daniel-canhoto

POESIA?

Repete o traçado inerte

Do pecado que inverte

O movimento da poesia

Que como o louco, o bêbado e o analfabeto diziam:

Que o alfabeto se contraia

Se retorcia

Se com as dores se unia

Já jazia a palavra poesia

Era poesia desgastada

A mais usada e valorizada

São versos da coprolalia?

Ou poesia?

- Daniel Canhoto

OUVINDO…

Ouvindo o pensamento das trevas

Ouvindo as vozes do silêncio feminino

Ouvindo o grito das selvas

Deitado no colo das divas em sono divino.

Sou eu aqui na prisão

No sono

Sou eu preso no porão

Sou eu sem dono.

Ouço vozes

E risos

Ouço vozes algozes

Vozes de amigos

E amores escondidos.

Sou eu entre o tudo e o nada

Sou eu na estrada parada.

Ouço vozes do Bem e do Mal.

Ouço tudo igual

Iguais aos gritos do inferno

E sinto o frio do inverno retirando a esperança do amor interno.

Ouço o grito eterno de dor e de amor

Ouço o meu amor solitário

Empoeirado

Hereditário

Do amor passado.

Sou eu na doença

Preso no sono

Ouvindo gritos da consciência

E preso em minha própria cabeça.

(Daniel Canhoto)

“AMOR” DO ÉDEM

 

Você não quer ser a minha estrela

Você não quer ser a minha flor

Meu poema é uma ofensa

Assim como sua estranha falta de Amor.

Seu amor é corpóreo

Seu amor morto

Seu amor não arde

Nem sentimento é

Quanto mais razão

Esse seu amor

Que não está na alma

Não é humano

Não está no espírito

Por isso

Burrice chamá-lo de amor

Que ele não existe no sangue

Mas é instinto

E vem do lado mais sujo por trás daquilo em nós quando não somos nós

Esse impulso involuntário

Vem do seu “carma”

Faz parte do meu (aquilo que trago

aquilo que atraio).

Uma aproximação desse monstro aqui

Nem pode gerar amor no coração dele

Se ao menos o acolhesse

E proporcionasse lenta, mas branda morte,

Mas só o alimenta com o fruto da morte:

Esse seu “amor”.

 

Um amor do Jardim do Éden…

Um beijo de Judas…

 

– Daniel Canhoto

OS PÁSSAROS SOMBRIOS ME CONTARAM ISSO

Quero sair na rua

Sentir o vento fresco

No corpo

O vento gelado

Entrando em minha alma

Depois da chuva…

 

Isso me faz esquecer a loucura

O mundo é uma loucura

As pessoas são uma loucura

Todas as palavras vêm

Com o objetivo de mudar a sua mente

Estamos mudando o tempo todo

E me tornei naquilo que jurei que nunca me tornaria

Abominável.

 

Quero andar sozinho na rua

Isso me faz esquecer…

O mundo é sujo

Mas ainda sou capaz de respirar o seu ar puro.

Quero esquecer a guerra invisível

Nos lábios

Nos olhos

Nos punhos

Até mesmo dos casais apaixonados.

 

Fecho os olhos

Sinto o vento

O cheiro da chuva

O canto dos pássaros

E sorrio de dentro.

Assim eu mudo a minha mente

O mundo é um quarto escuro

Mas eu sinto paz

Ao contemplar a luz entrando pelas frestas da porta

Da porta

De minh'alma.

 

Eu fecho os olhos

E mudo minha mente:

Eu amo

E isso acaba com a dor

Com a fome

Com os demônios…

 

Eu sinto o que não necessita explicação

Que acaba explicando tudo.

Daniel Canhoto - 

AMOR RACIONAL

O homem é um animal.

Que desperdício do seu lado racional!

o homem é guerra

é um milhão de dólares

um pedaço de terra

e deuses exemplares.

-

O homem é concreto

é uma razão.

-

Como seriam deuses?

Se Deus é amor.

-

O homem se fosse amor

seria paz

não teria que pagar

que medir para morar

seria livre.

-

Pena que amor é só um sentimento…

E nesse mundo de semideuses

as máquinas

os cálculos matemáticos

o dinheiro…

…a razão

é soberana.

-

Amor não é razão?

