dede-carvoeiro

“Zero. Foi essa a quantidade de pontos que eu anotei durante o verão na liga de desenvolvimento do Sonny Hill, quando eu tinha 12 anos. Eu não pontuei. Nenhum lance livre, nenhuma bandeja acidental, nenhuma daquelas bolas que você joga pra cima e que caem sem querer. Meu pai, Joe ‘Jujuba’ Bryant, e meu tio, John 'Gordinho’ Cox eram lendas nesta liga de desenvolvimento. Eu havia envergonhado minha família!Eu considerei desistir do basquete e me dedicar ao futebol. Foi neste momento que meu respeito e minha admiração pelo Michael surgiram. Eu aprendi que ele havia sido cortado do seu time do ensino médio quando ele era um calouro; eu aprendi que ele sabia como era se sentir envergonhado, se sentir um fracasso. Mas ele usou essas emoções para alimentá-lo, para fazê-lo mais forte. Ele não desistiu. Então eu decidi que eu iria encarar o desafio da mesma maneira que ele fez. Eu iria usar o meu fracasso para me motivar. Eu me tornei obcecado em provar para minha família - e, mais importante, para mim mesmo - que eu CONSEGUIRIA.Eu aprendi tudo sobre o jogo: a história, os jogadores, os fundamentos. Eu não estava só determinado a nunca mais ter zero pontos, eu queria ser o responsável por fazer com que meus adversários sentissem o mesmo sentimento de fracasso que eu um dia senti. Meu instinto assassino de pontuar havia nascido.Vinte e quatro anos depois, eu ultrapassei o cara que me inspirou.Que jornada! Esta marca é uma honra enorme. Eu estou ciente das regras do Tempo-Pai. Ele já me mandou ir escovar os dentes antes de me botar pra dormir, mas eu não seria eu mesmo se eu não demorasse pra obedecer. Eu não seria eu mesmo se eu não escovasse cada um dos dentes duas vezes, escovasse minha língua três vezes, passasse o fio dental até que minhas gengivas sangrassem, e enxaguasse minha boca até que ela ficasse dormente.Eu não seria a criança que se levantou depois do zero, e eu não estaria honrando o homem que me inspirou a desafiar tudo. Muito obrigado a todos vocês pelo amor e pelo apoio. Eu aprecio muito tudo isso, mesmo se o vilão que mora dentro de mim se recuse a admitir isso o tempo todo.Muito amor, câmbio, desligo,Mamba.” (Kobe Bryant para a The Players’ Tribune)

Originalmente, este texto foi ao ar nos dias seguintes ao Kobe ter passado Michael Jordan no ranking de maiores cestinhas da história da NBA. Bryant é o terceiro, atrás de Karl Malone e Kareem Abdul-Jabbar.

Ontem, o Kobe anunciou sua aposentadoria ao fim desta temporada. Hoje, o dia será todo dedicado a ele. Incluindo o nosso programa de rádio semanal, o Estação Basquete, de daqui a pouco. Entramos no ar, ao vivo, às 21h.

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Quando terminaram as finais do ano passado, para mim estava claro que Tim Duncan iria se aposentar. Sair da liga depois de uma performance daquelas nas finais da NBA, longe de ser uma vergonha, seria coroar sua carreira.

Ele não se aposentou e os Spurs, com elenco incrível que tem e, na minha opinião, o melhor técnico da liga desde Phil Jackson, vai bem na temporada de 2013-14. Mas não Tim Duncan. Até aqui, ele anotava os piores números da sua carreira.

Eis que ontem, ao anotar 23 pontos e 21 rebotes, ele se torna o jogador mais velho da história a fazer um 20-20 na NBA. E não poderia ter sido outra pessoa.

Duncan é o melhor Power Forward a já ter jogado. Ah, é sim. Ano após ano, conquista após conquista, com o mesmo joguinho pouco impactante (visualmente), Duncan distribui tapas na cara do modelo norte-americano de basquete. Quando poderíamos imaginar que “The Big Fundamental” seria o grande astro de uma liga na qual o show é sempre a prioridade?

Quando tiver a oportunidade, veja três futuros Hall of Famers em quadra ao mesmo tempo. Assista algum jogo do sempre monótono Spurs e acredite que, se Tim Duncan não se aposentou no fim da temporada passada, é porque ele ainda tem mais coisa pra ensinar.

“The Spurs won because of Tim Duncan, a guy I could never break. I could talk trash to Patrick Ewing, get in David Robinson’s face, get a rise out of Alonzo Mourning, but when I went at Tim he’d look at me like he was bored and then say: “Hey, Shaq, watch this shot right here off the glass.” — Shaquille O’Neal (on Tim Duncan)

Eu e Derrick Rose temos muito em comum. Temos a mesma altura, a mesma paixão pelo basquete, ele tem mais dinheiro, eu tenho mais carisma (não é difícil). O que mais salta aos olhos, porém, é que nós dois somos caras de um potencial gigantesco, e nenhum de nós jamais conseguirá concretizá-lo. Ele, por conta de um joelho maldito. Eu, por causa de um problema crônico nas costas.

Lembro como se fosse ontem o dia em que minhas pernas falharam sob o peso do meu corpo. Toda a lateral delas num espasmo excruciante. A parte inferior das minhas costas não era mais capaz de suportar nenhum peso, nenhum movimento. Foi uma emoção enorme quando, oito meses depois, pude voltar a fazer atividades rotineiras, bobas - como abaixar para lavar o rosto ou cortar as unhas do pé -, sem sentir dor. Da mesma forma que foi emocionante pro Derrick Rose quando ele pôde voltar a agachar para pegar a chave de casa que caiu no chão.

