deveria ser eu mesma

E estou vendo que tentar nos consertar o tempo todo é o que está me matando devagar. E não quero mais consertar a nossa relação. Em vez de te amar tanto, eu deveria ser eu mesma por um tempo, eu deveria me amar.
—  Callie

“Mãe, você é abusiva.

Não é saudável me comparar todos os dias com a minha prima/irmã/vizinha e chorar lamentações sobre “por quê você não pode ser mais como a Mariazinha?”, porque eu não posso ser ninguém além de mim mesma. E quem eu sou não deveria ser causa de lamentação.

Não é saudável quando você me coloca pra baixo em toda a oportunidade que tem e expõe que a minha única salvação na vida é encontrar algum homem. E nem que “meu homem” seja minha única conquista decente na vida e que eu precise agradecer todos os dias por esse milagre e me cuidar para que ele não perca o interesse.

“É por isso que você ainda está sozinha”; “se estivesse casada não estaria passando por dificuldade agora”; “se continuar descuidada desse jeito seu marido vai encontrar alguém mais bem cuidada rapidinho”; “com esse seu estilo esquisito você não vai encontrar nunca um homem que te queira”; “precisa casar com um homem que te cubra de porrada pra você aprender a ser mulher”.

Mãe, você é abusiva.

Você é abusiva quando enxerga na minha vida uma extensão da sua e projeta em mim tudo aquilo que queria ter sido e não foi e tudo aquilo que queria ter feito e não fez. E se frustra toda vez que eu tomo um caminho diferente do que você queria tomar. Quando percebe que eu não tenho os mesmos gostos nem reproduzo os mesmos pensamentos que os seus e toma atitudes cada vez mais drásticas na tentativa desesperada de retomar o controle. Quando confunde dominação com instrução e não aceita apenas me dar orientações, mas precisa viver por mim e controlar cada detalhe da minha vida e cada escolha que eu preciso tomar. Que amigos ter. Por quem me apaixonar. O que estudar. Que função exercer. Que preferência política ter. O que fazer no meu tempo de lazer.

Você é abusiva quando faz com que eu me frustre por não conseguir corresponder às suas expectativas. E que eu lamente por ser a pessoa que eu sou, que eu me repreenda e tente me transformar em alguém que eu não queria ser. Que eu me odeie por isso. Me ache errada e me questione todos os dias: porque eu não posso simplesmente ser mais como a Mariazinha? Por quê eu sou esse monstro que causa tanto sofrimento na minha mãe?

Você é abusiva quando se utiliza de discursos maternais sobre como me ama e “só quer o meu melhor” para abusar do seu poder de mãe e revirar minhas gavetas, mexer no meu celular, olhar minhas mensagens, jogar minhas roupas fora, esconder meus batons. Dizer que eu estou horrorosa e vou passar vergonha saindo de casa daquele jeito, porque “é melhor ouvir da sua mãe do que de um desconhecido”. Ou quando me faz sentir culpa por existir. Porque “eu não sirvo pra nada mesmo”. Ou só existo pra te dar prejuízo. Fui um erro que você não compreende. A prova do seu fracasso. A concretização do alerta que todos te fizeram quando você optou por ser mãe solteira. “São todas putas” – eles disseram.

E, ah, as chantagens emocionais! Não podemos nos esquecer dos jogos psicológicos e das tentativas múltiplas de manipulação. Das lágrimas, dos choros e das ameaças.

“você não me ama”; “você só causa desgosto”; “você ainda vai me matar um dia”; “onde foi que eu falhei como mãe?”; “espero que um dia Deus me perdoe pela filha que eu criei”; “você não tem respeito por pai e mãe”; “é muito egoísmo da sua parte”; “porque você é tão ingrata?”; “não faz nada pela sua mãe”; “você não tem medo de ir pro inferno?”; “eu estou à ~isso aqui~ de não te considerar mais minha filha”; “lembre-se que você é sustentada por mim”; “enquanto viver nessa casa…”; “você não valoriza nada que eu faço por você”; “eu sacrifiquei minha vida toda por você e é assim que você me retribui?” “o que o resto da família vai fazer quando souber o tipo de pessoa que você realmente é?”; “não consigo olhar na cara das pessoas de tanta vergonha por ter uma filha como você”; “se eu morrer saiba que foi você quem me matou”; “e eu ainda faço questão de deixar uma carta por escrito dizendo que foi você, pra todo mundo ficar sabendo”.