É

a razão de tudo.

-

No princípio era o vero

e verbo era amar…

Falo como se tudo fosse amor…

Ora,

nem tudo é amor,

mas amor é tudo.

-

De amor não se morre

por amor é que se morre

por amor é que se vive.

-

E é diferente

quando o que o homem sente

não só comove

como também move.

(Daniel Canhoto)

ALGO MAIS QUE AS RETICÊNCIAS

Quero um maior motivo

Para chorar

Além do inútil motivo

De sentir dor

Sem sentir tristeza

Sentir amor

Se há um Santo motivo

Santidade

Se há sabedoria no motivo

Pensamentos

Eu os quero para viver.

Que minha boca fale essas palavras chorosas

Antes da morte de meu corpo

Que chorosas sejam ditas essas palavras em alegria

E ressuscite esse corpo morto

Que uma alma risonha livre-se de uma mente doente

Que essa criança cante

Que essa criança livre-se da cadeia em que chora

Que chore nas palavras

Que surjam palavras na sua boca e razões na mente

E morram as coisas velhas

Que uma santificação cresça dentro do menino.

Quero um maior motivo

Além de todo o todo

Todo o meu todo

Que vejo

Cego.

Quero

Minha vida

Que não conquistei

Quero o ar para o eu em mim

Que sufocado nunca pôde respirar.

Quero algo mais que as reticências

Algo que não sei da existência

Mas está em mim

Dentro de mim

Em trevas

Longe…

Uma sementinha é o que é

Um solo infértil é o que sou.

Uns olhos de carne choram

Uns olhos de alma ainda não nasceram

Os olhos de alma, sufocados, vão morrendo

Sem nunca chorar as lágrimas das visões das almas

Sem nunca ter visto de dentro para fora nem de fora para dentro

Algo além do cego escuro de paradoxos e labirintos que não são mais que reticências.

As reticências enchem e enganam o estômago

Mas não sacia a necessidade que sei que tenho

Que sabemos que temos

Vamos morrer de insatisfação

Vamos chorar rios de confusão

Mas basta uma lágrima

De cada um

Só basta um olhar

Para a luz

E pronto

Não dói nada.

Eu vou chorar uma lágrima

Eu vou amar

E vai fluir a minha alma

E não importará mais nada

Não precisarei de palavras

De nada

Apenas quando eu conquistar o tudo

Tudo se acabará ali.

Me disseram

De dentro de mim

Que eu não precisava sempre andar olhando para frente

Que eu precisava olhar para cima de vez em quando.

(Daniel Canhoto)

O OLHO DA RUA

Se a hora é feita de madrugada

E a alma procura repouso

            que não o sono

E é quase audível um choro infantil

            abafado pela mão

                        da razão

            na boca…

E a culpa é do…

A causa

É o afã

            o remédio da fome.

A loucura parece uma mão

Tão íntima

            tão minha

Que me toca o ombro.

Dói o nó da gravata.

            e anda na rua

            e tropeça na fobia social

            e sempre que chove

            aproveita pra chorar

pois a chuva esconde-me as lágrimas…

A dor

Do peso

Que tem

O tempo.

A dor

Da consciência

            intensa

                        parece luz

                                   d'aurora

                        intoxicando as retinas úmidas de sono.

A dor

            como se de um câncer

                        a dor do câncer

                                   ou tumor

Vem não sei d'onde

            e parece um poema

            sem título

            amarelado

            em qualquer gaveta…

            parece um poema

            não lido

                        tão lindo

            no bolso

            de qualquer jaqueta

Levou para casa          pôs na gaveta

O olhar                        tão cheio de humanidade

Pesado

Estranho          do estranho

Como o de quem diz:

Acho que tem alguém ali!       parece que há gente ali…

JANELAS

Espero passar

A poesia

Pela janela

Que passa

Com assas

          Um pássaro.