O retorno ao esporte é uma mistura de ansiedade e medo. Todas as coisas que outrora eram naturais, quase inconscientes, agora vinham rodeadas por atenção e cuidado. Todos os movimentos executados sob a sombra de uma possível nova lesão. Depois de um tempo, contudo, essas barreiras caíram e a segurança voltou. O sentimento agora era outro: surgia uma necessidade de auto-afirmação, uma vontade de provar para mim mesmo que ainda era capaz de fazer tudo o que fazia antes de tudo aquilo. Mas a verdade é que não posso. E Derrick Rose também não pode. O corpo trata de nos lembrar disso e as dores voltam. Novas lesões jogam todo o longo processo de recuperação no lixo e estamos de volta a estaca zero. Essa sequência de fatos se repete até que o medo e o cuidado vencem a crença de que um dia poderei voltar a ser o que era antes. O que poderia ter sido tornou-se um patético sonho, abatido depois de uma derrota humilhante para o meu próprio corpo.

Eu poderia ter sido o melhor jogador da minha rua. Derrick Rose poderia ter sido o melhor jogador do mundo. Nenhum de nós vai chegar lá.

[“Pelo amor ao Jogo”, parte 6]

“Patrick Ewing e eu sempre brincamos sobre isso, mas ele nunca conseguiu superar aquela derrota na final da NCAA de 1982. Ele tentou, mas ele nunca conseguiu jogar muito bem contra mim. Ele nunca venceu uma série de playoffs contra mim, também. Ele deve ter ganhado alguns jogos durante a temporada regular, mas quando o jogo era importante o Patrick nunca passou por mim. É da mesma forma com Charles Barkley, Karl Malone, e John Stockton também. Eles eram todos meus rivais enquanto eu jogava, da mesma forma que Magic Johnson e Larry Bird eram os caras que eu estava tentando vencer no começo da minha carreira. Eu tenho pena deles? Não. Eu nunca poderia ter dó deles porque isso seria mostrar que eu perdi um pouco da vantagem que tinha sobre eles. Patrick e eu sempre falamos sobre como nossas carreiras se encontraram no passar dos anos. Mas não há nada a não ser amor entre nós dois. Ele é um ótimo amigo. Ele me ligou e perguntou sobre os meus planos. E eu disse a ele que eu iria me aposentar. Então ele disse: ‘Você não pode se aposentar. Você tem que voltar. Eu tenho que ganhar de você.’ Talvez numa partida de golf.” (Michael Jordan)

[“Pelo amor ao Jogo”, parte 2]

“A quadra de basquete foi sempre meu refúgio. Era pra onde eu ia quando eu precisava achar a resposta para algum problema, ou só pra acalmar a minha mente. Quando eu assinei pela primeira vez com o Chicago Bulls, em 1984, o contrato da NBA incluía uma cláusula que proibia os jogadores de praticarem algumas atividades durante a offseason, inclusive jogar basquete. Se você jogasse sem obter permissão do time e se machucasse, o time poderia rescindir o contrato com você. Eu nunca poderia viver com esse tipo de restrição. Eu precisava jogar. Eu não só achava conforto nas quadras, eu usava o verão para melhorar. O Bulls finalmente concordou em incluir o que eu nomeei de “Cláusula de Amor pelo Jogo.” Naquela época, poucos jogadores, se algum, tinham esse tipo de liberdade que o Bulls me deu. Eu poderia fazer o que eu sempre havia feito. Eu poderia jogar basquetebol sem consequências.” (Michael Jordan)

Você, fiel fanático que passou boa parte do seu fim de semana acompanhando o All-Star Weekend, parabéns! Você acaba de perder três dias de fim de semana. Três dias que poderiam ter sido utilizados para sair com os amigos, para acompanhar as olimpíadas de inverno, praticar esportes ou qualquer coisa que não fosse assistir a essa sequência de eventos monótonos (vide LaMarcus Aldridge na foto).

Pra não falar que absolutamente todos os eventos foram um lixo, houve um pequeno espaço de tempo no qual o evento de enterradas da D-League foi bom, o campeonato de três teve um pingo de emoção (a nova regra pra bolas de valor dobrado ficou bem legal) e teve também o Arne Duncan, secretário de educação dos EUA, que foi MVP do jogo dos famosos jogando bastante bem.

Fora isso, meu amigo, foi difícil. A NBA tentou transformar o evento todo numa grande rivalidade entre Leste e Oeste e a ideia até seria boa, mas a real é que ninguém ali tá ligando pra isso. Os caras chegam nesse fim de semana é querem mais é comemorar, dar uma descansada nas pernas pra segunda parte da temporada, qualquer coisa que não seja muito pegada, sabe?

E daí a gente vê esse lixo que foi o campeonato de enterradas, uma enterrada de cada participante, com muito mais erros do que acertos, e só. E nem notas teve! O cara enterra e não recebe uma nota. E que que aconteceu com as plaquinhas? Depois da enterrada os caras levantam um iPad! Que pagação ridícula (coitado do Julius Erving). Essa história também de contar com votação do público pra eleger o vencedor é interessante pra engajar a galera que tá vendo pela TV/Internet, mas e quem tá ali no ginásio? Cadê a emoção pra esse cara? Será que foi por isso que o ginásio não estava lotado? Será que foi por isso que ninguém comemorou, nem aplaudiu, nem esboçou reação quando foi anunciado que John Wall havia ganhado?

Realmente, o campeonato de enterradas foi, como diria minha vovó, pro beleléu. (melhor a NBA já começar a pensar o que vai oferecer pro LeBron James salvar o evento ano que vem)

Por fim, o jogo das estrelas, o jogo que a galera tá falando que salvou o fim de semana. Um lixo. Óbvio, você assiste o primeiro quarto e vê mais jogadas sensacionais do que você normalmente veria num jogo inteiro. A quantidade de “vixe!” por minuto jogado é muito maior, sem dúvida. Mas pára por aí. O jogo tem momentos visualmente fantásticos, perfeitos para estarem num belo vídeo de highlights, mas acompanhar essa várzea em tempo integral é complicado, viu.

