dedilhado

Eu lembro como se fosse ontem.  O dia que meus amigos e eu decidimos  acampar na praia. Era o ultimo domingo de julho. Fizemos uma fogueira e sentamos ao redor dela. Assim que um deles, o Pedro, começou  a tocar o violão, algumas pessoas aproximaram-se e se juntaram a nós.
Ela sentou do outro lado. Seu cabelo vermelho se confundia  com a cortina de chamas que emanava da fogueira. Desde que chegamos, eu fora o único  que não  cantou,  acompanhando o coro da galera. Mas, isso se justifica,  sempre fui muito tímido,  ainda mais com todo aquele pessoal olhando.  De alguma forma eu não  conseguia parar de te olhar e, quando você  parecia está  olhando de volta eu disfarçava.
Por culpa de um cupido  maluco,  ou do arquiteto genial  da minha vida (que como todo gênio  que se preze,  é  louco!). Levantei e fui até o Pedro e pedi então para que tocasse “Último Romance” do Los Hermanos. Disse que ia cantar, mas  que ele me acompanhasse, então ele acenou com cabeça dando okay. Havia escutado essa música alguns meses atrás  na rádio,  e  disse pra mim,  que cantaria ela um dia especial. Imaginava uma serenata daquelas com pedrinhas na janela e buquê de flores no final, mas porque não  agora? pensei.
Assim que a música  começou,  fiquei um pouco tenso,  rouco e um pouco desafinado,  porém  quando a olhei,  ela  estava ali a me fitar, algo no seu olhar parecia refletir o mesmo céu  daquela noite. Eu já cantava mais a vontade, dava pra perceber nitidamente e, as pessoas ali, certamente  já  tinham notado que eu não parecia focar em outra direção a não  ser a sua.
Para minha surpresa,  na quarta estrofe  da musica você  começou  a cantar junto, cada vez mais equivalente.  Levantamos e nos aproximamos e, mesmo com todo aquele calor,  minhas mãos  estavam gélidas como um iceberg polar.
A canção já  estava quase no final e eu nunca  ouvi uma voz tão  linda na vida.  Meus pensamentos  se confundiam entre as próximas palavras  da letra e, o que eu poderia dizer depois,  um “oi” talvez? No final cada um iria para o seu lado então?
No último  acorde você  me olhou e sorriu,  as pessoas aplaudiram e, tudo aquilo soava de uma forma ainda mais desesperadora para minha timidez estúpida. A galera ecoava  aquele tradicional  grito de incentivo: “Beija… Beija…Be..” Antes do fim da terceiro brado,  você  puxou o meu braço esquerdo e me beijou.
Naquele momento senti coisas que nem imaginava existir, senti tudo, menos o meu chão. A fogueira queimava em mim, o céu estrelado  caiu sobre nós como um lençol cai bem em noites frias, o últimos dedilhados do violão embalavam nosso primeiro beijo e, todos  os outros naquela noite.
Escobar,

Você habita cada curva e ínfima depressão que me detalha. Não há tempo de se envergonhar pelas marcas, arranhões e cicatrizes. Tudo já foi visto, tocado e sussurrado numa voz que conhece cada nuance da minha respiração. Há um lembrete de memória boa em cada caminho dedilhado. Você sabe sobre a pinta que tenho na costela direita tanto quanto sabe que a boca na linha da clavícula causa suspiros. Vezenquando penso em dizer que sua respiração no osso do quadril me faz arfar em expectativa, mas você prefere fazer com que eu me perca no caminho.

Então há dedos cravados na carne e caminhos em saliva. É tudo bonito porque soa como se não houvesse mais nada além de você escorrendo nos meus poros, dedilhando a pele arrepiada, marcando com as unhas todas as coisas que não dizemos. Porque você me toma num gesto e me ganha em entrelinhas que ninguém mais nota, e no silêncio penso em contar como você se encaixa em todos os devaneios que tenho antes de adormecer. Mas sua respiração está debaixo dos meus dedos e não há nada mais a ser dito.

Amo na calmaria que se desfaz após o furacão. Seus trejeitos passeiam por mim durante horas, recordo as memórias como num filme por dias. São desses momentos em que haveria para dizer, mas prefiro beijá-lo uma vez mais. Vezenquando até nosso gosto por palavras sabe que elas não são necessárias.

Nada seria tão bonito não fosse pelos seus olhos de sono que miram com aquela preguiça boa de quem tem tempo de sobra. E eu amo tudo sobre sua respiração entrecortada na minha boca e as mãos que fazem o caminho das costas até o quadril como quem decora cada linha.

