despencar

Tudo já aconteceu, tudo pode acontecer e com certeza, de um pouco, tudo acontecerá. Eu te amo, você me ama e se esse amor que sentimos é reciproco um pelo outro pode a terra despencar e o céu desaparecer, que nós permaneceremos vivos eternamente; na luz das estrelas, no vento, na terra, na aguá e no fogo. Transformaremos nosso amor em imensidão e jamais haverá solidão, desespero ou medo; basta deixar o mais puro amor rolar e perpetuar.
—  lovee-romance
Eu vi minha vida ramificando-se diante de mim como a figueira verde da história.
Na ponta de cada galho, como um figo gordo e roxo, um futuro maravilhoso acenava e piscava. Um figo era um marido, um lar feliz e filhos, outro era uma poetisa famosa e consagrada, outro era uma professora brilhante, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro era Constantino e Sócrates e Átila e outros vários amantes com nomes exóticos e profissões excêntricas, outro ainda era uma campeã olímpica. E, acima de tais figos, havia muitos outros. Eu não conseguia prosseguir. Encontrei-me sentada na forquilha da figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia optar entre um dos figos. Eu gostaria de devorar a todos, mas escolher um significava perder todos os outros. Talvez querer tudo signifique não querer nada. Então, enquanto eu permanecia sentada, incapaz de optar, os figos começaram a murchar e escurecer e, um por um, despencar aos meus pés.
—  A redoma de vidro - Sylvia Plath 
PALAVRA ALEATÓRIA Nº 16: trilo e PALAVRA ALEATÓRIA Nº 6: vantagem

SLOW OUTRO

Eu fiquei contente
ao ver o seu mundo
despencar do seu
fácil, facílimo
imponderável
[dessas coisas de quem questiona vida]

SLOW OUTRO

solfejar os balidos, urros ou gemidos
trilo de uma série continuada
chamada azar

tem sempre um poeta metropolitano
desses que aparentam solidariedade
para com animais abandonados
e bêbados de porta de boteco
esses mesmos caras que dizem sofrer
elegantemente alhures
suas dores práticas de mictório com gelo e limão
escrevem umas bobagens que você adoraria ter escrito e adora
copiar e colar para amigos online no facebook da vida

Ao reconhecer o grito, um se dá por vencido. A minha partitura incompleta e poluída de ruídos - de uma dimensão onde o barulho condensado é chamado-música.

Imenso vergalhão fálico desaparecido - teria sido mito ? De quando eu te deixei me deixar sem compromisso, sem as marcas de quem supurou uma queda atrás de queda. Não tinha intenção de parecer ingrato ou emocionalmente ríspido, apenas aconteceu no exato momento para não constituir exageros e corroborar a imagem faustosa de (um) ser pensador elegante, roendo as unhas francesas do descaso em vou-pensar-a-respeito. Repito: ao reconhecer o grito, um se dá por vencido.

Poeta metropolitano de cabelos emaranhados e fala malemolente, geralmente carioca de nascimento e escolha, namora um travesti chamado Ana que atendia pelo sobrenome Boavinda. Era isso, ele marciano, ela Ana de Boavinda. Eu pensando em quem comia o cu do outro.