Com pernas

          Você

Passeando na beira do mar

Logo fecho os meus olhos

E abro a janela em mim

Para o vento poder entrar…

Ainda lembro do teu perfume…

Daniel Canhoto -

RUBRAS PALAVRAS RUDES

Uma palavra salva, outra condena. Eu escrevo sem ligar para as palavras e frases. Seja lá o que querem dizer, só quero o que é lúdico nelas. Não me importa se elas me julgam, se me guiam, iludem, conformam, confortam… Eu observo e não me deixo levar. Eu observo e quero arte, como se fosse meu dever. Então eu deixo que falem, uma palavra que machuca, uma que condena. Uma que ilude foi dita sem pensar, sem esforço, tão naturalmente, que já estava programada. Depois eu posso escrever tudo e ler repetidas vezes notando o quanto palavras que me dizem podem ser ridículas. Eu as anulo no papel e não as faço passar de um emaranhado de letras escritas. Deixo que gritem, palavras não me agridem. No âmago estou eu, brincando com as palavras que me vão chegando. As pedras me jogam, mas estas me chegam mais ensangüentadas do que me tiram sangue. Escrevo nirvanas e os zombo, mais uma miragem que criei. Com meu tênue sorriso eu grito pra dentro de mim: “Criança, pintaste uma tela, sem retratar, infância de aquarela, um lugar, feliz ou triste, não importa, não há uma porta, e o lugar não existe.”.

Quando escrevo, não sei sobre o que pode ser abstrato. Vou despejando as palavras que tenho dentro de mim, que quase não me fazem estragos internos. Quando escrevo vou mentindo, sonhando, cantando… Meus pensamentos podem se misturar ao que pinto, minha aquarela negra, mas não é essa a minha intenção. Escrevo come quem tece, usando de quaisquer linhas, tecendo qualquer coisa e às vezes, quase que automaticamente. Depois me visto dos trapos que teci, como se dissesse: “Me atirem pedras!”…  São só palavras. Aparentemente não tenho reação.

– Daniel Canhoto

EM DESALINHO

O que acontece comigo

por que o percebo

se hoje foi um dia normal

lá no trabalho?

E por que sou eu o único

que

nesse fim de tarde onde o sol se vai poente

sinto

que o azul daquilo que é céu

está

prestes a desabar?

Por que demônios

meus passos se desalinham

no caminho

como se não mais o soubessem?

Por quê, demônios

sou eu o único a sentir um mal iminente

sob o contorno dessa calma?

Por que vou

com essa cara de quem gritaria

pela paz da estrada?

Já não suporto o peso da luz sobre os meus olhos

            não tenho medo do escuro

tenho medo d’aurora

dessa realidade que é desrespeitosa por demais.

Porque não creio mais

n'Ela

que Ela poderia vir, de lá do outro extremo dessa ponte…

Sabe, o homem que não ama

é um daqueles

que olha lá

pra baixo

e pensa:

“Ora, porque não?”

Pois, ora, por que não? 

— Daniel Canhoto

Meu subconsciente tem me emprestado almas para sentir o que naturalmente não sentiria com minha sensibilidade natural. A última consciência que gozei tinha os passos alados, o espírito mais alto. Eu tinha a liberdade de andar pelas ruas, entrar pelas portas, me por em presença de outrem sem a necessidade de fazer uso das vestes da vaidade e do pudor. Nesse sonho que ocorre no além impossível dos montes, um dos meus maiores rivais assumia a forma de uma dona de casa tímida e silenciosa, senhora inofensível, mas tinha qualquer coisa que me fizesse sabê-la como sendo meu colega rival. O que há de lamentável aqui, além do fato de que nada foi realidade, é que, depois de ter despertado, não sobrou em mim nada daquilo que meu subconsciente me disse que posso ser. Fui inegavelmente mais eu do que finjo ser, mas a tentativa de educar-me em sonho foi falha. Tenho vivido na intimidade profunda comigo mesmo os eus inatingíveis de minhas aspirações, donos daquelas virtudes que tanto me envergonham. Meu espírito vai buscar, na catacumba de minhas ciências infantis, o corpo putrefato de minha Inocência para chorar a morte que não chorei por cobardia cega. Minha Mente costuma recriar a casa que vivi em infância, julgo, lá, ter de volta a paz que abandonei por um capricho ignorante. Erro em não saber o que desejo dizer-me com tudo isso. Parece viva a minha criança, parece ela lutar para continuar vivendo, mas eu, sujo de vaidades adolescentes, pareço ignorá-la.
—  Daniel Canhoto - O EU PARA ALÉM DOS MONTES