Você reside em cada terminação nervosa. Eu seria capaz de me perder sob seu tronco todos os dias e sabemos que ainda assim não seria o suficiente.

Você estava com o nariz nos meus cabelos há minutos atrás e eu já sinto sua falta,

Cecília.

G.

Sua chegada não faz sentido, nem um pouco. Foi como chegar no fim da festa a fim de começar outra, você trouxe balões coloridos e guloseimas. Como se já não tivesse pouco sentido, você trouxe a bagagem para se aventurar, enquanto isso exige apenas algumas mudas de roupa, e uma escova de dentes, você veio se aventurar em um lugar onde tudo era silêncio e calmaria, e trouxe tudo que podia e cabia, seu exagero é o seu clímax. Além de tudo que já me surpreende, você bem sabe, eu sou morada para veraneio, e isso não te incomoda, você parece aproveitar esse verão como ninguém nunca saberia aproveitar. Seu sim é quase uma melodia, você é uma melodia, do tipo que eu sou capaz de ouvir mil vezes mais, sem rejeitar uma vez sequer, uma melodia explorada em dedilhados complexos e acordes precisos que nunca serão, por mim, modificados, talvez pela calmaria, pela comodidade de ser sempre a mesma, não importa se há outras versões, quando você vem, sou a morada perfeita, embora haja desencontros em “perfeição” é justo dizer que você precisa de mim como eu preciso de um lugar calmo para estar, onde eu possa apelidar de paraíso, e no momento, nada se encaixa nisso tão bem como seus olhos.
—  Certamente Perdida.
Menino homem, que é que tem em você que tanto me tumultua? Será esses olhos que refletem as estrelas, ou o som do seu riso que parece o céu? Estar com você é como se uma orquestra estivesse sempre ao meu redor, violinos chorando nos meus ouvidos, pianos dedilhados em cada sílaba das tuas palavras. Tuas frases me fazem ansiar por um texto, tuas loucuras me fazem querer me tornar insana e teus olhos… Ah menino, teus olhos estelares… Estes, tão frios, me fazem duvidar se o calor que você transmite é real. O contorno dos teus lábios é mais desenhado que o mais belo dos meus rascunhos, apelativo também, diria. Menino homem, menino homem, que é que tem em você que me deixa assim, tão atônita? Será a forma com que os seus braços parecem tomar ao dar-me um abraço, ou as curvas do seu corpo que tão lindamente se encaixam às minhas? Será o tumulto que me causa, ou a utopia que vivo do teu lado, que me faz assim, tão poética? Nem o sol, nem as estrelas, nem mesmo o céu parece ser capaz de ser tão imenso como aquilo que você transmite em mim. Menino homem, torna-me tua menina mulher, ensina-me a decifrar-te e a não mais ver tudo ao meu redor como poesia, tua poesia.
—  Sociedade Ácida.
O que fazer quando o medo toma conta do seu coração? Queria eu ter aquela atitude que tinha, de falar dos meus sentimentos pra você. Eu fico pensando em cada momento que passamos juntas, e é impossível não sorrir com cada lembrança guardada. Essa noite seu espírito visitou o meu. De nós não restou nada além do amor, e talvez esse ainda seja suficiente pra que eu possa senti-la aqui perto. Me deparei de frente com a minha decisão, de frente com o ponto final que coloquei e não consegui me conter. Chorei, e a cada vez que meu corpo já cansado tentava pegar no sono, as lágrimas me acordavam novamente. Eu sentia seu toque nas minhas costas. Aqueles dedinhos magrelos me percorrendo a pele e logo depois, os beijos que seguiam por um: “vira pra cá, meu bem. Fica aqui mais eu.”
Revi nossas fotos, encarei seu olhar e você sabe como eu amo esses olhinhos que só você tem. Me lembro da sua voz, do seu sorriso, do seu cheiro, e de como eu me sentia segura nos teus braços. Você não sabe, mas a cada vez que você me pedia e eu me virava pra te abraçar, que seus braços então me acolhiam, era como se não existisse mais um mal que chegasse a mim. Eu amo seu abraço, eu amo o som da sua risada, e amo como você me contava as coisas e por mais sem graça que fossem, me tirava as risadas mais sinceras. Você é um conjunto de tudo o mais diferente de mim, e eu não sei por em palavras como você me completa e como eu amo cada detalhe seu. A forma com que arqueava as sobrancelhas quando estava com sono, como se virava manhosa, sonolenta, e apenas levantava o braço para que eu te abraçasse. O dedilhado que começava na minha mão, subia pelo meu braço e logo estava com aquele carinho gostoso no rosto. Eu sou grata por tudo que vivi com você, por todo amor que você plantou no meu coração, e se eu tivesse a oportunidade de mudar algo, eu faria tudo de novo. Te amaria de novo, largaria tudo de novo, correria pros teus braços e me entregaria a você de novo, de corpo e alma. Hoje eu não tenho mais você, eu sei que não vou acordar com um texto seu me dizendo como me ama. Isso já se perdeu a muito tempo. Mas deixo aqui mais um texto pra você, dizendo como eu te amo. Sinto saudades!
—  A.F
o que eu queria dizer quando alguém diz ‘me fala de você’