“Nossa, mas eles bateram o recorde de pontos numa única partida, bateram o recorde de bolas de três de um único jogador, bateram o recorde de assistências, bateram o recorde de bolas de três tentadas, bateram o recorde de cestas convertidas por um único jogador, bateram o rec…”

Claro que eles bateram uma cambada de recordes. Deveriam, aliás, ter batido todos existentes. Os caras são profissionais, são os melhores do mundo, a coisa que eles mais sabem fazer é colocar a bola dentro do copinho. Se você fizer eles jogarem um jogo sem defesa, eles vão bater todos os recordes mesmo. Daí surge o paradoxo da NBA trazer mudanças para os eventos de sábado tentando incitar uma maior rivalidade entre leste e oeste e, quando chega o evento principal, não existe um pingo de rivalidade. (a maior quantidade de pontos, a velocidade absurda do jogo e a defesa ridícula estão muito ligados à falta de pivôs em quadra também)

Via de regra, o evento como um todo era muito melhor quando era mais simples. No sábado tinha uma galera pra enterrar a bola. Essa galera vai sendo eliminada conforme recebem as notas, que são mostradas pra todo mundo naquelas plaquinhas de papel bem toscas. E daí a torcida toda participa também com umas plaquinhas de papel bem toscas. A galera vibra, vai a loucura e ergue as plaquinhas bem lá no alto, é maior barato. No domingo, a gente põe os melhores do leste do lado de cá, os melhores do oeste do lado de lá e nem precisa fazer uniforme especial pra isso não. Cada um joga com o uniforme do próprio time mesmo, os uniformes não tem manga, é claro, porque não existe coisa mais ridícula do que uniforme de basquete com manga. Uma conferência joga com escuro, outra com claro e boa, o evento é isso. E era muito mais legal.

Ano que vem, iremos para Nova Iorque e é melhor a NBA estar pronta, meu amigo, porque se tem um povo que é mais corneteiro que a gente, é o povo natural do Madison Square Garden.

A última vez que Derrick Rose realmente jogou um jogo, Lebron James ainda não havia ganhado nenhum título da NBA.

Isso porque, depois de todo o suspense para voltar a jogar, #thereturn - para mim - foi uma grande decepção. A última vez que vi Derrick Rose jogar um jogo no nível que sabemos que ele pode (ou já pôde) foi mesmo em 2011.

Ontem, Rose saiu do ginásio de muletas. Diagnóstico: lesão do menisco no joelho direito. Uma lesão parecida com a de Russell Westbrook (que, aliás, voltou muito melhor que D-1), parecida com a de Chris Paul e parecida com a de D-Wade.

Duas opções a partir de agora: retirar a parte lesionada, o que pode reduzir significativamente o tempo de recuperação, mas que - ao mesmo tempo - pode prejudicar o tempo de carreira do atleta (vide Dwyane Wade). Ou recuperar a parte lesionada, processo que demora muito mais e que, provavelmente, faria com que Rose perdesse o resto da temporada (foi o que Westbrook fez).

Eu sei, você sabe, nós sabemos que a pressa pra se recuperar não é algo que Derrick Rose leva muito em consideração. O resumo da ópera é que a gente ainda deve ver Rose um bom tempo vestindo seu terninho no banco de reservas (alguém aí já com saudades do Nate Robinson?).

Enquanto isso, em algum lugar já surge o pensamento do que poderia ter sido dessa temporada ou - para os mais dramáticos - o que poderia ter sido da promissora carreira de D-Rose, cada vez mais perto de integrar o triste time de Grant Hill, Tracy McGrady e Brandon Roy.

7 motivos para não perder o March Madness

Começa hoje o campeonato da Associação Atlética do Colegiado Nacional - do inglês, NCAA. Acredite se quiser, este é o evento basquetebolístico mais lucrativo do mundo todo. Mais televisionado, visto e rentável que a própria NBA. Esse é o nível do basquete universitário nos EUA.

E tanta visibilidade tem seus motivos: o March Madness é demais. 68 times, jogo todo dia, só mata-mata, tudo isso nas costas de uma molecada de 18, 19, 20 anos. Tá bom ou não? Se você não faz ideia se tá bom ou não porque você sabe como tudo isso funciona, não se preocupe, tem gente que explica pra você.

Agora, se você sabe como funciona, mas mesmo assim tá em dúvida, a gente separa sete motivos pelos quais você não deve perder o March Madness.

1. As comemorações dos reservas;

2. Os erros infantis que custam um jogo;

3. O atleticismo dos menino(!);

4. As assistências espetaculares;

5. Os erros mais infantis ainda;

6. O excesso de confiança;

7. E o showtime!

Vamos falar sobre MVP...

A corrida do MVP desse ano parece se limitar mesmo a James Harden, Stephen Curry, Russell Westbrook e LeBron James. Muitos defendem que Stephen Curry está tendo a temporada da carreira, jogando de forma brilhante e que merece o prêmio. Concordo que Curry passa por uma grande fase da carreira, mas - para mim - todo esse bafafá não é devido a um tremendo salto na qualidade de seu jogo, mas sim devido ao reconhecimento que ele vem recebendo da mídia. Se pegarmos as estatísticas dele, vemos que o cara tem jogado num nível altíssimo há um bom tempo (nós do blog já estávamos de olho no menino desde a temporada de 2010-11, quando postamos esses highlights dele por aqui). Penso que este reconhecimento é reflexo mais da grande temporada que o time como um todo tem tido, do que por uma melhora incrível na sua maneira de jogar. Como os Hawks, acho que o mérito por essa boa temporada do Golden State é mais do conjunto do que de um jogador.

Mas não é sobre Stephen Curry que quero falar aqui. Quero falar de LeBron James e o porquê, pra mim, ele merece ganhar o MVP. Nesse momento, eu aposto (a-pos-to), que se você não for uma LeBronzete, você fez uma pequena careta mental ao ler que ele merece ganhar o MVP. Antes de argumentar, porém, quero definir o que é esse prêmio, sob meu ponto de vista: o troféu de MVP é dado ao jogador que tem maior impacto positivo em um time. Ao jogador que, se não estivesse ali, o time não conseguiria manter um nível sequer parecido. Ao jogador que se destaca individualmente, mas que tem um mérito inquestionável no resultado coletivo. Nessa definição, não faz sentido você ganhar o prêmio se você for o cara de um time mediano (como o Anthony Davis é, por exemplo).