Tudo isso pra conseguir o controle de volta e me fazer tomar a decisão que você gostaria que eu tomasse. Não pense nem por um segundo que eu estou tendo que ouvir essas coisas porque cometi algum crime terrível. Eu não estou bebendo, me drogando, me prostituindo ou reprovando de ano: coisas que jamais poderiam ser possibilidades reais dentro desse nosso lindo universo familiar tradicional brasileiro.

É apenas porque eu não quis cursar Direito no vestibular. É porque eu quis raspar o cabelo. É porque eu não me sentia bem usando vestido no Natal. Ou depilando minha perna pra ir pra praia. É porque eu não me calei na mesa de jantar diante daquele tio sexista ou homofóbico. Porque eu não quis namorar com aquele garoto que você escolheu. Porque eu coloquei aquele piercing ou fiz aquela tatuagem.

Não é amor. Não é preocupação. Não é educação. Não é saudável. Não é o seu melhor. Não é pro meu próprio bem.

É abuso.”

faz falta ser o que eu deveria ser

a gente nunca pensa no depois. a gente nunca pensa nas consequências que a vida trás e nos deixamos levar. logo no final percebemos que a gente não vê o mundo como ele realmente é. que a gente sempre cria uma habitat pra tentar suportar o verdadeiro retrato da vida, as verdadeiras coisas que acontecem ao nosso redor. sempre tentamos nos esconder atrás do que só existe pra nós. sempre tentamos ser demais, pra alguém que como diz naquela bela frase clichê “tanto faz”. a gente cria expectativas, e uma enorme ilusão pra alimentarmos o coração e no fim, não somos mais nós mesmos. no final, só somos mais um em meio a tantos outros que tenta se desfrutar da ilusão que criamos para alimentar a solidão.
no final a gente se esquece de nós mesmos
e percebemos que nos tornamos mais um pó alheio que o vento leva e é difícil voltar.
as luzes do mundo se apagam e a gente só quer gritar, mas ninguém ouve. porque eles estão no mundo que eles realmente queriam acreditar que existisse, pois a realidade dói e queremos esquecer deste mundo que nos corrói.
faz falta ser o que eu deveria ser. [eu mesma]

e.c

IMAGINE COM HARRY STYLES

―Você viu o Harry? ―Perguntei pra aquela que deveria ser a sexta pessoa que eu já fazia a mesma pergunta dentro daquela festa.

―Eu acho que vi ele passando pra..―Ela se virou e eu pude ver exatamente quem era.― Sn! ―Seu tom de voz chegou a mudar.

―Elise ..―Me esforcei em lançar um meio sorriso pra ela, que fazia questão de mostrar quão brancos seus dentes eram.

Por que mesmo Harry namorou ela?

―Então quer dizer que você e Harry já passaram pra fase pós termino de ‘apenas amigos’ ― Forcei uma risada como se fosse aquilo fosse uma piada, e não uma provocação. Eu queria estrangulá-la.

―Nós somos namorados.

―Ainda? ―Seria muito errado eu arrancar seus cabelos loiros agora mesmo? ― E você não sabe onde ele está? ―Ela deu uma risadinha.

―Não sou chiclete dele, nem irmã siamesa, então não. Estranho né?! ―Seu sorriso falso se desfez por inteiro. E eu sabia que ela estava pensando em um resposta.

―Você como namorada deveria saber o quanto Harry gosta de ficar na borda da piscina, talvez quem sabe com as pernas enfiadas lá dentro? ―seu sorriso vitorioso voltou e meu punho trancou, pronto pra atingi-la.

―Tudo bem ai? ― Gemma chegou por trás de Elise fazendo eu respirar fundo, assentindo sorrindo pra ela ignorando a presença de Elise ali e saindo. Fui para um caminho qualquer, despistando Elise, e logo me bateu a curiosidade.. Ela poderia estar certa..

Fui em direção ao quintal da casa, quase escondida e sim, ela estava certa.

Merda.

Mil vezes merda.

―Harry? ―Perguntei baixo aproveitando o quase silêncio dali já que a música que tocava na casa, não passava totalmente pela porta de vidro que dava a varanda. Me aproximei devagar dele que logo virou pra mim.