vou no metrô roendo as unhas ou escrevendo na borda do caderno, fazendo croquis de estranhos. não sei mais fazer dedilhados bonitos no violão. canto no banho sempre que tô triste ou feliz. só não canto se estiver morta de sono. acordo assustada de madrugada e volto a dormir. fico triste quando o despertador desperta e feliz quando consigo sair da cama. tenho paixão aguda pelo banal, tipo um moleque de 6 anos dançando quando o foodtruck toca rock. não quero parar agora. cativo pessoas com piadas toscas. não sei não brincar. tenho medo de ter que levar a vida realmente a sério. achei que aos 19 eu faria mais coisa. não faço. não achei que saberia tanta coisa, que haveria tanto a saber. mas sei e há. e gostaria de desaber certas coisas que doem. tenho um problema com espaço pessoal e físico e não falo nunca sobre motivos. se eu abraço alguém por pura vontade é um nível de amizade absurdo. intimidade da maior. tenho medo de escuro mas nunca durmo de luz acesa. não gosto de beber porque não lido bem com limites. amo mojitos. não tenho paciência pra gente que não se esforça pra entender. gosto de dançar, mesmo tendo absoluta certeza de que não sei. nunca fui a são paulo. meu lugar favorito no mundo é sempre o último que eu conheci. meu livro favorito é sempre o último que eu li. fico obcecada com músicas velhas e nunca supero, só deixo de lado quando conheço uma outra. tenho fetiche por versões acústicas, sotaque britânico e gente que sabe conversar. tenho tendência a morrer de amores por geminianos. sei mais sobre signos do que deveria. não leio tanto quanto eu gostaria. sou medrosa de tudo. insegura. odeio muvuca. escrever é a única coisa que não me imagino não fazendo. meus melhores amigos moram longe. demoro a me apegar a pessoas. só faço compras em um mesmo mercado por causa dos biscoitos de goiabada frescos. sinto falta da minha avó, mesmo morando perto dela agora. preciso parar de madrugar em baladas simplesmente porque meu corpo quer um tempo de descanso. gosto de arquitetura, agora. mas não amo e não trabalho com coisas medianas. ou sinto muito ou não sinto nada - o que é um puta clichê, mas a minha verdade sobre a vida. quero aprender a falar francês. desisti de ir embora. tenho fobia de sossegar. detesto entrevista. a única coisa que alguém precisa fazer pra me conquistar é ter lábia, falar coisas inesperadas, me fazer gargalhar. vou parar de escrever isso pra fazer um desenho agora.

Em cada nota, Deus se revela. Em cada arranjo solto pelo universo, o amor de Deus é levado ao mundo todo. Em uma oração feita no Japão, uma criança na palestina é curada. Em um louvor entoado a Deus no Brasil, um jovem é libertado das drogas no Canadá. Na entrega do jovem, todo o seu lar é restaurado. Na oração de uma tia feita em Minas Gerais, seu sobrinho é liberto e volta aos pés de Deus lá em Rondônia. Em cada dedilhado de um simples violão vidas são libertas. Em cada acorde, Jesus é glorificado. O Rei dos reis, o Era, o que É, e O que há de vir é exaltado. E o milagre da salvação chega ao teu coração. É… Você mesmo.
—  Um Coadjuvante.
Ela é a suavidade da música transmitida por um piano, o dedilhado mais habilidoso na mais refinada harpa, e de um jeito só dela, estremece a alma semelhante as cordas do violão que tremem quase que imperceptível mas fazem um som magnífico, e me sinto tão em paz com ela.
—  Dois tons de amor
não há arco-íris antes da tempestade.