Isso tendo sido dito, analisemos a temporada do time do Cleveland Cavaliers. Os caras começaram a temporada bem capengas, lembram? As novas aquisições do time (que foram muitas) demoraram pra se acertar e há quem diga que tem gente até hoje sem uma função muito clara no time (alô, Kevin Love, que ficou no banco durante todo o último quarto ontem contra o Spurs). Não só eles começaram capengas como o próprio LeBron James tava jogando bem mais ou menos: noites de poucos pontos, esforço quase zero na defesa, enfim, tudo muito estranho. Parecia que o cara não queria estar ali.

O tempo passou, muita coisa mudou, e o time que tava na bita da classificação pros playoffs até outro dia agora já é segundo na conferência leste. Mas isso ainda não quer dizer muita coisa, quer? Ô, se quer. De todas as mudanças que aconteceram nesse time do Cavaliers nessa temporada, alguém tem alguma dúvida de que LeBron James foi a maior delas? Não. Ninguém tem. E como que estavam sendo as temporadas do Cavaliers antes de James voltar pra lá? Ridículas. Nas quatro temporadas que James esteve fora, o time de Cleveland ganhou mais de 32 jogos em apenas UMA delas. Nas outras, ganharam 19, 21 (ano da greve) e 24 partidas. Nos dois anos anteriores, com James lá, eles haviam ganhado 61 e 66 partidas. Este ano, já ganharam 42 e certamente terão mais de 50 vitórias ao fim da temporada.

Enquanto isso, como anda o Miami Heat, time que LeBron James deixou? A equipe que chegou a quatro finais seguidas com o cara passa pela pior fase do time desde que, claro, “The King” estivesse lá. Depois de quatro temporadas com mais de 65% de vitórias, eles estão com 42% nesse momento, ocupando a oitava colocação da conferência leste. Muita coisa mudou no Heat nesse tempo também, né? Mas alguém tem alguma dúvida de que LeBron James foi a maior dessas mudanças? Não. Ninguém tem.

É um fato que LeBron James é o maior jogador dessa geração (disparado). Pra mim, também é claro que, quando ele encerrar sua carreira, ele estará entre os maiores da história (se já não estiver). Pra mim, é óbvio que Kyrie Irving fez mais de cinquenta pontos em dois jogos nessa temporada não só porque ele é muito (muito) bom, mas porque tem um cara na quadra que chama tanto a atenção da defesa, um cara que consegue abrir tanto espaço, que pontuar fica muito mais fácil.

Se um jogador claramente muda o status de um time de “um dos piores da liga” para ao de “um dos favoritos ao título”, por que CAZZO esse jogador não é o favorito para o prêmio de MVP? Grande pergunta, cara, grande pergunta. E claro que não há uma resposta definitiva, apenas especulações, como a que diz que o torcedor e a crítica se acostumaram com o que ele faz em quadra. Como se LeBron James fosse um coringa ali, que todo mundo sabe que é sensacional, que todo mundo reconhece como sensacional e que então não precisa desse tipo de prêmio, que será dado ao segundo jogador mais sensacional, porque o primeiro todo mundo já sabe quem é e fica sem graça dar o prêmio pro mesmo cara todo ano. Tem que variar, saca? Talvez isso sirva como estímulo pro LeBron continuar fazendo sempre mais pra ganhar o troféu de novo ou, mais provável, sirva como estímulo pro resto da liga, numa demonstração de “ei, vocês também podem ganhar esse prêmio!”

Ou, no fim, pode ser que seja apenas um sentimento de nostalgia da crítica especializada, que reluta em dar um quinto troféu a James (que merece o quinto e, se continuar jogando assim, o sexto, sétimo…) porque isso significa dizer que ele terá tantos troféus quanto Michael Jordan e Bill Russell e pra ter tantos troféus quanto esses caras, LeBron, a crítica quer ver algo sobrenatural, com luzes e fogos de artifício. A crítica quer ver você jogar o seu pó pra cima no começo do jogo e depois enterrar na cabeça de todo mundo durante 48 minutos. A crítica quer ver triple-double toda a noite e toco prensando a bola contra a tabela. A crítica quer ver você com faixinha, sem faixinha, com máscara e sem máscara. A crítica quer um show, LeBron! Tudo isso como se transformar um time de “péssimo” a “favorito ao título” não fosse impressionante suficiente.

[“Pelo amor ao jogo”, parte 9]

“O agente do Magic ligou para o David Falk e disse para ele me ligar naquele instante. Eu estava dirigindo para casa depois do treino quando David me ligou falando freneticamente. Ele disse que Magic tinha alguma coisa muito importante para falar comigo e que eu tinha que ligar para ele. Então eu liguei. Quando Magic atendeu eu disse: ‘Que que tá pegando?’ Ele me contou que ele era HIV-positivo e que ele iria anunciar sua aposentadoria numa coletiva de imprensa dali a uma hora. Eu estava atordoado. Eu nem conseguia dirigir. Eu parei no acostamento e só escutei. Eu não conseguia entender completamente o que ele estava falando. Eu sabia da AIDS, mas eu não sabia exatamente o que era HIV. Ele explicou a situação, o que ela significava, e o que ele iria fazer. Eu não podia acreditar naquilo. Tudo o que ele dizia era otimista. Ele dizia que ele iria vencer e que tudo ficaria bem. Se aquilo estivesse acontecendo comigo, eu não conseguiria falar com ninguém. Eu não iria querer falar com ninguém. Eu não consigo me imaginar me ligando, explicando a situação e me mantendo otimista. Eu não seria capaz de falar. Quantas outras pessoas famosas teriam permanecido em pé, encarado aquela situação, e começado a resolver o problema?” (Michael Jordan)

