depois ajeito

PARTE I - Anna

“Ana,     

Não sei até que ponto isso te surpreende, considerando que eu não sei mais o que você espera de mim e o que deixou de esperar faz tempo. Você pode achar que não, mas você é a garota mais forte que eu conheço – você sabe fazer suas próprias decisões sem qualquer erro de cálculo. Você já é crescida, Anna. Eu que sou o menino que não sabe o que fazer com uma mulher nas mãos. E mesmo quando, lá no meio da conta, você trocou um mais por um menos, você sabe o que fazer com a situação. Mesmo que qualquer calma que eu possua no meio corpo se esvaia no momento em que seus olhos se sobreponham aos meus, do seu lado eu sempre senti segurança. Você tava certa – não que isso seja novidade. Você realmente é o ponto seguro da minha vida. Incluindo família, amigos… Todas essas coisas. Mas você errou, Anna. Errou feio demais para que eu admita você viver com esse erro. Nunca, em nenhum universo, eu senti o que senti por causa da segurança. Você gosta de pensar que é a sofredora que amou sozinha, enquanto eu só busquei alguém para me tirar do abismo. Eu te amei, Anna. Eu te amo. O resto só veio de bônus. Nunca planejei te ligar bêbado, fazer você me aturar enquanto eu cato a primeira saia que passa na minha frente. Nunca quis que você me esperasse. E, eu odeio mais que tudo admitir isso… Você teve todo o direito de não me esperar. Eu não devia ter brigado com o seu namorado, apesar de saber que eu nunca descansaria enquanto não o fizesse. Eu não devia ter te perseguido durante todo esse tempo, colando bilhetinhos na sua geladeira e te prometendo que, daqui pra frente, seremos só amigos. Eu não quero só amizade. Eu quero muito mais – acho que não existe nem nome pra isso que eu sinto. É corpo, alma. Tudo. Não existe um único milésimo do meu corpo que não esteja implorando por você nesse exato momento. Implorando para que eu deixe de ser estúpido e assuma a posição que qualquer outro garoto já teria assumido.

Eu nunca me arrependi, Anna. De nada. A cada segundo eu tenho mais certeza de que te conhecer foi a melhor coisa que já me aconteceu. Mesmo que às vezes seja, também, a pior. Você mudou minha vida completamente. Me pôs de cabeça pra baixo. Eu não sei quem eu era, antes de ser você. A única coisa que eu nunca deveria ter deixado acontecer, foi te entregar de bandeja pro primeiro filho da puta que ousou se meter no nosso caminho. E eu fui idiota o bastante para achar que isso mudaria alguma coisa… Não mudou. Se mudou, foi pra pior. Eu mal dormia, Anna. Mal respirava sem que seu rosto me viesse a cabeça. E eu cheguei até mesmo a pensar que você tinha mesmo me esquecido… Mas não. Eu sei que você ta rindo e sussurrando “Isso é tão a cara dele”, mas é a verdade. Não quero soar presunçoso nem nada. Você que me ensinou isso: amor só é amor quando vem dos dois lados. Nunca é uma estrada de via única. E eu sei muito bem o que eu to sentindo, Anna. Por isso eu tenho certeza que você sente também. Mesmo quando eu duvidei… Teus olhos sempre te entregaram. Eu sei que você vai odiar ouvir isso, mas mentira nunca foi teu forte. Não para mim, pelo menos. Eu não espero que você receba isso com os braços abertos e um sorriso no rosto. Deus sabe como eu sei o quanto você vai ficar furiosa ao abrir essa carta. Mas… Eu quero uma competição justa. Mesmo que eu não mereça isso, eu quero tentar mais uma vez. Pra sempre, se for necessário. Enquanto houver o mínimo de esperança, eu vou lutar, Anna. Eu vou lutar por você.

E foi por isso (não só por isso, mas enfim…) que eu percebi que, independente do quanto eu me esforçasse e do quanto você pode me odiar por isso e da possível surra que eu não vou levar, de forma egoísta e infantil, eu não poderia deixar de te mandar esse presente (são suas favoritas, não são?). Pra você saber que quem ta na bandeja, dessa vez, sou eu. Pra você ter certeza de que nada mudou. Você, Anna, é minha eterna namorada. Mesmo que a gente nunca tenha assumido o namoro, mesmo que, talvez, a gente nunca assuma. É de você que eu vou lembrar toda vez que perguntarem quem foi a mulher que pôde fazer um cara como eu verdadeiramente feliz. Eu não mereço você, você tava certa. Você sempre teve certa sobre montes de coisas que eu nunca fiz ideia. Você sempre foi a única coisa que fez sentido durante todo esse tempo. Eu não tinha mais esperança, Anna… Você me salvou. É o teu nome que eu vou responder toda vez que me questionarem sobre quem conseguiu me fazer voltar a vida. É de você que eu vou lembrar toda vez que eu assistir alguma comédia romântica estilo água e sal. Toda vez que eu passar por uma livraria e perceber que, até hoje, eu não consegui terminar o livro que você me emprestou. É você que vai vir a minha cabeça quando alguma morena tropeçar na rua e rir do próprio desajuste. Você, sempre você.