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Na verdade eu tenho colocado em xeque (cheque?) toda essa questão da escrita, daí a palavra me parece um sucedâneo ao tédio. Ao invés de cortar a garganta eu escrevo. Haraquiri. Dúvidas constituídas a partir do tédio constitucional. As instituições e as saravaidas de eletro-químicos que nos percorrem por segundo. A troca de sangue de Keith Richards. Cara Carol, eu costumava dizer citô artô virô bagunça, meio jocoso e totalmente inesperado, porque Artaud é nervo de pescoço, figurinha difícil. Gosto muito de um escritor BEAT esquecido chamado Carl Solomon que viu ele palestrando publicamente em Paris. Lembro de uma anotação de Buñuel dizendo que o viu na fila do metrô, também em Paris, falando sozinho e decidiu, não tão inesperado, não incomodá-lo. A questão de porque a palavra tem alguma vantagem. Talvez nenhuma, tangencie o silêncio, como a própria falta dela, ou delas - as palavras. Eu dizia a frase como boutade provocativa por natureza. A coisa era vitimada pelo ranço estético escolhida a dedo pra provocar mal-estar em certas pessoas. Eu e minha ex-. Eu sempre associei à escrita um silencioso sentimento de repulsa e vingança. Eu escrevo anjo torturado para diante de um altar sacrificar minhas vestes, minhas epopeias mentirosas, minhas abstrações enervantes. Julguei classificá-la diferente mas foi tudo em vão, naturalmente. A provocação advém da dúvida em se manter estável ou propalar um sinal conhecimento das árvores e da concretude das cidades. Hoje enalteço um lema para amanhã de manhã conjurá-lo num esquema contrariado de memória. Escrevo por saltos e sustos > antes de dormir um Rivotril ajuda a acalmar minha mente. Portanto classifico inútil qualquer palavra, porque diante do cheiro, da sagacidade de um isqueiro que conta-gotas os dias de sua vida inflamada, eu preciso, eu penso em subterfúgios. Aleivosias. Um vocabulário bom para substanciar querelas mal-resolvidas. Acho que vem daí toda intenção de escrita. Talvez ordem não seja a palavra certa > talvez estando mais para maçaroca qualquer de individualidade digerida em surras de pau-mole. A lembrança de uma piada infame. Um relacionamento inteiro e sua duração lastimável. Aquela coisa de admissão, ir em público, no  púlpito dizer que gosta de tal pessoa por x e y motivo. Aquela confusão em sentenciar a si mesmo uma morada desgarrada da sociedade maquínica da fôrma que ela funciona. Os acentos, as vírgulas, a decomposição silenciosa dos dias virados em noites. Um copo vazio de alento e uma sinuosa curva extravagante naquele mapa mental que você traçou em soturnas elucubrações noturnas - polução da mentalidade congruente com números e dívidas kármicas de plantão. A palavra julga, a palavra determina um fim, o ser em si é estado de algo pré-concebido, portanto temos valor ao declarar o simples fator de evidenciá-la. Ela palavra-mãe da vantagem em ver passividade e aceitação. Artaud me remetia à um estado que eu não gostava, um estado elíptico de repetições e sangrias - nome, afogamento, asfixia. Tudo girava em torno de ti. Tudo soprava seu nome, um bafo quente no meu colarinho desmedido. Assim eu progredi fazendo associações uniformes, associações sacais, nas quais às vezes eu acertava, outras dava com burros n'água - oceano de promessas não-cumpridas. Eu gostei, eu sofri, eu inventei cargas de condicionamentos da pele, do corpo, do pulmão, chain-smoking, rumo à um final trágico que auscultei do meu peito usando apenas uma colher. A coisa do peito e da dor e a depressão de amores perdidos. Tudo em vão pergunta-se o poeta condoído. Anormalidades das paralelas que invejo admoestar em sua finalidade própria de levar o zelo à um lugar-algum-qualquer. Anywhere else em bom inglês > a língua do mercado, a palavra do dinheiro. Denaro. Ítalo compleição sanguínea. Não-existente no dicionário oficioso das palavras em vantagem adicional de serem cumpridas. Porque palavra expressa ordem, a vontade de quem controla e detêm o poder do significado contido em cada uma delas. Me deu febre e vontade de exprimir um pouquinho a solitária busca de um escrevente loquente, loquaz, assaz qualificado para saltos mortais dentro de um contexto fixo de (novamente a palavra) asfixia. Acho que é isso, a vantagem está em exprimir um modelo condicionado ou tentar fugir do mesmo. A ordem sempre em pregresso retrocesso de dúvida e dívida com algum ente destemido que teimamos imaginar como parte de nossa prosódia histórica guia médica. Artaud e seu têátro da crueldade me pareciam uma exortação do mal na arte. Eu era um bom ciclista juvenil, parece ser o mote das gerações eco-conciliadoras daqui pra frente, de fronte em fronte - a morte como estação primeira das veredas mágicas imaginárias de um sol poente a luzir todas memórias turvas compactadas em devir-inocência novamente … o mundo gira. Tudo sofre. Toda palavra gasta um resquício de presença sobre humana, sobre-humano. Alguma coisa vai dar essa insensata procura por um canal certo de comunicação. Entes queridos se canibalizam verbalmente, da mesma forma que temos os daimons temíveis por contestar em nós aquilo que achávamos seguro. Porto-seguro maior de qualidade asinina. Escrevo em dúvida mas tenho a palavra como prova de que sou vertical, assinalado horizontalmente por percalços, estalos de dor, novamente a sangria desatada em nós, a repetição turva, o fibrilar dos signos constituintes. Prazer Calabar em ser, provação de cânticos e litanias passadas. A memória em estágio líquido contamina meus lençóis de areia. O tempo urge coincidindo termos e trovejar de solilóquios impropérios. Às armas às armas é igual a palavras em forma textual. Fôrma impressa ou expressa na tela de seu computador.