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[“Pelo amor ao jogo”, parte 3]

“Eu sabia da magnitude do jogo, mas eu não compreendia completamente o que ele significava. Era 1982 e eu era um calouro na universidade de North Carolina. Nós iríamos jogar contra Georgetown, o time de Patrick Ewing, pelo campeonato nacional, no Superdome de Louisiana. Eu lembro que nós estávamos indo para o jogo. Eu estava prestes a dormir no ônibus e comecei a sonhar acordado. Eu estava chutando a bola que ganharia o jogo. Eu lembro de estar me sentindo tão calmo, tão relaxado. Eu não estava completamente acordado, nem completamente adormecido. Eu estava confortável em algum lugar intermediário. Eu me vi sendo o herói de um jogo. Eu me vi acertando a bola que ganharia o jogo. Eu podia ver meus companheiros de equipe, James Worthy, Sam Perkins, o técnico Dean Smith. O sonho não era muito específico então eu não sabia se seria o jogo contra Georgetown dali a algumas horas, ou contra qualquer outro time num outro ano. Mas depois de termos vencido Georgetown e ganhado o título, eu disse a meu pai que tinha tido aquele sonho. Ele pausou um instante e então disse: ‘sua vida nunca será a mesma depois desse chute. Sua vida irá mudar, filho.’ E eu pensei: 'bem, é só o meu pai falando. É claro que ele vai pensar isso sobre seu filho. Além disso, ninguém saberia dizer se minha vida vai mudar ou não com certeza.’ Eu nunca dei muito valor ao que meu pai me disse aquele dia - até agora.” (Michael Jordan)

Tenho uma notícia legal pra você que gosta dele, do Homem, do Escolhido: vamos falar de Michael Jordan. Na verdade, legal mesmo é que Michael Jordan falará sobre ele mesmo. Em 1998, a editora “Crown Publishers” publicou nos Estados Unidos um livro chamado “For the love of the game” (obra não publicada no Brasil, iremos traduzir como “Pelo amor ao Jogo”). E esse livro é uma coletânea de textos de Michael Jordan organizados por Mark Vancil. Selecionamos alguns trechos desse livro e publicaremos um todo dia de manhã durante alguns dias. Esperamos que goste. Os trechos foram livremente traduzidos e podem conter erros.

[Parte 1] INTRODUÇÃO DO LIVRO:
Por treze brilhantes temporadas, Michael Jordan dançou a dança da grandeza pelas arenas de Nova Iorque a Los Angeles, de Barcelona até Paris. Com um coração de guerreiro e a graça de um artista, Jordan há muito transcendeu o esporte para se tornar um dos ícones mundiais do século 20.

Na quadra, sua quase mítica capacidade de fazer algo espetacular levou o ex-jogador e super-estrela do Los Angeles Lakers, Magic Johnson, a simplesmente dizer: “Existe o Michael, e daí existe todo o resto de nós.”

Fora da quadra, a habilidade de Jordan de alterar o mercado e de conduzir os negócios de seus parceiros de marketing é sem precedente.

Por meio de tudo o que fez, Jordan mostrou ao mundo que a grandeza, a verdadeira grandeza, vem de dentro pra fora. Ele talvez permaneça como o atleta mais dedicado aos treinos da história do esporte: o desejo de melhorar a seu próprio exemplo permanece legendário. Quando os críticos questionaram sua capacidade de jogar em todos os lados da quadra, ele tornou-se o jogador de defesa mais dominante do jogo na sua posição. Quando os times decidiram proteger o garrafão para eliminar suas infiltrações, ele tornou-se um “jump-shooter” matador. Larry Bird e Magic Johnson tiveram os times melhor sucedidos nos anos 80, mas nunca conseguiram ganhar mais de dois campeonatos seguidos. Os Bulls ganharam três seguidos - duas vezes.

No “Pelo amor ao Jogo”, Jordan nos guia pelas maravilhas de sua carreira dentro e fora das quadras. Desde o sonho que precedeu o chute que venceria o jogo contra Georgetown nas finais da NCAA de 1982, até a metódica dissecação contra o Utah Jazz antes do chute que venceria o jogo seis das finais de 1998, Jordan abre as cortinas para revelar uma das vidas mais notáveis desse século.

Da irrelevância ao sucesso: o que Michael Jordan fez pela Nike.

       

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Os caras da Nike haviam se reunido nos bosques de Oregon para uma reunião fora do escritório. Eles imaginavam que uma mudança de cenário poderia ser boa para eles enquanto traçavam um caminho caro e ousado no basquete profissional.

Phil Knight estava lá. Também estavam seu braço direito, Rob Strasser; o advogado Howard Shguser; o designer Peter Moore, entre alguns outros funcionários. Naquela época, nenhum deles sabia muito sobre o rapaz magro da Carolina do Norte chamado Michael Jordan. Eles certamente não poderiam imaginar o que ele um dia significaria para a Nike.

Tudo começou naquele dia de janeiro de 1984. Knight havia fundado a Nike no começo dos anos 1970 para produzir tênis de corrida. Até aquele momento, suas incursões no basquete profissional haviam sido mal sucedidas. Agora, a Nike queria tentar de novo. Em 1979, Knight havia se encontrado com John Paul “Sonny” Vaccaro, um expert em basquete que lançou uma ideia inovadora: a companhia iria assinar contratos de apoio com treinadores universitários que - em troca - poderiam transformar seus jogadores em meninos propaganda da marca.

No primeiro momento, ninguém sequer sabia se isto era legal, e muito menos se as Universidades permitiriam a iniciativa. Cinco anos depois, todavia, enquanto a equipe se reunia no interior de Oregon, a Nike já dominava boa parte do esporte universitário. De um dia pro outro, Vaccaro havia fechado acordos de Georgetown até a Universidade de Nevada.