pra quê tantos desencontros, se no fim, tudo o que nós queremos, é alinhar nossos planetas a um astro que nos contemple e faça de nossas estrelas mais resplandecentes? tantas canções, entoando histórias de nossas órbitas perdidas em espaços onde não nos cabem e a gente padece em cada palavra. porque a imensidão do mundo não supre o nosso peito inquieto. o universo em seu infinito azul não é capaz de nos saciar. a gente anseia por algo que desconhecemos e isso faz do mundo nosso eterno devedor. nossas almas vagam as ruas tumultuadas, sempre na esperança de esbarrar com alguém que dissolva nossos pólos. queremos sentir fulgor em nossos corações, como se fossemos um violão sendo dedilhado. cada acorde nos eriça os pelos, levando nosso corpo e alma ao ápice do sentir. queremos encontrar a outra parte da nossa própria essência, o alimento que nos mate a fome de viver. o ar que preenche nossos pulmões, cansados de procurar nos becos errados. a lava que vai conduzir nossos vulcões à erupção. não suportamos mais ter os pés estáticos no solo. queremos estar no olho do furacão, de corpo beirando o abismo. embriagados, extasiados e absortos pela dádiva de existir. depois podemos voar em direção à ousadia do céu. antes da bonança, a vida exige de nós o mais feroz temporal. depois da chuva, vem a calmaria e a arte de estar em paz com o nosso horizonte interno. o dilúvio se vai e ficamos em harmonia com o universo e todo o seu infinito. nesse momento, não há nada capaz de nos deter.

II


O estrangeiro da legião de insetos 
arrancou o grito de cólera
e loucura da boca arreganhada, não percebida, 
do paranoico que mora nos ciclones

A bailarina, uma mulher pálida, 
engole o último pedaço de
vidro arrebentado com a explosão atômica
de meus sonhos avulsos transtornados.

O erotismo atrapalhado do anão 
que não mais se aguenta neste intervalo 
de memórias e areias, noite e chamas. 
Diminuindo cada vez mais, bactéria.

O uivo caminhando sobre a ponte imóvel. 
O castelo e o muro dedilhados no quadro azul.
Sinto a introdução e o posfácio deste rio 
que golpeia as paredes com mãos nuas.

O mínimo. O minúsculo. O quase nada. 
Dedilhai as últimas notas vagas 
que recordam a imagem deformada 
do psicótico que caminha sobre o fio dental.

“Quatro Poemas Pivianos”, Roberto Piva.

Um só

Se eu nunca te ver de novo,
vou te guardar na pontas dos meus dedos
que corriam pelo teu corpo.

Se eu nunca te ver de novo,
vou te guardar no peito
apertado, já dedilhado por ti.

Se eu nunca te ver de novo,
vou te guardar nos lábios
que nos teus,
já estiveram no mesmo compasso.

Mas se eu nunca te ver de novo
E se a gente nunca se tocar de novo
E se tu nunca dançar comigo de novo

Como que a gente
que nunca vai se ver de novo
pretende ser um só?

Você molha os pés nas primeiras vindas do mar até a areia, experimenta a temperatura da água um pouco gelada no início. Conforme você vai dando seus passos, percebe seu corpo se acostumar e a temperatura parece subir, quando na verdade o seu corpo se adaptou. Nós nos achegamos assim de mansinho, vamos nos adaptando, não com a frieza, mas com aquilo que temos para rodear toda nossa vida, como um oceano cheio de sentimentos bons. Molhamos a fronha do travesseiro antes, sussurramos desejos que ninguém além de Deus escutou, experimentamos sozinhos várias coisas. Entretanto, nos encontramos tão encaixados num momento, contexto que entra numa concordância quase perfeita, retirando a distância, mas há muita paciência, só pressa de dar amor, com calma se chega lá. Mas é como um dedilhado de violão, cada toque atravessa a alma e te leva longe e essas horas me sinto tão ao lado dela, como a mais suave melodia, sem vozes, muitas palavras foram gastas até chegarmos aqui, o abraço, o sorriso, o toque e o beijo poderá dizer tudo o que podermos querer expressar.
—  Dois tons de amor.

Céu cinzento,
que encobre a Lua
feito véu denso.

Poema sem nome,
ou prosa,
afinal tudo é poesia.

Palavras fúteis,
pensamentos dedilhados,
permaneço em inércia,
afugentada a preencher
o vazio que me escurece por dentro.

Entre o pós e o contra
de sentir ou não sentir,
de me afogar em mar
e deixar a água abafar
um sentimento nunca vivido.

Palavras soltas, desconhecidas,
chuva grossa de verão,
a razão e a emoção,
palavras escritas em vão.

—  Pra tu