Pelo menos ele não estava com as pernas dentro da água..

―Estava te procurando.. ―Me aproximei mais dele, sentando ao seu lado. Ele ia me beijar, mas não estava disposta a isso agora, virando a meu rosto fazendo ele beijar minha bochecha logo me encarando estranho.

―Aconteceu alguma coisa? ― Fiz sinal de mais ou menos com a cabeça enquanto ele ainda me encarava.― O que foi? ―Seu tom era doce e apenas isso já derreteu meu ódio, que nem vinha por causa dele.

―Deixa pra lá.. ―ele negou com a cabeça puxando minha cintura, beijando a ponta de meu nariz

―Fala.. ―Harry se levantou dali, me puxando pra cima pelos braços. ― guardar é ruim..  ― Ele se sentou na poltrona branca próximo a piscina, e eu me sentei ao seu lado.

―Sua ex sabe mais de você  do que eu.. ― Envolvi meus braços em seu tronco, afundando um pouco a cabeça ali, envergonhada por estar sentindo esse desconforto.

―O que? ―Ele quase riu ― Você tá brincando né sn?

―Não Harry, não estou. Mas não quero falar disso. ―disse quase ríspida ainda sem o olhar. E por sorte ele ignorou meu tom, puxando-me pro seu colo enquanto se ajeitava na poltrona, eu apenas permiti que ele fizesse isso e logo estava agarrada a ele de novo.

―Sn isso não faz o menor sentido.. Você é minha namorada a um ano e 4 meses, eu fiquei 3 meses com ela. Você consegue identificar tipos de sorrisos diferentes em mim, e que pra mim são idênticos. Eu terminei com ela por que me sentia quase sozinho quando ela estava comigo e..

―Você era carente.. ― abaixei o olhar mais uma vez, vendo que Harry entrelaçava nossas mãos quase que brincando com meus dedos.

―Eu ainda devo ser. Mas você supre isso de uma forma maravilhosa. ―Sua mão foi ao meu queixo, fazendo-me encará-lo ―Não pense uma besteira dessas. ―Deitei meu corpo sobre o seu, levando minha outra mão junto as nossas mãos enlaçadas, envolvendo suas mãos ―O que te fez pensar isso?

―É que.. Eu.. Eu estava te procurando à uns 5 minutos e ao perguntar pra ela , ela adivinhou. E ainda jogou na minha cara o motivo.

―O que ela disse..? ―Harry cerrou os olhos ainda me encarando enquanto eu brincava com seus dedos

―Que você adorava ficar aqui e que eu como namorada deveria saber disso. ―Harry gargalhou, e eu cheguei a me assustar, encarando-o.

―Ela é doida..―O olhei estranhando sua risada ― Sn ela sabe que eu estou aqui, por que quando eu vim pra cá, eu avisei pra Gemma, pra avisar pra você se te visse procurando por mim.. Ela tava na mesma rodinha e deve ter escutado.

―O que? ―Agora eu também já ria― Então essa história de você gostar de ficar na borda da piscina é….

―Você acha q eu ia ficar olhando pra piscina por que motivo? ―Ele ainda ria, agora junto a mim.― E você acreditou ―Ele passou uma mecha de cabelo meu pra trás de minha orelha― Que bonitinha, cheia de ciúmes de mim..― Harry começou a beijar minha bochecha, explanando vários beijos por ali.

―Nem começa Harry.. ―ele me ignorou continuando a se divertir as minhas custas

―Recusou meu beijo por isso.. ― ele ainda me beijava― Você ficou toda inseguranzinha.. ―ele parou de me beijar e falava sorrindo enquanto eu o encarava tentando segurar o riso ―  Tão bonitinha essa minha namorada que ainda sente ciúmes de mim mesmo eu sendo praticamente um bobão apaixonado por ela.. ―Harry levou os lábios aos meus, eu acho que eu sorria entre o beijo.

―Meninos… Entrem!! ―Anne gritou um pouco da porta, fazendo o beijo se partir. Enfiei minha cara na curva do pescoço de Harry enquanto ele ria de minha situação  ―Tá frio e vocês vão ficar resfriados!

―Calma mãe ―Harry gritou de volta enquanto eu levantava de seu colo, olhei pra Anne que sorriu piscando pra mim, obviamente me deixando ainda mais envergonhada. E ela logo entrou de volta pra casa.