“Eu fiquei encantado com Sonny,” Knight disse. “Depois daquilo, nós demos a ele todo o espaço que ele queria.” Com a iniciativa universitária tendo sido tão bem sucedida, Knight sabia que o dinheiro de verdade viria do basquete profissional, onde Larry Bird e Magic Johnson tinham disparado a popularidade da liga. Os dois jogadores, no entanto, usavam Converse.

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Os homens naquela reunião estavam todos seguindo o velho método da Nike de pensar em soluções pouco ortodoxas. Com grande parte dos grandes jogadores da NBA já contratados pela Converse, os funcionários da Nike pensaram que eles deveriam apostar em um calouro, uma cara nova para a liga. Ainda mais ousado que isto, a Nike estava considerando criar um par de tênis exclusivos do jogador, e depois vender não só um calçado, mas um pacote inteiro de performance e personalidade.

O draft daquele ano tinha um bom número de escolhas promissoras. Akeem Olajuwon havia jogado em três Final Fours da NCAA e seria escolhido na primeira posição. Charles Barkley ostentava uma personalidade enorme. John Stockton era uma possível estrela branca. Algumas pessoas imaginaram se não seria melhor assinar contratos menores com todos eles, de forma a diminuir um pouco o risco desta empreitada do tênis-assinatura.

Então o braço direito de Knight, Rob Strasser olhou para Vaccaro - o homem cujos instintos compensavam sua falta de ensino formal - e perguntou a ele que jogador ele preferia. “O garoto da Carolina do Norte,” disse Vaccaro.

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Jordan estava no radar de todos, mas será que Sonny tinha realmente certeza? Ele havia metido a bola do campeonato em 1982 para a Carolina do Norte, é verdade, mas ele nunca mais tinha aparecido num Final Four pelo resto de sua carreira universitária. E ele nem fazia tanto ponto assim - anos mais tarde, surgiu a brincadeira de que, por conta de seu estilo conservador, o técnico da Carolina do Norte, Dean Smith, era o único homem que conseguia segurar Jordan com menos de 20 pontos num jogo. E Jordan, era bom lembrar, seria somente a terceira escolha do draft. Não seria melhor apostar na primeira escolha?

Mais que isso, Jordan ainda não havia tido a chance de mostrar sua personalidade. O programa da Carolina do Norte mantinha seus jogadores sob sigilo. Ele não era nenhum Barkley. Ninguém conhecia Jordan direito. E a Carolina do Norte era uma universidade da Converse; a Nike não tinha nem como entrar lá. Até mesmo Vaccaro nunca havia conversado com Jordan, uma raridade, tendo em vista que ele havia conhecido quase todos os grandes jovens jogadores depois de organizar o “Dapper Dan Roundball Classic”, o primeiro jogo all-star nacional para garotos do ensino médio. Michael Jordan, que evoluiu seu jogo mais pro final do ensino médio, não havia sido convidado para este evento.

Havia ainda outras preocupações. Em 1984, não havia ainda muitos negros famosos nos Estados Unidos. Michael Jackson estava apenas começando sua ascensão ao estrelato. A ideia de ter um jovem negro vendendo tênis personalizados para a América branca era absurda. Quem dirá um jovem negro que ninguém sequer conhecia.

Então Rob Strasser inclinou-se e olhou severa e longamente para Vaccaro. “Sonny, se você tem tanta certeza sobre Michael Jordan, você estaria disposto a apostar seu trabalho nisto?” Vaccaro não hesitou. “Sim,” ele disse, sem mencionar que o salário que ele recebia da Nike não era grande coisa. A partir dali, a decisão estava feita.

Por que Vaccaro estava tão convencido sobre Jordan? Nem ele sabe dizer: “Eu apenas sabia que ele seria o cara.” Dois anos antes disso, Vaccaro havia visto Jordan enquanto ele calmamente metia a bola do campeonato nacional no último segundo. Aquele chute era notável não só porque Jordan o havia acertado, mas também porque Dean Smith havia confiado num calouro para arremessar aquela bola, deixando de lado seus bons veteranos, James Worthy e Sam Perkins.

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Também havia o fato de que Jordan tinha um jogo que era sedutor para jovens atletas. As crianças sonhavam em ser alas que infiltravam e não pivôs. E ele também tinha aquele sorriso enorme enquanto jogava. Ele parecia um cara simpático.

De qualquer forma, Vaccaro estava certo. Anos mais tarde, aliás, ele foi o cara que colocou a Adidas no jogo quando apostou num jovem confiante chamado Kobe Bryant, e também quando fechou um contrato com uma escola católica de ensino médio de Ohio, que tinha um adolescente de 15 anos chamado LeBron James. Como se vê, Vaccaro não teve apenas um dia de sorte quando ele escolheu Jordan.

Vaccaro encontrou-se com Jordan seis meses após aquela reunião; eles almoçaram juntos depois de um treino para as Olimpíadas. Algumas semanas depois disso, Rob Strasser encontrou com o jovem em Beverly Hills. Finalmente, Jordan e seus pais viajaram para Oregon, onde Knight organizou uma pequena guerra entre empresas. Estavam lá Reebok, Adidas e Nike. Esta última finalmente fechou negócio: US$500 mil e um pedaço dos lucros para Michael Jordan.

No começo de 1985, um tênis foi desenhado. Ele era um pouco desajeitado e nada ortodoxo, com as cores preta e vermelho do Chicago Bulls de Jordan. Foi um sucesso quase imediato, impulsionado pelo estilo de jogo aéreo de Michael Jordan (ele e Dominique Wilkins haviam travado uma batalha memorável na competição de enterradas do All-Star Weekend). Naquele mesmo ano, o comissário da NBA, David Stern, deu à Nike puro ouro quando baniu os tênis da NBA por não obedecer aos esquemas de cor impostos pela liga. “Eu sabia que estávamos em algo enorme quando David Stern o proibiu de usar os sapatos,” disse Vaccaro.

