazio. Um rapaz, alto, dos olhos translúcidos acompanhou com o olhar Paula chegar e se sentar em uma mesa no centro no lugar. A memina encontrou o olhar dele e sorriu sorrateiramente, fitou ele se aproximar com um cardápio plastificado.

– Eu disse que te seguiria. - Bruno disse observando com carinho a mulher.

– Não acredito que deixou seu Cafe Greco, em Roma. Você tinha me dito que era sua vida aquele lugar. - Paula o observou, e suspirou.

– Você fugiu de mim, lembra?

– Se Rodrigo te ver… Você pode não ficar com uma cicatriz e sim morrer. - Paula avisou, se lembrando do tiro que ele levou por ela… Por eles.

– Eu… Podemos matá-lo… Levaremos Bia… Depois pegar o nosso…

– Cala a boca. - Paula o interrompeu, observando com fúria seus olhos.

– Porque?

– Bruno… Eu morro se Rodrigo sonhar com isso. Só cuide dele e… definitivamente você é um inconsequente. - Paula bufou e sentiu o toque das mãos do italiano em seu rosto.

– Per. Eppure ci sono persone Che guardano me … (Para, ainda tem gente me vigiando…) - Paula o advertiu e ele obedeceu, retirando as mãos do rosto dela.

– Vou correr o perigo. Sou o novo chef da sua irmã, sabia? - Bruno a informou.

– Como?

– Pensei que ela era você… Com o cabelo disfarçado e tudo mais. - Ele disse rindo de si. Paula pegou o cardápio da mão do italiano, e observou seus olhos. Olhou para a porta e reconheceu um homem grande entrar no Caffè.

Bruno percebeu e disfarçou, ele sabia que é um dos homens que vigia Paula quando Rodrigo está fora da cidade.

–Idiota. - Murmurou e sorriu. Os olhos de Paula perguntavam algo à Bruno.

– Sapete dove trovarmi. Rocco va bene se volete sapere. (Você sabe onde me encontrar. Rocco está bem caso queira saber.) - Ele falou baixo mas ela entendeu perfeitamente. Paula sabia que ele estava bem, afinal, é Bruno quem cuida dele.

– Avere una buona scelta, la mia principessa. (Tenha uma boa escolha, minha princesa.) - Ele disse sorrindo e se afastando da mesa, pegou outro cardápio e pediu para uma garçonete levar para o homem. Conhecido como Cão.

– Italianos… - Paula sussurrou e se permitiu rir divertida. Ele veio atrás dela e isso com certeza fez seus olhos brilharem mais.

Minutos. Muitos minutos se passaram até que Paula assumiu uma expressão insegura. Seus olhos estavam percorrendo o andar de uma loira, elegante e linda. Ela não pode deixar de sorrir ao ver os traços da pouca maquiagem dela, com os lábios em tom de rosa escuro e o blush acentuado nas maças do rosto. May. Linda, rosada e surpreendente, como sempre.

– Como pode ser tão linda? – Paula murmurou para a loira, que se acomoda na cadeira a sua frente.

– Olha quem pergunta. - May olhou um pouco envergonhada, mas se sentindo bem com a forma familiar daquela pergunta.

– O que queria? - Perguntou Paula que horas atrás atendeu a ligação dela, que insistiu em vê-la sem o Rodrigo por perto.

– Ninguém pergunta sobre essas cicatrizes e hematomas não? - May ignorou sua pergunta, dando atenção a pele de Paula que está amostra. Deslizou delicadamente a ponta dos dedos no braço dela, que em segundos o retirou, quebrando o contato dos dedos da Loira no braço dela.

– Não.

– Desculpa.

Paula deu um pequeno sorriso e minutos se prosseguiram em silêncio. Mas o silêncio entre as duas não era nada constrangedor ou desconfortável, mais parecia uma identificação visual que ambas faziam.

– Você vai no meu casamento sem aquele monstro, certo? - May perguntou mostrando o que tem atingido ela.

– Ele não é um monstro. – Paula repreendeu. Ele é um demônio, pensou ela completando seu raciocínio.

– Me responde. - Ela disse em um tom autoritário.

– Não. Ele está viajando. - Paula a avisou, receosa. Olhou pelo o lugar que está mais cheio e encontrou o olhar atento do Cão de seu marido. Respirou fundo.

– Paula… Eu sei que você sofre com ele…

– É SÓ ISSO? - Paula interrompeu ela, com a voz grave. Cão está de olho, e com May não se responsabiliza pelo o que fala. É a May. Ninguém no mundo deve entender o grande fato lógico é esse. Ela não consegue mentir completamente para a loira.

– Não me trate assim.

– Perdono. (Perdão - italiano ) Se é só isso, eu já vou. Encontro você daqui a três dias… - Paula suspirou e encarou os olhos negros dela.

- Ele é realmente seu futuro… A última frase cortou um tanto a loira. Afinal, ambas sabiam o que tiveram e ninguém podia comparar ou jugá-las.

Somente elas sentiram e foi May que deu um fim. E isso dói depois de anos…  chegou a pensar que foi sua escolha que levou Paula para os braços de Rodrigo. Por longos momentos isso tem voltado em sua mente. Ela fez a escolha certa?

(..)

A lareira elétrica da sala de estar, demonstra as chamas virtuais e bem reais. O sistema de aquecimento está em uma temperatura média, pois hoje não está realmente frio. Vanessa só queria arranjar um tipo de aconchego para ela. Na frente da lareira, tem um colchão com muitos travesseiros, encostados no sofá. Ao lado duas xícaras grandes de chocolate quente com marshmallow. Clara está com a cabeça descansando no ombro dela, com um sorriso, olha para a lareira que quase nunca é ligada. Observa as chamas que lhe dava impressão de muito real. Estavam ali por mais ou menos duas horas, conversando sobre qualquer coisa. Vanessa só saiu de seu lado para fazer as xícaras de chocolate com marshmallow, que decidiram esperar esfriar um pouco.

– Seu novo chef ligou. – Vanessa a informou deixando transparecer em sua voz uma surpresa.

– O que ele queria? - Ela perguntou escondendo um riso interno. O tom da voz de sua esposa, pareceu um show de humor. Ela achou engraçado.

– Vamos começar do princípio? DESDE DE QUANDO VOCÊ TEM UM NOVO CHEF? - Vanessa perguntou e ela finalmente deu gargalhadas,

levantando a cabeça e fitando os olhos dela. Delicadamente ela entrelaçou seus dedos nos de Vanessa. Para ela isso foi uma bomba no seu coração. Quer dizer, ela finalmente a escolheu?