―Quantos anos vão ter que se passar pra você não ficar mais envergonhada quando minha mãe nos ver beijando?

―Uns sessenta talvez ―respondi rápida enquanto ele entrelaçava minha mão, ajeitando meu vestido me fazendo rir.

―Ainda bem.. ―Suas mãos foram mais uma vez pra meu rosto, beijando-me mais uma vez. E eu ainda sorria.

Se eu estou feliz, por que eu deveria mudar algo?

Eu demorei um pouquinho pra perceber que eu não preciso ser igual a todo mundo.

Demorei pra perceber que ser diferente não é um defeito ou algo errado, é ser original. 

Sempre me comparo com as outras pessoas. “Eu deveria ser mais assim…” ou “Eu deveria fazer tal coisa..”. O ponto é que eu não deveria ser nem fazer nada. Eu deveria ser eu mesma. Quantas vezes já fingi ser alguém que não sou com medo de ser rejeitada?

Ou, quantas vezes fingi gostar de algo que não gosto ou não gostar de algo que eu gosto muito só para agradar alguém? 

As coisas não precisam ser iguais para ser boas. 

Sabe, se eu estou feliz, por que eu deveria mudar algo? 

Temos que parar de mudar as coisas para agradar os outros ou para entrar em x padrão. 

Pare de mudar algo que você gosta por medo de que alguém não goste. A opinião que conta aqui é a sua, e deveria ser a única que realmente lhe importa.

Agora eu quero alguém para conversar; eu sei que tenho toda a minha lista de Facebook, tenho todos os contatos do whatsapp, todas as pessoas nos grupos e nos fã-clubes, tenho até mil endereços aos quais poderia mandar cartas se quisesse ser um pouco mais antiquada. Eu escuto A Rocket to The Moon, queria escrever um texto sobre a solidão que estou sentindo agora, sobre como preciso contar sobre as mudanças acontecendo em meu modo de falar, meu modo de agir, minhas relações com os outros, e até das que estão acontecendo com meus sonhos e como me julgo por não conseguir trabalhar duro para atingi-los, mas tudo que me sai dos dedos é uma cascata de caracteres que eu quero dedicar de novo a você. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo, só pra ficar par. 

Minha mãe me deixou em paz ao menos por essa hora. Acredita que eu esteja estudando para a prova de amanhã. Uma prova muito importante, diga-se de passagem. Creio que reprovarei pela primeira vez em minha breve vida, e o ruim? Não me aterroriza. Ser medíocre e gritar quando se escolhe outra pessoa e quando parece que deveria ser eu naquele lugar. Isso é tudo que sei sobre mim mesma. Eu estou tão sozinha que passei a observar o sol descendo por trás do prédio atrás da minha casa. Ou só a luz dele. De todos os lugares em que o sol poderia estar, que o predio poderia estar, e eles se alinham todo fim de tarde justo quando gostaria de tirar uma fotografia das cores. Como se conspirassem contra mim.

Não tenho a sensação de que alguém está conspirando. Tenho a sensação de estar eu mesma o fazendo, estar puxando meu próprio tapete. Você poderia ser algo maior, Emily, mas continua aí, com essa cara amarrada, xingando o mundo, ficando interessada em coisas que te darão futuro apenas superficialmente e quando há pessoas ao redor, querendo fugir pro outro lado do mundo só porque o seu lado lhe parece apertado demais, tão apertado que não cabe você. É nisso que eu penso quando deito em minha cama e escuto o silêncio depois dos fones de ouvido. Quietude é violenta. 

Eu sou meio tubarão. Movimento, movimento, movimento. Nade se quiser viver; se parar por um segundo, você morre. EU tenho parado demais. Me incomoda não poder ser fluida, não ser a resposta para todas as coisas, para as minhas e para as perguntas dele, não ser o bastante para apagar do caminho toda a dúvida e negação e me incomoda ser dura demais, depois de ver o mundo tão bonito como é, depois de chorar com doramas e me incomoda repetir essa maldita musica do A Rocket to The Moon.

Onde é que eu vou parar, mundo?

Onde é que eu vou continuar, mundo?

Sinceramente, e com o mínimo de subjetividade que consegui utilizar, Emily.

( quartetosetercetos)