Sei lá, eu não sou tão bom nesse negócio de escrever. Não como você. Então… Desculpa não tá tão bonito assim. Aposto que o seu namoradinho faria melhor. Mas, Ana, o que vem dele nunca vai ser tão sincero quanto o que vem de mim. O que vem dele não vem do coração de um homem completamente desesperado e lutando para que essa não seja a última vez que eu escreva teu nome.

Feliz dia dos namorados.

Sinto sua falta,

Henrique.

P.S.: eu sei como você odeia erros de ortografia, por isso, resolvi checar as palavras no Google Tradutor. Agora que eu não tenho mais você para me dizer como se escreve.”

Eu não sei até que ponto a minha respiração se elevou, mas sei que foi alto o bastante para que eu começasse a arquejar e precisasse me sentar para administrar o ódio que rugiu dentro de mim. Novamente, você se atreve a atrapalhar completamente o meu dia com a melhor coisa que eu poderia receber. Novamente, meu coração dispara por aquilo que eu não deveria sequer tremer. E logo hoje, quando a gente podia ta comemorando mais um dia dos namorados. Totalmente desperdiçado. Porque o cara que está ao meu lado, nesse exato momento, não tem os cabelos pretos e olhos que mais parecem um oceano. Ele não possui mistério algum, nem nenhuma tatuagem pra mostrar seu lado sentimental. É tão transparente quanto aqueles copos de cristal que fazem barulho quando a gente brincava de assoprar neles. E eu não vejo problema algum nisso – já cansei de ficar sendo obrigada a decifrar cada passo em falso que você dava a cada segundo. É bom não precisar me preocupar com a maneira que ele acordará amanhã. Eu sei que nos seus piores dias, o seu humor comigo continuará o mesmo. Independente do quando chova do lado de fora. Com você, eu nunca tive qualquer certeza.

Então, por que diabos eu não consigo fazer minhas mãos pararem de tremer?

- Quem era, Anna?

Levanto meus olhos e encontro aquele que deveria ser o motivo de todos meus sorrisos e essas coisas melosas. Mas não é. Eu queria tanto, tanto, que fosse. Queria tanto ser capaz de facilitar minha própria vida. Mas não. Coração de masoquista nunca fica contente com o sofrimento que recebe. Sempre precisa de mais.

- Ninguém importante, Ber. Ninguém.

Mas mesmo quando eu pronuncio essas palavras, posso ver seus olhos se desviarem de mim e irem ao encontro do buque enorme de rosas vermelhas que estavam ao lado das tulipas brancas. Até mesmo eu posso sentir a minha voz distante, como se sequer tivesse ouvido a pergunta.

- Eu não sabia que você gostava de rosas.

Isso é porque você não sabe nada de mim.

- É irrelevante, Bernardo.

- E você não tremeu assim quando fui eu a te entregar… Droga, Anna. Quem foi que te deu isso? – ele se distancia do sofá em que eu estou sentada, porque eu não encontro forças para responder. E não seria preciso. A irritação estampada em sua cara já demonstrava o quanto ele sabia de quem eram as rosas. Honestamente, de quem mais? – Por que… Por que você continua vendo esse cara, Anna? O que há de tão especial nele, que você não consegue se desligar?

- Eu não vejo mais ele. – Sonhos não contam, certo?

O olhar cansado e irritado pousou sobre mim novamente. Eu esperava qualquer reação vinda do meu corpo. Tremedeira, calor. Qualquer coisa que me desse a esperança necessária para eu acreditar que sentia algo por ele.

Nada.

- Então, olha nos meus olhos e diz que não quer mais nada com aquele vagabundo. Olha pra mim e diz que essa carta não é dele e que você não quer sair correndo agora mesmo. Porque eu não vou ficar aqui, se isso não é o que você quer que eu faça, Anna. Esse era pra ser o nosso dia. O restaurante já tá reservado fazem semanas. O que mais eu preciso fazer para que você saia de cima do muro?

- Não tem muro nenhum.

- O que isso quer dizer?

(Silêncio.)

