desenho feio

Li três textos hoje. Os três falavam de tédio e tristeza. Os três falavam de lágrimas, solidão e vazio. Talvez, eu tenha mencionado todos esses fatores nos meus últimos textos. E nos meus primeiros também… Mas é que todos os seres humanos tem algo em comum: a existência. Fria e transmissível como um gripe, de fato. Hoje, além do três textos tristes, eu vi também um ambulância de maternidade, com a sirene ligada, provavelmente com uma moça em trabalho de parto dentro. Sorri. Gostaria de estar lá dentro com ela. Partos. Eu odeio partos. São poesias sendo expelidas do corpo, com mini perninhas, às vezes desejadas, às vezes não, assim como eu. Todos os bebês são pequenas metáforas antes de escreverem seus próprios textos tristes, assim como eu. Mas gosto de pensar que aquela mulher cresceu, sonhou, amou e alimentou dentro de si o desejo de ser mãe. Gosto de pensar que ela estava gritando de dor, com as pernas abertas para estranhos, absurdamente vulnerável, porque tem que ser assim, assim como eu, você, nós. Dou à luz a tantas coisas tristes: tédio, lágrimas, solidão e vazio. Todos os dias estou com o coração crescido, esperando algo me explodir e querer sair por todos os buracos vulneráveis e atraentes da minha alma. Eu penso na minha mãe, coitada, parindo algo que ela jamais quis parir. Vomitando sua poesia incompleta ainda, gritando de dor, sangrando, igualando-se a um animal, tão nova, tão bonita, envergonhada de suas entranhas, envergonhada de seu ventre expelir algo tão clichê quanto, adivinhem, eu! Eu gostaria de dizer pra minha mãe que ainda busco completar a poesia que ela começou e não teve tempo de terminar. Ainda busco acordar de manhã e encontrar um sentido pra minha vida. Mães gritam e esquecem da dor com um choro. É a vida em seu estado bruto, cru, nu, bonito. Longas horas de agonia e, no final, um sopro de felicidade que vem em forma de outro choro, envolto em sangue, visceral, minúsculo, o primeiro texto triste da vida de um novo ser humano. Partos são metáforas lindas. São reais. Mamãe abraçou sua metáfora incompleta e me amou com todas as forças que tinha. (Entendo que ela tinha poucas forças. Eu também sou fraco. Mas amo mesmo assim. Eu sei como é). Mamãe amou sua obra incompleta, como uma criança que ama um desenho feio, como uma adolescente que se apaixona por um cara errado na escola, como um idiota que escreve textos tristes. Meu choro abafou o choro dela. Agora, a vida era problema meu, meu e de meus textos tristes. Mas hoje, após ver aquela ambulância da maternidade, eu quero dizer algo para a nova metáfora que veio ao mundo… Eu quero dizer, amigo, que essas lágrimas vão cair centenas de vezes e que respirar dói ainda hoje. Mas eu quero dizer também que a gente consegue sobreviver mesmo sendo incompleto. A gente consegue ser feliz, mesmo escrevendo textos tristes. A gente consegue parir centenas de coisas com os buracos da alma, e amá-las, assim como, aos poucos, eu consigo amar a mim mesmo, com toda essa incompletude, essa confusão e essa impotência asquerosa. A gente consegue dar uma pausa na solidão e e aproveitar a companhia de alguém, a gente consegue esquecer de tudo através do álcool ou da bíblia (o que você preferir adorar), a gente consegue ser feliz fazendo sexo, mesmo que do sexo nasça outra poesia, completa ou incompleta, para preencher o eterno vazio do mundo. O mundo, inclusive, lê suas poesias rápido demais. É incessante. Então, amigo, você não é o último cara da terra. Você não é o único texto triste que li hoje. Eu quero dizer, amigo, que hoje eu vi uma grandalhão passeando com um filhote de cachorro na rua. Hoje, eu fiquei feliz porque você tava chegando! Dá pra ser feliz, entende? É difícil, mas dá. Dá pra ser feliz, amigo. Você consegue amar até mesmo aquilo que dói. Olha pra sua mãe e vê como ela tá chorando enquanto te olha. De dor ou de felicidade, que seja. Mas ninguém escuta o choro dela, apenas o seu. Não esquente com isso. Os choros abafados, uma hora, serão os seus. Os choros do seu velório serão mais altos do que a sua tristeza velada. Mas por enquanto, pequeno amigo, este texto não é um texto triste em sua homenagem.
—  Cinzentos

A pedidos da querida Clara, @traqueostomia, estou postando essa ilustração que coisei para ela presentear o boy uns meses atrás. (insira flores aqui). 

Texto super bacana escrito por ela e desenhos flopadíssimos feios por mim.

(espero que a minha péssima caligrafia não atrapalhe (muito) a leitura) 

Pessoas que sabem desenhar me irritam porque sempre acham que o desenho está feio, e ai quando você vai ver descobre que não conseguiria fazer igual nem que tentasse durante cinquenta anos.