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As vendas dispararam. Certo dia, Jack Joyce, então responsável pela produção da Nike, estava tão sobrecarregado por pedidos relacionados a Michael Jordan que jogou as mãos pra cima e gritou, “Vamos fazer tudo preto e vermelho e vender tudo!”

Foi mais ou menos isso mesmo que a Nike fez. A demanda crescia tão rapidamente que em um certo momento houve uma corrida pela oferta mundial de fio da cor vermelha. O crescimento nunca desacelerou. Em 1984, a receita total da Nike era de cerca de US$900 milhões. Em 1997, quando Jordan estava ganhando o quinto dos seus seis títulos, a receita havia batido US$9.19 bilhões.

As vendas do tênis de Michael continuam ainda hoje. 28 novos tênis do atleta foram feitos e Jordan é agora a sua própria marca dentro da Nike. O logotipo “Jumpman” e todos os comerciais dos quais ele participou são icônicos. A nação ter adotado uma campanha publicitária com um homem negro como protagonista ajudou a abrir incontáveis oportunidades corporativas para atletas e artistas negros.

“Ele é o garoto-propaganda mais influente que existirá,” afirma Vaccaro. E tudo começou com uma grande aposta no interior de Oregon.

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(Este texto foi traduzido e adaptado do texto original publicado pelo SevenSport, do Yahoo: What Michael Jordan Did for Nike.)

Dois cestos de pêssego e uma bola de futebol.

(Springfield, 1891) James Naismith estava em maus lençóis. Ele havia acabado de assumir o comando de um grupo de 18 homens da YMCA – que mais tarde viria a se tornar uma música do Village People, mas que na verdade significa Young Men’s Christian Association, a Associação Cristã de Moços. Essas escolas normalmente serviam como uma opção à vida nas ruas para jovens em busca de trabalho, incentivando a prática de princípios cristãos através de estudos bíblicos e orações. Acontece que era inverno e Springfield é uma cidade super fria, no nordeste dos Estados Unidos, na mesma linha de Boston, e - na época - os esportes que existiam eram quase todos jogados ao ar livre: rugby, futebol, baseball, etc. Em outras palavras, a turma de 18 homens estava puta: a grande maioria desempregada, boa parte longe de casa, frio pra cacete, sem poder praticar esporte, tava impossível de aguentar e a galera tava saindo na mão o tempo todo.

O diretor da escola então contratou Naismith e pediu para ele criar um esporte indoor que pudesse servir de distração pra essa turma. As exigências do diretor eram que o esporte não tomasse muito espaço, fosse possível de ser aprendido rapidamente, fizesse com que os alunos entrassem em forma e - obrigatoriamente - não fosse violento. Detalhe: Naismith tinha o prazo de 14 dias para cumprir essa tarefa. Como eu disse, ele estava em maus lençóis.

Para começar a criar o novo jogo, Naismith eliminou de cara qualquer coisa que dificultasse o aprendizado do esporte. Os alunos teriam pouco tempo para aprendê-lo. Então não poderia haver tacos, raquetes, nada que se intrometesse entre o atleta e o objeto que está em jogo. Em segundo, ele pensou que todo grande jogo tem que ter uma bola e resolveu que no dele haveria uma bola também. Resolveu ainda que os atletas jogariam com a mão porque com o pé seria mais difícil aprender. Por último, sobrou o mais complicado: ele tinha que pensar nas situações que faziam com que os esportes populares da época fossem violentos.

O Rugby era violento porque havia tackles. E havia tackles porque os jogadores precisavam ser parados. Os jogadores precisavam ser parados porque… porque eles correm com a bola! No novo jogo, então, correr com a bola não seria permitido. O atleta teria que ou arremessá-la ou passá-la. Isso já resolveria boa parte dos problemas. E, é claro, os punhos não poderiam ser utilizados para encostar na bola, muito menos os pés, apenas a palma das mãos.
Ele também concluiu que uma bola grande, leve e macia como a do futebol seria a mais segura.

Por fim, Naismith garantiu uma redução grande no contato ao fazer com que o objetivo do jogo estivesse acima dos defensores e, portanto, impossível de ser defendido. Ele imaginou também que os atacantes teriam que lançar a bola para cima com precisão e não com força, diminuindo a possibilidade de um jogador acertar o outro com a bola.

Com isso em mente e treze regras básicas escritas, doze dias depois de ter aceitado o desafio, em Dezembro de 1891, o primeiro jogo de um novo esporte aconteceu. Todos os 18 alunos jogaram, 9 de cada lado. Três na defesa, eram os guardas, três no centro, eram os centrais, e três no ataque, eram os avançados. Naismith não havia achado duas caixas para pendurar nas paredes e acabou pendurando duas cestas para coletar pêssegos. A partida teve muitas faltas: os garotos corriam muito com a bola, havia tackles e chutes e socos. Em pouco tempo, tornou-se um salve-se quem puder. Havia olhos roxos por todos os lados, um rapaz deslocou o ombro e mais adiante um menino ficou inconsciente. Mas esse era só o começo. Quando a regra de não poder correr com a bola ficou clara e foi obedecida, tudo mudou. Foi um verdadeiro sucesso. Cada vez mais pessoas se interessavam pelo jogo. Os rapazes brigavam menos. Naismith havia conseguido.

Dois anos depois, em 1893, o esporte havia se tornado tão popular que já era conhecido internacionalmente e, em menos de 15 anos, o basquete apareceria pela primeira vez nas olimpíadas. Da nossa parte, fica um muito obrigado ao Dr. James Naismith, ao rapazes que se arrebentavam na porrada no inverno de 1891 e ao frio maldito de Springfield.



Este conteúdo foi originalmente produzido para o quadro ‘Bola ao Cesto’ do Estação Basquete, podcast semanal do Homens Brancos não Sabem Blogar em parceria com a Central3. Vamos ao ar todas as segundas-feiras, ao vivo, às 21h. A história utilizou informações do livro “Basketball. Its origin and development” de James Naismith. Na foto, Smith e sua esposa, Maude Sherman, em 1928.