Mil coisas poderiam ser ditas nesse momento. Desde o perdão até a mais suave e brutal mentira de todas. Eu sempre fui boa em mentir. Porém, algo dentro de mim me impedia de abrir a boca para negar todo e qualquer sentimento que ainda existisse dentro de mim. Eu podia desfazer o que havia saído sem querer da minha boca. Como os amaldiçoados não podem dizer palavras sagradas, eu não podia mais renegar o que eu realmente queria fazer. Não mais do que poderia mentir para mim mesma. E, mesmo que pudesse, eu apenas não queria. Por mais idiota que fossem os meus motivos, e por mais que eu não fizesse ideia do que eu estava fazendo, eu sabia que havia apenas uma coisa a fazer. Apenas uma que acalmaria meu coração e minha alma.

Mesmo que eu fosse me arrepender depois.

- Desculpa, Bernado.

E foi aí que eu saí pela porta.

 

PARTE II – Henrique

Hello dare, the angel from my nightmare the shadow in the background of the morgue the unsuspecting victim of darkness in the valley…”

Pelo que me parece ser a décima terceira vez nessa tarde, o meu celular toca e a música destrói meus ouvidos. Não sei porque, mas ainda me presto a levantar a cabeça e olhar o visor apenas para descobrir que não é seu nome nele.

We can live like Jack and Sally if we want, where you can always find me and we’ll have halloween on Christmas… And in the night we’ll wish this never ends…”

1, 2, 3.

We’ll wish this never ends.”

Ligação perdida.

Eu nem mesmo sei quem era essa tal de Roberta me ligando, mas as paredes do meu quarto com certeza são mais interessantes do que a voz de Barbie falsificada que essa garota, provavelmente, venha a ter. E, de qualquer jeito, eu não poderia ver ela nem qualquer outra das dez que tentaram ligar. Não hoje. Eu não sei em que ponto da minha vida isso começou a acontecer, mas, do nada, eu resolvi ser fiel a alguém com quem eu nem mesmo tenho um relacionamento. Isso soa tão gay quanto parece?

Porra.

Mas eu sei que, não importa o quanto eu ache isso estúpido, eu vou continuar deitado e esperando a ligação de apenas uma pessoa. Anna. É ridículo, e parece que eu estou num daqueles filmes estilo Disney, em que o garoto se apaixona quando ela não quer mais saber dele. Mas, honestamente? Era exatamente como um desses protagonistas injustiçados que eu me sentia. Não era hora para me preocupar no quanto isso era coisa de menininha… Pela primeira vez na vida, eu me importava com algo. Algo realmente tinha significado para mim. E eu não desperdiçaria isso por nada.

Só que não há nada que possa ser feito, caso ela não queira também.

Acho que eu devo ter ficado mais uns quinze minutos deitado na cama, olhando para o teto escuro e sem fazer nada além de respirar. Tentando até mesmo não pensar, se possível.  Quem sabe dormir e esquecer que dias como hoje existiam. Dias em que eu não poderia colocar um gole de álcool na boca, se quisesse me provar algum dia digno de toda força e sabedoria que ela possui. Mesmo que essa força e sabedoria só existam na minha cabeça, eu sei que ela continua sendo boa demais para mim. Porra. Eu realmente virei um heroi disneyano.

A campainha toca. Eu não tenho qualquer vontade de atender.

Uma. Duas. Três vezes.

Lá pela sétima, eu decido me levantar e fechar a porta na cara de quem quer que seja. Já são quase oito da noite, o sol já ta se pondo. Eu não tenho qualquer interesse em ter uma conversa afiada com nenhuma estranha.

Mas, quando eu abro a porta, não é nenhuma estranha que eu vejo.

Os cabelos morenos e lisos parecem ter crescido desde a última vez que a vi, mas os olhos permanecem os mesmo desde a primeira vez. A pele branca quase totalmente coberta, apesar do calor que faz. O contraste perfeito comigo, que estou apenas de bermuda e chinelo. Se eu conseguisse abaixar um pouco mais o olhar, aposto que você está usando botas. Você ama botas. Mas por nada nesse mundo eu ousaria abaixar o olhar e desviar dos teus olhos. Havia algo neles… Algo que você parecia precisar me dizer. E eu estava pronto para ouvir.

- Algo me diz que eu estou prestes a levar uma surra. Mas não vai ser da pessoa que eu esperava. – eu não posso conter o sorriso que veio aos meus lábios. Te ver sempre faz com que o mundo fique meio cantante e alegre.

