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Figurinhas do vazio intelectual, parte 2: Pondé

Luis Felipe Miguel

Um colega se perguntava, dia desses, por que a direita brasileira, que tem tantos quadros bem formados e competentes, opta por se fazer presente no debate público por meio de um punhado de palhaços. A resposta, claro, é que intelectuais sérios se prestam à discussão e ao debate. Mas a direita quer líderes de torcida, que esbravejam as palavras de ordem e as ofensas que seus seguidores apenas repetem. O primeirão da lista, sem dúvida, é o eterno Olavo de Carvalho, com seu festival de anticomunismo delirante, antifeminismo, homofobia, fanatismo religioso e demonstrações de “macheza” por meio da apologia à prostituição ou da matança de ursos bebês. Mas o disputado segundo lugar provavelmente cabe a Luiz Felipe Pondé.

O obscuro professor de uma universidade privada ganhou certa notoriedade depois que um jornal paulista decidiu lhe conceder uma coluna. Neste espaço, Pondé se dedica sobretudo a vituperar contra o feminismo, que estaria desviando as mulheres de sua verdadeira vocação, servir de objetos de prazer para os homens. A mistura de catolicismo ultramontano e fetichismo sexual é o segredo do colunista, o que lhe concede “charme” diante de seus leitores.

Um ponto alto na carreira de Pondé ocorreu em junho de 2013, quando, na coluna “Bonecas de quatro”, ele denunciou o moralismo do movimento feminista, que anunciava defender a liberação das mulheres, mas preferia regular sua sexualidade. Infelizmente para o professor, a líder feminista com quem ele polemizou não existia – era um fake criado por humoristas. Não devia ter sido tão difícil perceber isso, quando menos pelo fato do vídeo estar disponível numa página chamada Bobagento.com. Criticado pela então ombudsman do jornal, Pondé não teve a dignidade de se retratar. Respondeu como menino embirrado, dizendo que era aquele fake que revelava o que as feministas realmente pensavam. Típico: ele julga que as feministas precisam de Pondé para dizer o que elas realmente pensam.

Escrevo sobre Pondé porque, no começo desta semana, ele nos brindou com um texto que talvez nem esteja no top ten das asneiras que comete, mas que causa uma especial repugnância. Comentando um livro de um tal Bruce Bawer (que o Google me contou ser um ativista gay conservador), denuncia que as ciências humanas fazem um culto às vítimas sociais, só se preocupando com “Raça, gênero e classe” (que é o título do texto). Cabe perguntar porque é um problema se as ciências humanas se ocupam dos principais fatores de estratificação social, injustiça e opressão existentes na sociedade.

O entendimento de que esses padrões geram sistematicamente assimetrias, exploração, penúria e cerceamento à liberdade de milhões de pessoas não é, no entanto, um “culto às vítimas”. É necessário para uma compreensão mais clara do mundo social e, nos melhores casos, também das estratégias para transformá-lo. Mas é óbvio que essa discussão não está ao alcance de Pondé. Ele se refugia no apego à universalidade, aquela que funde Warren Buffet e o catador de lixo, afirmando que o que importa mesmo é “aprender quem somos e como lidar com essa nossa humanidade atormentada”. Mas atormentada não pela miséria, pela discriminação ou pelo preconceito, e sim por alguma essência misteriosa e diáfana.

Com isso, Pondé se sente à vontade para se deslocar para o terreno fácil da denúncia dos estudos culturais, sempre apresentados por meio da caricatura fraudulenta. Quem, a não ser os fantasmas da direita delirante, diz que Shakespeare não é um gênio e sim um “opressor branco e heterossexual”? (Nem se sabe, aliás, se ele era mesmo heterossexual.) É possível discutir por que o cânone literário inclui tão poucas mulheres e tão poucos negros; é possível mesmo discutir por que aquilo que a alta cultura identifica como sendo a experiência “universal” é a experiência de um grupo bem específico, a saber, homens brancos burgueses heteros. Pondé talvez respondesse que trabalhadores, mulheres e negros são “naturalmente” incapazes de realização estética. Acredito serem mais convincentes as explicações que apontam para barreiras sociais e preconceitos. Seja como for, reduzir a discussão à ideia de que existe um “politicamente correto” que vê em Shakespeare apenas um ícone da opressão é burrice, má fé ou (a melhor aposta) uma combinação de ambos.

Ao final do texto, em mais um corcoveio desvairado, Pondé assenta suas baterias sobre Paulo Freire – que ele não discute, claro, apenas acusa de ter sido tiete de ditadores comunistas sanguinários. Mas ninguém em sã consciência pode negar que, para além de sua filosofia política emancipatória, o educador brasileiro criou um método altamente eficaz, que faz do alfabetizando não o objeto de uma técnica, mas um agente de sua própria vida. Freire entendia que o reencontro do humano com um possível universal passa necessariamente pela superação das privações e injustiças que negam a tantos a possibilidade do exercício da autonomia.

Paulo Freire e Luiz Felipe Pondé encarnam dois tipos antagônicos: o intelectual engajado, que defendia suas posições no debate público, e o pseudo-intelectual midiático, que solta gracinhas para a patota e tem como ferramentas privilegiadas as simplificações grosseiras, as falsificações, os ardis desonestos. A ombudsman da Folha não devia ter ficado chocada: Pondé só polemiza com fakes – se não são as pessoas, são os argumentos, que ele distorce a seu bel-prazer. Faltam-lhe estofo, estatura e honradez para um verdadeiro debate de ideias.

(5 de março de 2015.)