“Querido Basquetebol,

A partir do momento em que eu comecei a fazer bolas de meia com os meiões do meu pai e a chutar chutes imaginários que ganhavam os jogos no Grande Western Forum, eu soube que uma coisa era real: eu me apaixonei por você.

Um amor tão profundo que eu dei-me por inteiro - da minha mente e meu corpo até o meu espírito e minha alma.

Como um garoto de seis anos profundamente apaixonado por você, eu nunca avistei o fim do túnel. Eu apenas me via saindo dos túneis dos vestiários.

E então eu corri. Eu corri pra cima e pra baixo das quadras - atrás de todas as bolas perdidas - por você. Você me pediu garra e eu te dei meu coração porque ele veio com muito mais pra oferecer.

Eu superei o suor e a dor não porque o desafio me convidava a fazê-lo, mas porque VOCÊ me convidava. Eu fiz tudo isso por VOCÊ. Porque é isso o que se faz quando alguém te faz se sentir tão vivo quanto você me fez.

Você deu a um garoto de seis anos o seu sonho, e eu sempre te amarei por isso. Mas eu não posso te amar obsessivamente por muito mais tempo. Esta temporada é tudo o que me restou para oferecer. Meu coração aguenta bater, minha mente aguenta a pressão, mas meu corpo sabe que é hora de dizer adeus.

E tudo bem. Eu estou pronto para te deixar ir. Eu quero que você saiba disso para que a gente possa saborear cada momento que ainda temos juntos. Os bons e os ruins. Nós nos demos tudo o que tínhamos.

E nós dois sabemos - não importa o que eu faça a seguir - que eu sempre serei aquela criança com as bolas de meia e a lata de lixo no canto. 5 segundos no relógio, a bola nas minhas mãos. 5 … 4 … 3 … 2 … 1

Te amo sempre,
Kobe.” (Kobe Bryant para a The Players’ Tribune)

Ontem, oficialmente, Kobe anunciou sua aposentadoria ao final desta temporada. O fim da carreira de um jogador marca o momento no qual as rivalidades perdem importância, como Magic Johnson que, na aposentadoria do Larry Bird, apareceu com uma camisa do Boston Celtics. Agora, as rixas devem ser deixadas de lado. Esta não é a hora para comparações. Neste momento, a gente só deve olhar pra trás e admirar uma carreira brilhante, única, histórica. Um dos grandes declarou seu amor ao basquetebol e preparou para se despedir. Antes da sua saída, ele diz: “Eu quero que você saiba que estou te deixando pra que a gente possa saborear cada momento que ainda temos juntos.”

O dia de hoje será dedicado a ele. O Estação Basquete de hoje, nosso programa de rádio semanal, também será inteiramente dedicado ao Kobe. Começamos às 21h, ao vivo, na Central3.

[“Pelo amor ao Jogo”, parte 4]

“Eu tinha acabado de terminar meu terceiro ano na Carolina do Norte e o técnico Dean Smith ligou para alguns times da NBA para ver em qual posição eu seria draftado se eu me elegesse. Naquela época, no final de março e começo de abril, o 76ers disse a ele que eles iriam me draftar na segunda ou terceira posição, dependendo de qual eles tivessem. Mas conforme as semanas foram passando, o Chicago começou a perder e subir no draft. Ainda assim, a coisa toda se resumiu a uma disputa de cara ou coroa pra ver quem ficaria com a primeira escolha. A NBA não tinha a loteria do draft naquela época, então uma disputa de cara ou coroa entre os dois piores times de cada conferência decidia quem iria ficar com a primeira escolha. O resto da liga seguia atrás dos dois primeiros times, com a terceira escolha indo para o time com a terceira pior campanha e assim por diante. Se o Portland tivesse ganhado o cara ou coroa, eles iriam contratar Hakeem Olajuwon. Eu teria ido pra Houston e Sam Bowie teria acabado em Chicago, que tinha perdido o suficiente para passar o Philadelphia. Quando o Houston ganhou o cara ou coroa, o Rockets escolheu Hakeem e o Portland escolheu o Bowie. A coisa engraçada é que o Bulls tinham perdido um cara ou coroa em 1979 para o Los Angeles Lakers. O Lakers escolheu Magic Johnson e o Bulls escolheu David Greenwood, que ainda estava no time quando eu cheguei.” (Michael Jordan)

Ah, LeBron, querido. É isso. Chegamos mais uma vez aqui. Mais um jogo eliminatório em finais. O que é que vai ser? Mais uma derrota? Tanto esforço pra morrer na praia mais um aninho? Uma performance incrível do melhor jogador do mundo! Incrível! Pra depois não ser você quem vai levantar o troféu. Quem tá ali é o Stephen Curry, tá vendo? A filhinha dele também. O Klay Thompson também tá ali, até o Festus Ezeli vai ter um anel, cara. E você não.

E perder logo na frente do próprio público… isso é que deve doer. Tanta gente apaixonada por você. Tanta esperança. O povo todo de Cleveland contava com você, e o rei - mais uma vez - não vai corresponder. Aposto que teve muita família comendo menos no almoço pra poder pagar os ingressos desse jogo, LeBron. E mesmo assim você vai perder, cara? Poxa, que chato. Deve ser duro ser uma decepção.

Ou será que pode ser uma vitória? Iremos adiar o fim da temporada mais um pouco? Que tal levar esta série pro jogo sete? Um jogo em Oakland! Imagina quanta coisa legal estaria envolvida: imagina o clima dessas finais, imagina a tensão! Se essa série termina hoje, é mais uma derrota sua pra história dos playoffs. Se essa série vai pro jogo sete, amigo, é uma série pra não ser esquecida. É um épico instantâneo. É você podendo ser quem você clama ser: um rei.

O que vai ser, LeBron?