Eu jurei não me apaixonar, mas desde quando coração tem ouvido ?

Mas como juga-lo, eu encontrei alguém que até os defeitos são perfeitos, que o sorriso e meu raio de sol e a cara de bravo e meu anoitecer, desculpa mas eu sou fraca, sou dessas que ama, que cuida, que chega a ser a trouxa, que não quer pensar nas consequências, que escolheu esquecer aquela gritante data de fim, e especialmente esquecer que você não e duravél e que isso me fez te querer mais, que me instigou, me tirou do chão, te fiz meu chão só para ter o prazer de despencar com classe. 

Adeus amor de outono. 

Se deixe levar no caminho do mar no embalo do vento, sem encher a cabeça e despencar em silêncio, só deixe levar.
— 

Izadora Schurhaus


(29/05/2015)

Tudo já aconteceu, tudo pode acontecer e com certeza, de um pouco, tudo acontecerá. Eu te amo, você me ama e se esse amor que sentimos é reciproco um pelo outro pode a terra despencar e o céu desaparecer, que nós permaneceremos vivos eternamente; na luz das estrelas, no vento, na terra, na aguá e no fogo. Transformaremos nosso amor em imensidão e jamais haverá solidão, desespero ou medo; basta deixar o mais puro amor rolar e perpetuar.

Alguém me explica o que se passa nessa minha realidade de dúvidas e incógnitas, por favor. Se o que eu vejo é que eu acho que é e se eu estou realmente feliz como eu acredito que estou. Alguém venha conversar sobre aquele filme fofo ou o livro complexo ou a série grotesca, apenas para me livrar dessa pressão sufocante que é estar sozinha e paralisada. Se as lágrimas que se acumulam atrás de meus olhos são meramente um resultado de tristeza ou da minha incapacidade em manter-me inteira sem despencar como um quebra-cabeças frágil. Admito que tenho medo da palavra e não quero usá-la, pois palavras possuem poderes extraordinários tanto quanto atos. Prefiro lidar com a sensação apática ao ouvir uma música de sofredor, de tristeza ou de amor, do que tentar entender como ela surgiu (ainda que eu faça exatamente isso em meus momentos sozinhos e paralisados). Que rumo tomar quando o ar falta e a decepção com a pessoa errada acaba com o seu humor? O que fazer quando a música romântica o faz sentir falta de algo que você deveria ter, mas nunca existiu?

O calor perdura nos olhos amáveis,

tanto quanto o sorriso na boca simpática.

Mas me diga que não mente,

que o interesse no diferente não o distrai,

que ainda há a memória do que pode funcionar.

apenas um pouco,

deixe funcionar.