- Você tem ALGUMA ideia do quanto eu odeio você??? Do quanto eu detesto o fato de que, mesmo te odiando, eu continuo vindo aqui que nem uma desesperada e chorando por causa de uma carta estúpida e sem qualquer significado? De que eu deveria estar jantando com o meu namorado, mas acabei dando um bolo nele porque… Eu nem sei porquê! – um único suspiro. Mas vem mais, eu sei que vem. A sua raiva sempre foi algo admirável. – Com toda sinceridade, Henrique, o que você espera que eu faça? Siga com a minha vida, fingindo que eu nunca te conheci e que você nunca teve qualquer efeito sobre mim? Ou me jogue nos teus braços toda vez que a saudade bater? Eu. – um soco – Não. – dois. – Posso. – três. – Viver. – quatro. – Dessa. – cinco. – Forma! – seis.

Quando a sétima mão veio em direção ao meu peito, eu resolvi que já era hora de segurar seu pulso e fazer você entrar. Fechei a porta com um empurrão do pé e coloquei te coloquei contra a parede, com a inocente intenção de te acalmar. Só isso, e nada mais.

Certo, talvez um pouco mais que apenas isso.

- Isso quer dizer que eu acertei quando escolhi as rosas vermelhas? – era uma pergunta retórica: eu sabia que tinha acertado. Nas entrelinhas, você sempre deixou claro que elas são suas favoritas.

- Isso quer dizer que você sempre acertou em tudo, Henrique. E que tem um prazer especial em destruir a minha suposta felicidade.

- Isso porque eu sei que ela é apenas suposta, e não verdadeira. Qual é, Ana. Não finge que não ficou feliz… – você estar aqui deu um novo brilho no meu dia. Por isso, me atrevi a chegar mais perto de você. – Não tenta negar que vem sonhando com a gente, desde a última vez que nos vimos. Eu venho, pelo menos.

- E esses sonhos envolvem você me agarrando pelos pulsos e deixando minha pele vermelha? – eu vejo a irritação nos teus olhos.

- Na verdade, envolvem muito mais que apenas isso. Acho que, talvez, você possa ficar meio ofendida, então é melhor não entrar em detalhes. – o seu riso parece dar uma sonoridade especial ao lugar. Preenche toda essa casa vazia e solitária. Traz vida à uma vida miserável.

- Você nunca vai mudar, não é?

- Ana… Não acha que eu já mudei demais? – você prende a respiração enquanto eu me aproximo dos seus lábios. Eu não tinha a intenção de me aproximar, mas é como um imã. Algo em você sempre me chama. Algo em você, faz com que eu queria mais. Nunca é o suficiente. – Por você, é claro. Não acha que já é uma mudança considerável eu saber as flores favoritas de alguém?

Você abre a boca. Fecha. Três segundos depois, eu posso ver os seus olhos se fechando e você tomando coragem para dizer o que quer que esteja entalado na sua garganta.

- Por que você insiste em fazer isso, Henrique? Por que não me deixa em paz e vai atrás de qualquer vagabunda que vai fazer todas tuas vontades e aceitar todas as tuas idiotices sem abrir a boca?

- Porque… Eu amo você. Mesmo não sabendo direito o que essas palavras significam, eu sinto isso. Eu sei que é de verdade, Ana. Se isso não é amor, é o melhor que eu tenho a oferecer. Essa… – eu seguro sua mão contra o meu peito. – Essa é a melhor parte de mim. E ela é toda sua.

Eu não sei qual foi o momento em que toda a sua negação acabou para dar lugar ao amor que eu tanto esperava. Mas eu sei que, em algum ponto, isso aconteceu. E as pequenas mãos voaram pelo meu pescoço ao mesmo tempo em que as minhas agarraram a sua cintura, sem qualquer intenção de deixar você se soltar. Nossos lábios se encontram e eu sei que estamos perdidos para sempre. Não há nada que se salve dentro de mim. Tudo… Tudo pertence a você. Tudo é você. Posso sentir a respiração ofegante unindo-se a minha. Eu sei que você desejou esse beijo tanto quanto eu. Por mais que isso pareça impossível, considerando a intensidade com que eu queria isso… Não há mais dúvida alguma. E as suas mãos apertam meu cabelo, ao mesmo tempo me puxando para perto e tentando me afastar. Eu não deixo. Nunca mais vou deixar. A intensidade febril faz com que eu quase delire, mas sei que preciso manter o controle… Com você, as coisas sempre precisam ser diferentes.

Seus lábios se afastam milímetros dos meus, e mesmo essa curta distância é cruel.

- Feliz dia dos namorados. – você sorri.

- Feliz mesmo. – eu respondo baixinho, quase sem voz. E te beijo. De novo e de novo, até que o sol já tenha se posto há muito tempo e nascido de novo. Até que a sua pele esteja tão próxima, que eu tenho certeza que jamais poderei tirar teu cheiro de mim. Felizmente.

