des afinado

Eu fumaria, se ela gostasse do cheiro de nicotina e beberia, se ela preferisse álcool a suco Tang. Eu pularia da ponte se ela gostasse de esportes radicais e faria jornalismo, se ela dissesse que achava cronistas encantadores. Eu riria com tudo, se ela dissesse que minha risada lembrava o canto de uma cigarra bem afinado. Eu viajaria da mata ao mar, se ela quisesse conhecer o mundo. Eu roubaria as estrelas do céu, se ela acreditasse em poemas como acredita que a terra é redonda como uma laranja. Eu até beberia leite, mesmo sabendo que sou alérgico a lactose, e comeria queijo de cabra, mesmo não gostado nem de queijo, nem de cabra. Eu calaria as vozes do mundo só para ouvir a voz dela harmonizada com a minha e compraria alto falantes e gravadores para ter em todo lugar suas palavras fazendo carinho nos meus ouvidos acostumados ao som de carros, motos e batidas policiais. Eu sairia da cidade, moraria no campo, teria uma casa com jardim e uma horta com todos os legumes que ela gosta. Eu teria um coelho de estimação e, se ela quisesse, uma tartaruga chamada Caetana. Eu dormiria do lado esquerdo se ela preferisse o direito e leria meus poemas todas as noite até ela pegar no sono. Se ela dormisse, eu dormiria. Se ela acordasse, eu acordaria. Se ela quisesse, eu a amaria. Sim, amaria. Eu não aguento esses verbos conjugados assim. Iria. Seria. Poderia. Porque o amor quer mais fatos e menos argumentos.
—  Theu Souza