M. P. Miranda, 27.05.15

Largo do Machado Impressionista

O maravilhoso momento de pegar os óculos novos na ótica mas não poder sair de lá usando eles porque não se enxerga absolutamente nada com os óculos novos, mas se são os meus óculos novos, feitos sob medida para mim, e se tendo sido feitos sob medida para mim, por que os quadrados estão trapézios e as pedrinhas portuguesas do chão estão na altura da minha cintura e a moça da ótica cabeçudíssima tipo num efeito de photobooth e o largo do machado é um quadro impressionista que eu não sei se está longe ou dentro de mim e as crianças de colo agora têm quadril tão largo e a banca de jornal vai despencar a qualquer momento sobre a casa do pão de queijo e você pede pra moça confirmar se a lente está certa porque você quer o seu mundo antigo de volta e ela confirma que a lente está certa mas o seu mundo antigo não obedece a essa informação, mas e se meu grau não mudou de lá pra cá e se com meus antigos óculos eu via bem o antigo mundo, por que é que não vejo nada com esses se são os mesmos até certo ponto e quem foi que contou pros meus olhos que esses são os óculos novos e será que estão tímidos por falta de intimidade com o objeto novo ou eram meus óculos antigos que estavam gastos de tanto ver e tem o tempo dos novos aprenderem a andar, ou são os óculos dizendo pro cérebro uma coisa que ele não quer escutar, e se eles foram feitos pra servir para mim, por que parecem ser os de outra pessoa, e será que isso não aconteceu de fato, será que em algum lugar do mundo agora alguém estranha o mundo através dos meus olhos extraviados sem saber que os dele estão comigo?, e o que mudou em mim que se desacostumou à correção de um defeito que é meu, por que enxergo melhor sem a correção do que com ela?, como se meu cérebro rejeitasse a colherada de remédio que eu lhe ofereço, ou será que ele não gostou foi da armação?, e a moça só me diz é assim mesmo daqui a pouco passa e eu sei que a moça tem razão que é assim mesmo e daqui a pouco passa, mas e quem é que cuida de mim enquanto o daqui a pouco fica, a moça não está dentro dos meus olhos, e eu também não sei como a moça me vê, e esse mistério de que meu corpo sou eu existindo e de que quando eu morrer é porque foi ele que parou.

Depois de cair incontáveis vezes, de se pendurar nos fios de esperança que falsamente te davam e despencar para a morte sentimental, eu me acostumei a desacreditar nos sonhos. Na verdade, eu não diria que deixei de acreditar neles, mas, acordei de alguns. Quanto mais se cai, mais se criam cicatrizes, e quanto mais se olha para elas, mais tememos cair de novo. O amor é isso: uma queda inevitável. A diferença é que uns caem nas nuvens e outros no chão.
—  Welber Oliveira
Areor

Tolo é o homem que teme a altura, mas não teme o tempo.
Visto que é irrisória a possibilidade que seu corpo impacte o chão dum ponto alto.
Mas é certo que seu corpo impactará a inaptidão.
E se os metros podem ser escapados pela resistência em fincar-se no que é baixo,
é impossível fincar-se no agora, exposto que o agora já se tornou a pouco.
Se olhar do alto um chão composto de figuras miúdas lhe causa vertigem,
contemplar duma hora pra outra o passado se fazer majoritário na corrida do chronos causa o vômito do medo do vindouro.
O medo da altura é inconclusivo, teme o que pode vir a ser, é expectativa
já o medo do tempo é palpável pelo espírito que sente-se estremecer diante sua cotidiana putrefação.
Mas assim como o corpo em livre despencar, o tempo assim como os metros, só contabiliza a véspera do inevitável fim.

- Ramos

Tudo já aconteceu, tudo pode acontecer e com certeza, de um pouco, tudo acontecerá. Eu te amo, você me ama e se esse amor que sentimos é reciproco um pelo outro pode a terra despencar e o céu desaparecer, que nós permaneceremos vivos eternamente; na luz das estrelas, no vento, na terra, na aguá e no fogo. Transformaremos nosso amor em imensidão e jamais haverá solidão, desespero ou medo; basta deixar o mais puro amor rolar e perpetuar.