Ana F (salt-waterroom)

Eu tento procurar qual é a minha função aqui na terra e nunca consigo encontrar. Não sei para que eu sirvo. No começo, eu pensei que era boa para ser amiga de todos, que eu seria boa em ouvir, em aconselhar e estar sempre ao lado daquele amigo, mas depois, acabei percebendo que também não sirvo pra isso, e sabe por quê? Por que todos sempre vão embora, acho que não sou boa suficiente para eles, acho que eu não demostro o que eu sinto, que eu não digo as palavras certas, que eu não escuto as pessoas no momento certo, sei lá, acho que não sirvo pra ser amiga. Não sirvo pra fazer companhia pra ninguém, por isso, também digo que não sirvo pra ser o amor de ninguém. Ninguém tem a paciência de me amar, ninguém me quer na sua vida por muito tempo, ninguém quer me chamar de amor, deve ser porque sou péssima pra relacionamentos, para poder dar atenção pra aquela pessoa, porque quando estou em um dia ruim, eu não presto pra fazer alguém bem, porque eu não sou boa o suficiente para preencher o vazio de alguém e de fazer essa pessoa feliz. Sabe, eu não sirvo pra nada, acho que sou insignificante e sem valor. Mas me doí saber que eu não tenho importância pra ninguém, que ninguém me quer na sua vida, que ninguém me aceita como o seu amor, ninguém me quer como uma amiga pra sempre, eles simplesmente se cansam e vão embora. Eu não sirvo pra ser uma filha boa, uma irmã boa, neta boa, não sirvo pra nada. Acho que minha função aqui é simplesmente existir, ser um ser humano na terra, fazer parte dos 7 bilhões de pessoa do mundo e somente isso. Apenas fazer parte de um mundo gigantesco e me sentir uma pessoa pequena e sem o minimo valor. Eu tento encontrar a minha função aqui, mas sério, não encontro. Eu já tentei ser aquela namorada amiga, aquela que conversa, ama e faz o próximo feliz, mas nisso eu falhei. Tentei ser uma aluna dedicada, estudar para todas as provas, mas falhei quando deixei de lado o livro para ir pro computador. Tentei ser uma filha boa, mas falhei quando desrespeitei meus pais. Eu sempre falho, eu sempre erro, mas daí você me diz: “Errar é humano” Mas por que eu nunca consigo consertar o erro? Parece que eu ajeito, mas depois, vou lá e cometo o mesmo errado novamente. É realmente, eu só sirvo pra ser uma pessoa cheia de defeitos, cheia de erros e sem nunca saber como os resolver. Acho que eu nasci pra fazer parte da vida de todos, mas nunca causar a diferença, só por existir e as pessoas falaram “Vejam só, aquela menina já foi minha amiga mas hoje não passa de uma mera conhecida.” É assim que eu vejo meu futuro, feita de lembranças de todos, mas sem ninguém pra viver ao meu lado. Sem ninguém pra olhar nos meus olhos e dizer: “Eu estou com você.” Não, ninguém está comigo, não por muito tempo. Eu queria conseguir entender o que eu tenho de tão errado, eu sou humana como qualquer pessoa, mas parece que eles não veem assim. Eu sou paciente e entendo as pessoas, eu sei que eles erram e estou sempre disposta a dá uma segunda chance, mas ninguém é assim comigo. As pessoas só sabem apontar meus erros e defeitos, me julgar, dizer que sou a errada, nunca tem a paciência de me aceitar e dizer que está tudo bem e que ela me perdoa. As pessoas não sabem me perdoar, elas simplesmente preferem ir embora e pronto. Acho que a minha função é se importar demais com todos, é me dedicar demais, abrir meu coração, fazer o impossível por todos, mas nunca receber em troca. Na verdade, o problema não está comigo, mas sim nas pessoas. Essa é a real história, ninguém consegue me aguentar, ninguém tem essa bondade, por isso elas preferem ir embora. Quem é que aguenta uma carente e cheia de defeitos? Ninguém. Por isso, eu não sei pra quê eu sirvo, se não sirvo pra ser amiga de alguém e muito menos um amor, pra quê eu existo? Talvez, eu exista pra ser só, eu exista pra ser apenas de mim mesma e de mais ninguém. Talvez, eu sirva só pra passar pela vida das pessoas, mas nunca pra permanecer. Talvez, eu só sirva pra ser o passado de alguém, mas nunca o presente e muito menos o futuro. É realmente só sirvo pra isso, pra ser sozinha e de ninguém.
—  A minha função é ser sozinha e permanecer sozinha.