daniel-sol

Joga fora todos os poemas velhos, abre a janela e monta na bicicleta, se esquece dela e compra flores pra si. Não se machuque mais. São as coisas que ela diz. Eu nunca esperei tanto por alguém. Eu nunca havia esperado com tantas expectativas a hora de rever alguém. Eu nunca quis tanto ver de novo alguém que deixei de ver há menos de 24 horas. Eu nunca amei tanto, me sinto bobo, me sinto vítima, mas os olhos dela são de uma escuridão plácida que traduz a luz das estrelas numa aura furta-cor. Os olhos são furtivos, um céu noturno que rouba a minha consciência; os sons se anulam e mergulho sereno, sozinho. Acabo de voltar desse paradoxo no tempo que são os olhos daquela menina. Ela diz coisas belas que me fazem sair da cama e abrir a janela e botar açúcar no meu café. Ela sabe ler pupilas. Ela tem um segredo. Ela leu os meus olhos desde a primeira vez. Naquela primeira vez viu a dor e sussurrou como o vento que pairava sobre aquela lagoa de águas serenas em que a vi, como o vento que baila em meio ao silêncio impenetrável, como o silêncio que é música que faz de cordas os raios de uma tão cheia lua, como felina e como flecha ela disse: ‘Não se machuque mais.’. Eu tenho não mais feridas, mas cicatrizes. Eu pensei toda a vida que as minhas marcas eram fruto do abandono, do adeus que desde a primeira vez que o ouvi, ecoou até o dia em que ela chegou. Eu pensava que essas marcas haviam sido abertas por outrem na parede do meu peito, mas sou eu o agressor. Eu sou meu assassino paulatino. O adeus foi dito por outrem, por outras, por elas, mas a porta fui eu quem fechei, a luz eu apaguei, as lágrimas eu derramei, o café amargo e frio eu preparei, a taça eu enchi, as torrentes de palavras ansiosas por salvação eu mesmo transbordei. Eu nunca quis voltar atrás, buscar ninguém, e agora eu só quero enrolar as mãos naquele cabelo como seda negra e deixar que a noite minta eternidade outra vez. Eu nunca quis tanto ver o sol nascer de novo. Eu nunca quis viver pra sempre. Eu tenho um milhão de novos poemas e todos são pra ela. Eu não a tenho presa e deixo esse pássaro voar por aí, deixo que um dia se vá, ela me ensinou a não chorar em vão. Eu tenho um poema de despedida, não de solidão. Eu tenho um poema de liberdade e de saudade, mas não tenho mais a felicidade no ontem. Ela não promete voltar, eu nunca gostei de promessas, e não importa que vá, eu a tenho como que pra sempre nas melhores lembranças, no jeito bonito de sorrir que ela me ensinou. Eu aprendi a imitar o canto de um passarinho e a andar de bicicleta sem usar as mãos. Eu aprendi que o adeus não machuca, amanhã pode ser que não nos vejamos nunca mais, mas é bonito assim, aceitar a liberdade do outro, curar feridas e esperar que o nunca mias não tenha pressa. A vontade de vê-la é imensa, mas os horizontes são, agora, ainda maiores. Ela disse que me ama e eu a amo demais. Ela disse pra que eu nunca deixe que nenhuma garota se ache dona do meu amor, que esse amor que eu tenho eu posso levar pra onde quiser. Ela disse ‘eu te amo’, mas que esse amor não é meu, é dela, que as flores que compra são pra ela. Eu tenho um segredo. Eu nunca aprendi a dançar e ela perdoa isso e diz que é lindo o jeito como eu não ligo. Eu nunca aprendi a confiar e a me entregar e ela pediu pra que eu nunca confiasse nem entregasse meus sentimentos a ninguém. Ei, Mario, simplesmente seja sol, nunca entregue sua luz a ninguém, Sol que ama a Lua que brilha com a sua luz, Sol que nunca se entregou a ninguém… São as coisas que ela diz.
—  FLORES PRA SI, Mario Hummer